Maria.

Sou Maria, correta, mulher honesta, de ir à igreja toda semana, alimentar os pobres, dar dízimos, trabalhar na quermesse. Viúva de Zé da Esquina. Que sou boa nessa vida, sei que sou. Que aqui se faz e aqui se paga é coisa mais certa que a morte. Meu Zé, que Deus o tenha, foi levado muito tarde dessa vida. Sofri e nunca reclamei. Assim é o fardo que me deu Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo viúva e sem filhos, não há dia que amanheça sem o sol me ver trabalhando. No tanque, na casa, plantando ou costurando. Sei dos meus deveres de mulher, minhas obrigações de viúva. Ando de preto. Me cai bem, mas é minha roupa de luto. Honro meu marido morto. Viúva e solitária. E quando me vêm os pensamentos, me ponho a dormir nas pedras pretas, no chão da cozinha.

 

Quimaz

Não sei se o nome ou quem sabe a cicatriz, mas o certo é que Quimaz sempre se sentiu um igual. Com o nome, Quim do pai Joaquim, e Maz de Maria Zeneide, com seus defeitos, suas deformidades. Sentia-se como todos. Um pouco diferente, mas igual. Coxo, andava direito. Trabalhador, sustentava a família, mulher e sete filhos, os pais e os sogros. Um cunhado meio preguiçoso também. Andava reto pela vida. Tão reto que o pessoal de Monte Azul já não via mais seu pé arrastado, a deformação do lado esquerdo do rosto, e o nariz até hoje quebrado. No espelho Quimaz nunca se viu diferente. Penteava os cabelos para trás e ia para a lida. Namorou só Tereza e com ela teve os filhos. Casou depois do segundo, na igreja, quando a cidade voltou a ter padre.

 

A Chuva

Chuva muito escura, céu terrível, impossível olhar para cima. A água bulia nos olhos, fechava o nariz, pedia para a boca se abrir. E a chuva sempre tem bom gosto. A chuva de Maria era reta, clara e mansa. A chuva, porque o céu era dos estrondos, dos reclamos indignados de São Pedro. Já a de Quimaz, desordenada como seu andar e de céu limpo. Abundante somente nas águas. Alagava, encharcava, subia nas calçadas. Nas chuvas de Maria, Quimaz nem saía de casa.

Maria e a chuva. Maria na chuva. A única vez que Quimaz viu Maria foi na chuva do equinócio. Uma vez na vida, uma só, Maria saiu na chuva. Se despiu. Tomou a chuva em mãos de concha, deitou na terra, abriu as pernas e se deixou macular. Os trovões silenciaram e Quimaz foi à janela. Viu Maria. Sentiu Maria. Tantos filhos e só agora sentiu as pernas, o entre as pernas. Melhor sair da janela, pensou Quimaz. E continuou no mesmo lugar.

 

O Tempo

Quimaz vai à igreja, todos os dias. Maria, nos domingos. Ainda não se encontraram. Quimaz passou a ter aqueles quesitos necessários à beatificação da alma. Terços, santinhos. Maria, sempre de luto. E como o luto lhe cai bem. Tereza, mulher de Quimaz, reclamou ao padre a falta do marido nas obrigações do casal.

– Ele reza pelo bem de todos, minha filha. Seu marido agora pertence a Deus.

E assim foi. Maria, sempre de luto. Quimaz, de casa para a lida, da lida para a igreja, da igreja para casa.

E todo ano, no equinócio da primavera...
 

 

 

 



1 – Não sabia que sabia

Namoro de menina, melhor ver quem era e de que família. Assim diziam minhas tias. Na época dos filhos, melhor estar casada, diz a tradição.Tudo começa e tudo termina. Descobri agora a maravilha de namorar aos 40 e alguns. Não tendo mais que casar, ter filhos, viver junto, percebo o supremo luxo que é o simples gostar. De pescadores a escritores, passo por todos. E sei, agora, que é de bom tom não ter tom algum. Entrar no ritmado da vida deixando livre as batidas do coração. Que agora, mais velho, com muito conhecimento da vida, me diz: esqueça, não existe a tradição. Esquecerei. Esqueci. Estou na entrega total. Sem prazos, sem carência. Dou-me o direito da felicidade assim que a vejo. E foi assim que saí com quem gostava de mim. Sem saber... que o meu gostar, lá atrás, era ausente, mesmo sendo presente. Só eu que não sabia. Que bom ter saído com quem gosta de mim. Tirou daqui todo o amor que estava lá.

E agora ando encantada em me saber enamorada.

 

2 – O Banho

Depois do banho gosto de me enrolar na toalha, ligar os ventiladores e me deitar. É a preguiça que me leva. Não me seco. Espero o vento que vem espalhar meu final de banho. Deitada, fico pensando. Gosto do cheiro de amêndoas que meu corpo exala. Chamo de cheiro-de-lavadinha. Sempre atesta banho recém-tomado, corpo descansado. Descanso meu tempo enquanto espero esta falsa chuva que é o banho ir embora. Sem nada a fazer a não ser esperar, desordeno as imagens e lembramentos. Gosto sim, de pensar em palavras, criar Rosas de Guimarães vendo que a vida é um vago variado. Que coisa... Tenho sido feliz.

Sem saber.

Sem aproveitar.

Melhor viver assim a felicidade.

Ela não se assusta, nem vai embora.

 

3 – Sapos na gravidade

Acho que nas apresentações, virtuais ou escritas, é melhor ser honesta e verdadeira. Nunca disse o número de rugas, mas cheguei perto. Adoro ter meus 45 anos, onde atuaram as leis da gravidade e da gravidez. Falava isso e ria, quem me ouvia também. Claro está que queriam saber que leis eram estas. Da gravidez onde tudo cresce e da gravidade, aquela que coloca tudo para baixo. Na verdade, pensava eu, estava fazendo um bem para a humanidade ao me dizer gorda, feliz, com rugas, estrias, celulite, e é claro, as quedas do tempo, de frente e verso. Quem é dos mais de 40 me entende muito bem. Bem, era o que eu pensava. Levei tamanha bronca de Desvairada, uma amiga, que parei para pensar. Será que estou errada? Mesmo dia, horas depois. Não foi bronca, mas reprimenda. Meu Surfista ficou bravo.

– Como tem coragem de se descrever assim? Você não tem nada disso. Aqui, veja, tem histórias e vivências. Por aqui, cresceram, por aqui nasceram, estas ancas que tanto gosto, carregaram filhos, alimentos, cansativos supermercados feitos vida afora. E eu, ouvindo, encostada na cama, boquiaberta.

Como defesa retruco: são teus olhos.

– Não senhora. Meus olhos gostam de você, minha boca só diz que assim falando já se diz desmoronada. Não balance teus cabelos só para os lados. Junte neles o que você tem e esteja sempre minha bonita.

O vezo de ser mãe de filhos em idade escolar me faz dizer: não é esteja, meu Surfista Holandês e sim seja.

– Seja, é o que todos são. Contigo é o verbo, como a palavra que não tem explicação. Ou assim como sou, teu príncipe que virou sapo. Que o beijo não trás de volta, mas sou eu que a uso em beijos, na tentativa... quem sabe um dia... – E veio me beijar.

Sorriso lindo do meu sapo Surfista Holandês. Ser sapo, continuar sapo. Minha lei é a da gravidade. Corpos se atraem.

Depois, muito tempo depois pensei... sapo... era eu... até outra hora

Volto aos beijos.

Evitam que sapos desafiem a lei da gravidade.
 

       

  

 

A Rita levou...

 


Se tem coisa que dificilmente acontece comigo, é ficar sem graça. Sou risonha, moleca, de bem com a vida. Esquecida e confusa são predicados que vivo me dando, claro, para que todos certifiquem-se da doidivanas que sou. Algo como... falando isso serei eternamente desculpada das minhas cincadas pela vida. E que, ai meu caramba, são muitas.

Fui ao enterro da tia Odetinha. Fui à missa de sétimo dia. Tia Carmem, a filha e Maria Lúcia, a neta, inconsoláveis. Boa que sou, fui fazer visita semanas depois.

– Tia Carmem, cadê tia Odetinha? Ainda emburrada sem querer ver a família? Essa tia... um dia ainda morre de tanta teimosia.

Óbvio que não me convidaram mais para os deliciosos chás das cinco, todos feitos às 3 da tarde.

Outro dia, aniversário de meu pai, cheguei para Edu, primo-irmão, que não via há mais de três anos, toda feliz.

– Edu, seu porqueira, que tempão... E como vai a Lúcia, esta tua linda esposa?

Na verdade eu tinha visto, assim num repente, que a Lúcia tinha emagrecido um pouco e quem sabe ficado mais alta. Mas como não tenho a melhor das memórias, e porque sempre acho que a falha é minha, tasquei um beijo na bochecha da loira. Lúcia era loira ou ruiva? Não lembro direito. Aliás, nem precisei lembrar. Minha mãe veio rápida me tirar dali.

– Maria Odila – gritou ela surdamente, rangendo os dentes, dando pausa longa entre cada sílaba, o que já me fez sacar que eu tinha feito uma bela cagada. – Não fala da Lúcia pro Edu na frente da Denise. Lúcia é a amante dele e a Denise, é a esposa.

– É, mãe? Lúcia não é a esposa? E quem é loira? E quem é ruiva?

– Nenhuma das duas. As duas são morenas.

– Ah sei, e a Lúcia, aquela, é a amante?

– Claro que é, e fala mais baixo. Isso não precisa ser alardeado para toda a família.

Bem, gafe nem chegou a ser, porque a principal, a Denise, travou um bate-boca federal com o marido, por causa da oficial, sobre mantenedores e suas teúdas. Saíram da festa aos berros. O homem, que tinha outras, porque ele é dado mesmo a ter muitas, além da “uma” já oficializada, saiu tentando explicar o inexplicável. Graças aos céus que saíram, porque a oficial das primeiras, prima também, chegou em seguida. Aí sim, deu um baita bode, mas desse nem vou falar ou outra vez vai sobrar pra mim.

O que quero dizer é que com tudo isso é que nunca perdi o rebolado. Nunca até hoje.

Rita, prima e amiga, da ala dos Lobos ricos, e ela sim, pirada de dar dó, me chamou para fazer shopping. Fui. Gosto de sair com ela. Damos ótimas gargalhadas. Mas hoje ela estava especialmente contida.

– Ta apaixonada, prima, tá?

– Eu? Sempre estou. Mas por que pergunta, hein, prima? Nos chamamos de primas porque nossos nomes foram trocados. Ela, era para ter o nome da minha avó, Odila, mas como nasci um dia antes, herdei este privilégio. Para evitar os chiliques que ela tem quando falam da troca, quando juntas não mencionamos nossos nomes. Nos tratamos por prima e prima, somente.

– Tá muito quieta, hoje – continuei.

– È? Oras, não sei por que... quem sabe deva ficar apaixonada? Pelo Rui, seu queridinho, o que acha?

Ri da besteira que ela falou e continuamos conversando. Ela guiando e eu sentada, meio de lado, olhando mais para ela que para a rua. Num sinal, na maior, ela me diz:

– Ô prima, segura aqui pra mim, e solta as duas mãos da direção, entra com a primeira e sai acelerando o carro. Eu, desesperada, vou segurando a direção, mais branca que folha de impressora, enquanto a louca da prima mexe nas costas e depois começa a tirar o sutiã, primeiro pelo braço direito, uma alça, depois a outra pelo braço esquerdo e finalmente, pelo decote, puxa a peça rendada, radiante de tão vermelha.

– Pronto, prima, pode deixar que agora eu guio.

Eu, contrariamente aos meus costumes, estava sem fala.

– Prima! Como pôde?!! Tirar o sutiã assim, na rua, na frente dos outros? Tá louca?

– Que na frente dos outros que nada, tirei só na sua frente, prima.

– É, mas com a janela aberta, sua doida.

– Ué, claro, com este calorão acha que eu ia andar com a janela fechada? Estava me irritando o sutiã.

Falou e ameaçou um bico de melindrada.

Vi que ela não gostou. Fiquei quieta. A prima tende a ser muito estúpida, histérica, exaltada também e eu não estava ali para presenciar um daqueles já nossos conhecidos ataques de geniosidade da dona Maria Rita.

Chegamos no estacionamento. Maria Rita sai do carro e começou a se saracotear empurrando a saia pra baixo. Me deixa tão assustada que saio berrando com ela.

– Prima, pára com isso. Vai tirar a saia também?

– Acha que sou louca? Estou é tirando uma pedra do meu sapato. Tenha calma, dona Odila, ou a senhora fica velha antes da hora.

E com a sobrancelha arqueada já me olhava arrevesada.

Fiquei quase histérica de tão calma.

Mas fomos. Passeando e fazendo compras. Eu, falando praticamente sozinha de tão nervosa pelas doidices da prima Rita, e ela andando mansamente, rebolando, como sempre faz. Até que parou na minha frente e ainda de costas para mim deu outra daquelas gingadas. Aquela do estacionamento. Pensei, quase rezando, não vou ligar, não vou ligar e continuei andando, vendo, mas sem enxergar. Firme, tracei uma reta em pensamento e fui seguindo. Bem atrás da prima. Mas a prima tinha mesmo parado.

Estarrecida entendi o que estava acontecendo. ELA ESTAVA TIRANDO A CALCINHA. A prima tem mesmo destas coisas... o que aperta, incomoda, ela tira. Mas não ali, no meio do shopping, cheio de gente indo e vindo. Mas ela o fez e como fez. Tirou mesmo a calcinha.

Fiquei boba. Bestificada, colada no chão. Colada não, que continuei andando sem perceber, sem pensar e grasnando, ou gaguejando, resmungando até.

– Prima. Maria Rita. Como você... como você...

Eu estava branca, vermelha, rosada, estava multicor de tão aturdida com a ousadia da prima. Aí ela virou-se e disse, cara de espantada e com a mão cobrindo a boca.

– Maria Odila!

Parei. Aliás, tinha parado bem em cima da calcinha da prima.

– Prima – me disse ela – tua calcinha acaba de cair no chão!

Foi o troco, um dos ataques geniosos da dona Maria Rita. Morri de vergonha. E vergonha foi pouco. Quase acabei na segurança... mas isto também é outra história.
 

       

  
    

Maria Odila
Odeio biografias.
GRRRRRRRRRRRRRR...