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Quando cheguei lá em cima, bem no alto, comecei a bailar. Que coisa gostosa! Tudo ali embaixo bem pequenino! Foi aí que vi um homem passando com seu orgulho. Ele ficou menor do que o estava vendo realmente. Tudo – pensei – depende de ângulo. Basta mudarmos nossa posição na vida para vermos o quanto certas coisas que valorizamos são tão insignificantes. Mudamos nossa posição e mudamos a nossa visão da vida. De onde eu estava agora, tinha uma visão mais global, mais geral. De onde estava via certos homens se rastejando no orgulho. Tão pequenos! Continuei flutuando, meditando e os pensamentos iam se abrindo, tornando-se leves. Contraditoriamente, me sentia enorme. Abarcava tudo de uma só vez. Quanto mais nos distanciamos dos problemas, maiores ficamos e quanto mais próximos a eles, mas ficamos menores. E, quanto mais me sentia crescer, mais sentia piedade por aquelas vidas lá embaixo. Todos tão cegos! Como podem, ali embaixo, ter uma visão grandiosa, exceto que se elevem? Para Isto, é preciso tirar os pés do chão e erguer os pensamentos. Mas, a maioria está tão colado à terra, com o peso de seus problemas, que não conseguem se decolar mais. Não conseguem viajar dentro de si mesmos. O fato é que os dias vãos se passando e os homens vão ficando pesados, densos e não conseguem se erguer. Para flutuar eles precisam se soltar, se libertar de tudo que os puxem para baixo. Está certo que, para uma pipa como eu, isso é fácil, mas onde está a imaginação? Não basta, para isto, soltar a linha? |
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Mas Alice era uma sonhadora. Bastava ficar em frente a seu espelho que ela se transformava. Para ela, a única coisa real na vida era aquele espelho. Ele, sim, é que refletia a sua verdadeira natureza e essência. Assim, sua vida era toda desenrolada na frente dele. Nele, ela realizava sua história. Despia-se à vontade. Ria, chorava, cantava, gesticulava, fazia amor, segredava suas fantasias. Enfim, o espelho era a única coisa concreta em sua existência. No espelho ela via sua beleza, sua força, seu talento, sua bondade, seu destino. Ele era mágico, pois, tudo nele era realizável. Nele, ela se reconhecia. Nele, ela se completava. Toda vez que ela se via refletida nele Beatriz aparecia. Suave, encantadora, verdadeira. Beatriz levava Alice ao céu. Criavam asas e subiam, subiam, subiam... Era Beatriz que conduzia Alice pelas ruas. E, quando Alice estava com Beatriz, se abria, se iluminava. Apossava-se da rua. Andava solta, livre, leve, segura. Alice só se sentia verdadeira, autêntica, poderosa, quando estava com Beatriz. Quem era Beatriz? Alice sabia que Beatriz era ela mesma, mas as pessoas não reconheciam isto. Um dia Alice foi tão absorvida por Beatriz que nunca mais conseguiu ser Alice novamente. Alice sumiu definitivamente. Foi absorvida pelo espelho. Alice tornou-se pura luz, como Beatriz. Sua mãe, ao entrar no quarto à sua procura, só viu um brilho fantástico vindo do espelho. Até hoje procuram Alice, quando deviam, antes, procurar por Beatriz. |
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Sua estrutura desarrumada criava seu corpo. Mas, estava sempre se renovando, se vestindo de novo. Decoração rebuscada, barroca. Em sua diversidade, mantinha, entretanto, sua personalidade. – Olha lá o lixo!– dizia alguém. Assim, o lixo tinha existência na vida. Era reconhecido, respeitado, temido: – O que sairá dali? O lixo não era o fim da vida, mas o seu recomeço. Ele parecia demonstrar que a vida não tem fim. O lixo nunca era o fim. Dali a vida recomeçava, organizava-se novamente. Ratos, vermes, pés humanos, todos brotavam do lixo. E, o lixo, envaidecido, sorria sarcasticamente para os homens. – Eu te aguardo! Eu te aguardo! Nele, o que era enterrado era o orgulho, a prepotência e o conservadorismo. Assim, o lixo mostrava sua força viva, seu poder e seu acolhimento. Isso! O lixo nunca era preconceituoso, discriminador. O lixo era democrático. Para ele não existia diferença entre o pobre e o rico. Todos eram futuros lixos. Ele estava ali, paciente, mas voraz. Tinha uma estética diferente, exótica, livre. O lixo era livre, franco, aberto. Porém, implacável. Era também sensível, mutante e eclético. Ele não consumia os homens, não destruía a vida, não acabava com a beleza. Antes, o lixo ressuscitava os homens, aninhava vida, criava nova ética, novas formas. Sua existência era como um aviso bondoso: a esperança existe! Basta ir fundo! |
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Nem mesmo a sua esposa, sua amada, fazia mais parte da sua vida. Não conseguia sonhar, pois, nem mesmo conseguia dormir. Quando tudo começou? Nem mais se lembrava. Sequer lembrava-se do motivo. Os pensamentos eram muitos, talvez demais. Mas, a sua vida tinha se paralisado de histórias. Só lembranças, vagas, às vezes desconexas. Não cobrava compreensão de ninguém, pois, nem mesmo ele já se compreendia. Agora passava horas nutrindo um único pensamento. Às vezes, um pensamento passava semanas sendo carregado por ele. Parava, de vez em quando, com os olhos distantes. Dava impressão que conseguiríamos ver a imagem de sua esposa impressa neles. Ficava calmo, suave. Dava um sorriso e dizia o nome dela. Mas não demorava muito e já a tinha esquecido novamente. Tinha sido uma pessoa generosa. Por que aquilo estava acontecendo com ele? Um belo dia, quando o sol apareceu, um sorriso se estampou em sua face. Todo o seu rosto se iluminou. – Meu Deus
– exclamou ele.– Como pude passar tanto tempo agarrado a uma única idéia?! [A Chave Interior /
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Hideraldo Montenegro |