continuação

 

 

 

Minha teoria já foi apresentada a vós, leitores. Essa primeira parte foi algo relativamente fácil de ser feito. Os episódios que citei da minha vida representam e exemplificam muito bem a tese que tentei defender. Senti-me na obrigação de fazer isso. O leitor precisa saber o que se passa na cabeça do homem que escreveu aquilo que lerá. Espero que minha elucubração não tenha sido vã. Tomemos, portanto, tudo o que até aqui foi escrito como fosse o prefácio desta obra, esta obra que é minha primeira experiência séria com as letras.Comecemos a escrever eu e vós a lerdes o verdadeiro Abismo.

 

O abismo "E um abismo invocava outro abismo." I – O abismo em si Assistiu, naquele momento, ao gratuito vilipêndio de todo o seu sistema de crenças. Um, dois, três. A máscara caíra sob a mais simplória das lógicas. Como não fora capaz de perceber tudo? Culpava-se por isso. Merecia ser castigado. Abria mão de sua vida. "Façam o que quiserem comigo." Ou melhor, "faça o que quiser comigo". Pois falava ao destino, ou a Deus, ou aos deuses, ou ao diabo, ou aos demônios. Não sabia mais o que era a verdade ou se ela existia. Lembrou-se de alguém que sempre dissera que a verdade é aquilo que se aceita como tal e não necessariamente a realidade dos fatos. Não conseguiu lembrar-se do nome. Rodou (a palavra é exatamente essa) por dentro de si e viu que tudo estava intrinsecamente ligado àquela falsa inexorabilidade que, por força das circunstâncias, criara em torno de si. Era um pusilânime e não se perdoaria jamais. A vida lhe ensinara muitas coisas, assim como ensina a todas as pessoas. Culpou-se, mais uma vez, por não aprender o mesmo que os outros, pois a vida, como professora caridosa, está disposta a ensinar aquilo que for do desejo do aluno; não impõe nenhum tipo de restrição à aprendizagem de seus discípulos, de tal forma que eles podem dirigir os seus estudos para onde bem lhes aprouver, estão livres. Dessa liberdade ainda lhe restava uma certeza. Novamente, culpou-se por não usá-la de maneira que, hoje, pudesse julgar justa consigo mesmo. Mas até quando? Até quando creria nessa liberdade? Até quanto julgaria ser capaz de lidar com a pressão do tempo perdido? Pensou que o pior sentimento para o homem era o amor que, por rimar com dor, pode ser chamado por esta segunda. Enganava-se. Antes de deitar-se e fechar os olhos disse para si que a paixão, não o amor, era o pior e, acrescentando algo que não tivera coragem de pensar anteriormente, ao mesmo tempo, melhor sentimento para o homem. Você é um tolo. Seus pés sangravam um sangue fino, quase rosa. O vento frio, a dor gélida, mais congelante que o vento. Tentava pensar em algo, sentir a dor, mas só conseguia lamentar que o seu cabelo ficaria desarrumado. Tornou-se mais tranqüilo quando lhe mostraram um espelho e pôde ver que ele, o cabelo, continuava intacto. Deu-lhe então uma vontade de mergulhar nos mistérios da vida e tentar entender por que estava ali se preocupando com o seu cabelo. Um homem lhe disse que, sem medo, penetrasse o espelho e chegasse perto sem nunca tocar aquilo que sempre desejara. Acordou tonto. Lembrou-se de tudo que acontecera antes de pôr-se a dormir, arrependeu-se de o ter lembrado. Algumas batidas de cabeça na parede. Um sangue fino, quase rosa. O sonho? Loucura? Um espelho. Cabelo impecavelmente arrumado, como se não houvesse dormido. Mas havia. Seu hálito e aquele gosto horrível na boca não o deixavam mentir. Não entendeu o que era chegar perto sem nunca tocar, ou melhor, entendeu, mas, tomando uma decisão que julgou sábia, fez-se ignorante. Havia trabalho. Muito trabalho.

 

(A onipresença é uma característica imprescindível a qualquer um que se disponha escrever em terceira pessoa. Não obstante, este que se põe a escrever-vos não pode gozá-la em todos os momentos. Essa situação a qual me exponho é, que assim se diga, desconfortável. Vem-me como espasmos violentos, como se me desprendesse de meu corpo e pudesse observar o que se passa em qualquer posição do orbe terrestre. Aconteceu-me isso por poucas vezes enquanto tento contar-lhes a história que comecei. Ocorreu-me a mencionada transformação, o desgarre de mim mesmo, na noite que acabo de narrar-lhes. Pude acompanhar serenamente, sem medo de ser percebido por outrem, o que se passou na casa do bairro rico e na clínica psiquiátrica. Em outras vezes, o meu desprendimento de mim mesmo (não sei se de corpo e alma) acompanhava apenas uma personagem. Na verdade, não as acompanho. É como se eu, o escritor, assumisse a persona de Maximiliano ou do literato, ou do assessor arrogante, ou, por pouco tempo, da Sra. Fátima. Passo a viver como eles e pergunto-me se sou eu (e não as minhas personagens) que estou a pensar daquela forma, eu estaria vivendo a história (não leitor, essa não é uma estória) que a mim me coube narrar em vez de apenas contá-la? Sinceramente não tenho a resposta. Eu sou Maximiliano, sou o português, sou o assessor e sou Fátima. Acho que serei também as personagens que hão de aparecer (e reaparecer) no decorrer deste conto. Aliás, não posso fazer a menor idéia de que isto ainda seja um conto. Ele, o texto, se me tornou uma espécie de registros das vezes que me ocorre de assumir o poder da já discutida segregação (de corpo e alma?) e me pergunto se aquela história não está realmente a se passar em algum canto deste planeta (ou em outro?). Geralmente ocorre-me à noite, quando tento, em vão, dormir. Como já disse, sinto um espasmo e percebo-me onde quiser e capaz de entender tudo o que é dito e, às vezes, até o que é pensado. Não me quero demorar mais. Pôr-me-ei a dormir, esperando a próxima oportunidade de narrar algo, é pena que me ocorra mais à noite. Apenas uma vez durante o dia, e foi quando comecei a narrar esta história, contei aquele dia e esta noite. Já me ocorrera, observei outras pessoas, mas sempre à noite. Isso me impossibilitava de juntar uma narrativa concisa, concreta. Aproveitei, portanto, para começar a contar o que observava na vida desse homem, Maximiliano.

Nota: quando digo "nosso país", "nossa gente", não há a certeza de falar em Brasil ou brasileiros. Não tenho a certeza se isso tudo existe.

 

Muito bem. Onde paramos?

Acredito que acabara de reproduzir um trecho do trabalho do nosso amicíssimo escritor. O excerto da sua obra acabava com as seguintes palavras: "... havia trabalho, muito trabalho".

Maximiliano não passara bem a sua noite. Sua cabeça está conturbada pelos recentes choques. Descobrira que não precisava de nenhum chá e voltara a blasfemar contra o seu deus.

Continuemos.

 

Se há pouco era noite, podemos deduzir que chegamos a mais uma manhã. O sol incide na janela do quarto de Maximiliano, a luz duela com as espessas cortinas. Se quiséssemos pintar um quadro cômico, colocaríamos uma irritante réstia de luz para importunar o tranqüilo sono do doutor, fazendo com que ele rolasse e caísse da sua macia cama de rico. Talvez não fosse tão cômico, apenas doloroso, para Maximiliano, claro fica. Isso não aconteceu, sejamos fiéis aos fatos. O despertador toca insistentemente.

Rodemos os ponteiros desse relógio fazendo com se adiante em algumas horas.

Estamos agora à mesa. Juntamente ao casal Maximiliano.

"Farei isso lá da clínica" "O homem disse que você poderia ligar a qualquer hora."

 

O literato, o esquizofrênico, continua seu árduo trabalho. Está apressado e logo no início da manhã põe-se a escrever. Ignora o homem de preto, como já se acostumou a fazer. Produz o seguinte trecho d’O abismo.

 

II – O abismo em livro

"Vamos lá meu rapaz. Essa é a sua grande chance. Faça tudo direito, não vá fazer perguntas que possam aborrecer o homem."

"Eu sei, já tenho uma lista do que vou lhe perguntar."

Faz um gesto, estendendo umas folhas de papel.

No hotel, á tarde.

O JOVEM: Bem... Meu nome é Marcelo de Alcântara. Fui mandado pelo JP, sou quem vou entrevistá-lo, a exclusiva para a Revista, lembra?

O ESCRITOR: Sei, sei. Ele me falou de você. Entre, vamos começar.

O JOVEM: Vou começar com uma pergunta lógica. Qual o título do seu novo trabalho?

O ESCRITOR: O abismo.

O JOVEM: Antes de discutirmos o novo romance, quero fazer umas perguntas de praxe. Ultimamente o senhor rejeitou dois dos mais importantes prêmios da literatura nacional. Por quê?

O ESCRITOR: Juntamente àquele livro de contos, O livro dos sonhos, com o qual fui indicado aos prêmios, eu já havia começado a escrever O abismo. Sei que este livro, O abismo, será minha obra-prima. Não me acho merecedor daqueles prêmios, meu gênero principal é o romance. O livro dos sonhos foi como um desafio ao meu talento, entende? Outros, dentre eles, jovens como você, mereciam mais do que eu aqueles prêmios. Indicaram-me apenas por ser o escritor nacional mais conhecido e de melhor vendagens lá fora. Apenas isso.

O JOVEM: O senhor...

O ESCRITOR: Não me chame de senhor. Chame-me de você ou de tu.

O JOVEM: ... OK. Você não costuma dar muitas entrevistas. Por quê?

O ESCRITOR: Não gosto de falar sobre mim e minha obra. É sobre isso que sempre me perguntam. Se você pesquisar, descobrirá que todas as entrevistas que concedi foram opiniões sobre outros autores, políticos ou artistas. As pessoas é que devem formar sua opinião sobre mim minha obra.

O JOVEM: E por que estás a me conceder esta oportunidade única? Afinal o sen... voc... tu és o maior escritor vivo de nosso país e talvez um dos maiores de todos os tempos...

O ESCRITOR: Esta será a minha última obra.

O JOVEM: Estás a me dizer que vais parar de escrever?

O ESCRITOR: Exatamente.

O JOVEM: Estou ABISMADO. Qual o motivo?

O ESCRITOR: Prefiro não falar sobre isso. Falemos sobre O abismo.

O JOVEM: Falemos então. É um romance. Qual é o fio que conduz a narrativa?

O ESCRITOR: É um fio tênue.Todos os protagonistas dos meus livros são escritores (exceto no livro de contos). Essa não será uma exceção. Trata-se de um escritor desafiado por um amigo. Ele deve fazer uma história usando a técnica que eu chamo de abismo. Uma história que contenha uma sub-história. É meio complexo. É meio clichê literário também.O que ele faz? Escreve um romance no qual aparece um personagem secundário que é um escritor, esse escritor, por sua vez, também escreve um romance que tem um personagem secundário escritor, esse último personagem secundário também escreve um livro que tem como personagem secundário um escritor... Um vai citando o que o outro está escrevendo... Todos usam a mesma epigrafe e todos escolhem o mesmo título: O abismo.

O JOVEM: ???

O ESCRITOR: Abyssus abyssum invocat. Essa é a epígrafe.

O JOVEM: É uma parábola?
O ESCRITOR: É uma história sem fim, o objetivo é confundir o leitor. Nada mais.

O JOVEM: As histórias, os romances, criados por eles, até que nível você chegou?

O ESCRITOR: Eu chego até o sétimo escritor, acho. É complexo. O primeiro, o desafiado pelo amigo, vai escrevendo e citando o segundo, quando o segundo cita o terceiro, vai-se assim, volta-se algumas vezes ao primeiro, nenhum chega a terminar o seu romance. As histórias esvaem-se, perdem-se. Não têm final. Entende?

O JOVEM: É difícil entender. Parece magnífico. O abismo. Chegamos ao fim dele?

O ESCRITOR: Sim, chegamos.
 


***
 

 

 

 

O farfalhar das folhas e o frio vento, naquele fim de tarde, eram as únicas manifestações de qualquer tipo de som. O silêncio parecia ser o respeito da natureza ao sofrimento daquelas pessoas que, a custo de sôfregos e dispendiosos passos, caminhavam pela passarela central, perdidas não só no labirinto formado pelas lápides, mas também num mais perigoso e pérfido, o do pensamento.

A procissão segue. O coveiro acostumou-se e olha com indiferença, inexorável. Ao longe um pássaro inoportuno solta seu grasnar, uma senhora exalta-se e cai em lágrimas. Motivada pelo agourento canto da ave? O silêncio é quebrado e alguém tenta, inutilmente, consolá-la. Agora cai uma fina chuva, uma neblina. A natureza chora pelo homem que ali está, pronto a voltar ao pó de onde veio. Isso não deixará de ser mencionado pelo reverendo, que fará todo o discurso de praxe, imposto por sua condição. Sempre chove em enterros.

Pode-se acompanhar a lenta marcha enquanto lêem-se alguns dos epitáfios dos muitos já esquecidos que ali se transformaram em nada, em pó. Depois de mortos, somos todos bons. Alguns dizem que bandido bom é bandido morto. Na Idade Média, vampiro bom era vampiro morto. Hoje, homem bom é homem morto. Não existe nenhum epitáfio que diga algo como "Aqui jaz um grande facínora, morto em tiroteio com a polícia".

A caminhada parece não ter fim, mas tem. Como tudo nessa vida tem, inclusive a própria vida. E temos agora, no mínimo, trinta testemunhas que, se forem interrogadas, dirão: "É verdade". Quem são? Não se sabe. Nesses momentos, o que importa é a solidariedade humana que, ao contrário do que dizem os céticos, continua a existir. O que importa é alguém que esteja simplesmente disposto a escutar, escutar o choro e o desespero que, como tudo (e isso já foi dito), passa.

A partir daqui a cena não poderia mais se prolongar.

O sacerdote segue seu protocolo e fala no bom homem, pois já está morto, que ali está, indo ao encontro de Deus. E encerra: "Que Deus o tenha e nos guarde. Amém".

As pessoas dispersam-se, aos poucos. Cada uma seguindo o seu caminho e não esquecendo de, mais uma vez, prestar suas condolências à família do bom homem. A noite chegará em pouco e não é esse um bom lugar para ficar. Séculos e séculos e as superstições são as mesmas.

O cenário formado pelo sol, pelas sombras das imponentes e, talvez, seculares árvores, pela grama que dança ao ser tocada pela suave brisa que agora sopra, pela lua, que aparece junto ao sol e pelo pássaro que foi pousar em cima do túmulo recém-fechado é de uma tranqüilidade pasmante. Aqueles que parecem ser a família retiram-se e fico eu, sozinho.

Ninguém se lembrou de perguntar o que aquele homem estranho fazia acompanhando o enterro do morto. Eu não saberia responder.

Estou agora andando pelos linhas das lápides. Por mais alguns momentos distraio-me com os epitáfios. Não sei o que estou fazendo aqui.

Meu estado é de branco, vazio, absorto, leve. Contagiado pela irritante tranqüilidade desse lugar. As trevas duelarão com a luz, vencendo-a, e ainda estarei aqui. Nesse momento a luta inicia-se, o crepúsculo. Um estado intermediário que não pode ser traduzido nem pelas mais rebuscadas figuras de linguagem. Eu me sinto crepusculante.

Sinto uma vontade incontrolável de tirar os sapatos e o faço. A passarela está fria, a grama molhada. Piso na grama. Não me importo se meus pés ficarão sujos. Caminho sem destino com os sapatos na mão. De longe posso divisar alguém, sentado ao lado dum túmulo. Sem saber bem o porquê, dirijo-me àquela inesperada presença.

É uma jovem. Está chorando e limpa as lágrimas quando percebe minha aproximação. As palavras saem da minha boca contra a vontade.

"Quem era?"

"Minha..."

"Mãe?"

"Namorada."

"A noite vai chegar em pouco, você não deveria ficar por muito mais tempo aqui."

"É, eu sei... Ela morreu há uma semana.

"Como?" (Tudo que precisamos é de alguém que nos escute.)

"Um ex-namorado a matou, tinha ciúmes de mim. Nunca se conformou em perdê-la pra uma mulher."

"Eu já perdi uma... uma mulher para um gay. O sujeito converteu-se em homem só pra... É difícil."

A conversa estendeu-se por mais alguns minutos. Quando caiu a noite, ela se foi. Vi-a sumir lentamente pelo portão, ainda olhando pra trás, pra mim. O que eu estava fazendo ali?

Não percebera que, antes de sair, ela acendera uma vela ao lado da lápide na frente da qual estava prostrada.

A noite era mais fria que a tarde e o vento mais forte, mais gélido. Mais misterioso?

Ali, parado, sentado ao lado de uma lápide duma lésbica que não conhecia, afrouxei a gravata, a camisa, o cinto. O vento batia na minha cara e eu o observava fazendo aquele pequeno lume vacilar, vacilar, mas resistir.

Fiquei fitando aquela chama bruxuleante.

 

***
 

 

 

 

Nesse momento estou lendo o livro que afanei da mesa do sujeito que matei ontem. Eu mato pessoas. Não gosto de ler. Não obstante, confesso que está sendo muito prazeroso acompanhar o enredo que tenho em minhas mãos.

Quando criança, nunca li. Na adolescência, trabalhava pra ajudar em casa. Uma história comum nesse país. Por que mato pessoas? Não sei. Aconteceu, um dia eu vi que era capaz de fazer isso e, melhor ainda, ganhar dinheiro.

Não tenho culpa. É bom aliviar esses burguesinhos de suas tensões, mandá-los ao encontro do deus que eles mesmos criaram. Mas não acreditam mais no seu deus. Nós, os lascados, ainda acreditamos.

Não mato pobres e lascados. Sei que parece desculpa pra sentir-se justo com o que se faz, mas não é. O livre-arbítrio também abrange os verbos matar e decidir morrer. Eu faço o que quero. Entende? Dessa forma, se alguém quiser (e conseguir), matar-me poderá fazê-lo, se isso bem lhe aprouver. Garanto que não praguejarei em meus últimos suspiros e muito menos voltarei para importuná-lo a si e as sete posteriores gerações. Matou-me porque conseguiu. Nada mais justo.

O título do livro é O abismo. É um livro de contos, são sete contos. "O abismo", "O livro dos sonhos", "Artimanhas do amor", "O jogo", "O poeta", "A chama bruxuleante" "Xadrez ou As confissões de um escritor em fim de vida".

Daqui a meia hora vai passar o jogo do FLAMENGO na TV. Há muito tempo o meu time não chega a uma final de campeonato. Estou ansioso e também duvidoso. Não sei se conseguirei largar o livro para assistir ao jogo. Isso é engraçado. Sinto-me preso às histórias criadas pelo autor.

 

Largo o livro, mas o jogo ainda não começou.

Vou à geladeira. Deve haver algo lá. Ainda não decidi se assisto ao jogo, o que me tomaria duas horas, ou se uso esse tempo para ler o livro. Depois do jogo, que vai terminar lá pras dezoito horas, tenho um serviço a fazer. Você sabe o tipo de serviço que é o meu, não pode ser adiado.

Na geladeira, leite apenas. Não gosto de leite e não sei por que Maria insiste em comprar, ela também não o bebe. Maria é minha atual "esposa". Todos os dias nascem muitas Marias e muitos Josés. Ninguém liga pra isso. Chamo-me José. Já matei muitos Josés, Marias, Marias José e Josés Maria. Nunca matei um Jesus e, se tivesse que fazê-lo, não faria. Eu, como já disse, sou um homem de fé. Tenho meus princípios e acredito no livre-arbítrio que Deus nos deu. Livre-arbítrio com o qual devo decidir: ler o livro ou assistir ao jogo do FLAMENGO?

 

Volto á sala e miro a arma que utilizarei daqui a algumas horas. Uma pistola com silenciador. Sou furtivo.

Empunho a pistola e faço mira num alvo imaginário, ali está um outro José ou uma outra Maria, sofrendo em seu calvário. Deixas-me aliviar-te da tua dor? Pergunto. O irreal não pode responder. Atiro bem no olho mágico da porta. O vidro estilhaça-se. Tenho ótima pontaria.

Digo que sou um lascado mas minto. Meu trabalho, sempre muito bem realizado, deu-me condições decentes de vida. Gastei boa parte de tudo na minha coleção de espadas. Sou esgrimista da seleção brasileira.

Agora estou olhando algumas das lâminas, no meu quarto. Faltam quinze minutos e ainda não decidi.

Minha imagem reflete-se nos gumes do sabre. É o meu favorito. Qualquer dia vou parar nas Olimpíadas e vou lutar por uma medalha.

Aquele espelho incomum... Ainda não decidi.

Sento na cama e ponho a cabeça entre as mãos. Ler ou assistir? Se eu me puser a ler hei de terminar o livro, isso é certo. O resultado do jogo posso saber depois, mas não acompanharia os lances. Somos todos técnicos e eu faria falta. Sabe como é, não é?

 

Volto à sala. Percebo que Maria chegou. Ela ligou a televisão. Está assistindo a um daqueles programas evangélicos que passam aos domingos. Eu e ela somos evangélicos. A igreja Católica despreza os Mandamentos do SENHOR e idolatra aqueles "santos". Vou dizer alguma coisa. Santos somos nós, que sofremos todos os dias.

Ela pergunta se sou eu quem estou lendo aquele livro. Digo que sim. "Ensina a matar?", ironiza. Ela não sabe ser irônica, talvez seja muito burra pra isso. É loira e peituda.

Digo que o jogo vai começar em cinco minutos. Ainda não me decidi.

 

Redirijo meu olhar à pistola. Armo-a.

"Joga esse livro pra cima, Maria."

Ela faz isso. O tiro, silencioso, trespassa as páginas com facilidade, quebra uma lâmpada e faz um buraco no meu forro. Grandes merda, terei que pagar o conserto. Ler: perda de tempo (e dinheiro).

 

***
 

"Escrevendo? Um diário?
[...]
Não. É um livro de sonhos.
De sonhos? Que interessante. O senhor sonha muito?
A noite inteira."
Rubem Fonseca, Diário de um Fescenino

 

 

 

 

Prefácio

 

Escrever um livro de sonhos não é nada fácil. Há uma tendência, pelo menos em mim, de esquecer o que se sonhou à noite. Acho que é assim com a maioria das pessoas. Aliás, a noite não me serve apenas para os sonhos. É pela madrugada que idéias e concepções literárias inovadoras, assim me parecem, vêm como espasmos, repentinamente, à minha cabeça; mas sempre as esqueço pela manhã.

A sensação de esquecer (ou não lembrar?) os sonhos e as idéias não é a pior das coisas redescobertas todas as manhãs pela humanidade. Aquele gosto horrível que as vísceras mandam pra fora. Isso é o que de pior há. Deve haver alguma relação. O sabor adstringente, a língua amarela. Tudo isso deve ser a materialização do que foi sonhado ou pensado entre os diversos acordares e dasarcodares, vigílias e semivigílias.

É numa tentativa inútil que escovo e reescovo e rereescovo os meus dentes, e a língua, antes de dormir. Penso que assim haverá uma produção menor daquelas secreções, de tal forma que os meus sonhos e idéias não sejam vilipendiados pelo meu estômago e intestino.

No entanto existe ainda mais um fator de expulsão e transformação do imaterial em material. Esse se restringe aos homens do sexo masculino, aos machos da espécie dos homens. A barba. Faço-a antes de dormir, sempre. Pela manhã, lá está ela. Extravasando meus sonhos.

A barba, ao contrário do gosto na boca, fica na cara. O que você sonhou está na sua cara, mas você não consegue lembrar. As pessoas vêem, você não vê. Isso é o desconfortável. Não é por uma questão estética que os homens põem-se a tirar aqueles pêlos todos os dias. A verdade inconsciente é que nós temos medo de mostrar o que sonhamos. Há quem diga que somos o que comemos. Eu digo que somos o que sonhamos. As mulheres depilam as axilas, as pernas, essa depilação é estética. A nossa, a masculina, não é. O mesmo autor de quem roubei a epígrafe e de cujo personagem roubei a idéia para este texto disse que as mulheres só são mais misteriosas que os homens porque escondem as rugas com a maquiagem. Os sonhos das mulheres estão nas rugas.

 

Primeira noite

Sonho I

Vamos! Vamos! Roda isso que eu quero ver agora.

[A partir daqui não lembro nada]

 

Idéia I

Anotar o sonho agora mesmo. Anotar alguma idéia que eu venha a ter. Tomar um chá. (Erva doce ou Erva cidreira?)

[Já pus a idéia de anotar em Prática.]

 

Sonho II

Não lembro.

[Esse sonho não veio junto a uma idéia. Não consegui mais dormir. Em vez de chá, café preto.]

[Essa primeira noite não me foi nada proveitosa. Preciso inventar uma técnica pra não me esquecer dos meus sonhos.]

 

Segunda Noite

Sonho I

No tabuleiro, as peças. Eu era um peão. Fui, por várias e várias vezes, sacrificado em prol de outras peças teoricamente mais importantes. Não existem peças mais importantes.

Eram péssimos, aqueles jogadores. Cada peão deve ser manipulado como fosse uma dama. Cada insignificante pode ser imprescindível na busca de um objetivo, nesse caso, o Xeque-Mate.

Eu tentava falar-lhes, ensinar-lhes. As palavras não me vieram à cabeça. Eles conhecem o verdadeiro jogo.

 

 

[Esse é um sonho estranho. Esse é um sonho onírico, realmente onírico, surreal, como todo sonho deve ser. Há tempos não jogo xadrez.]

 

 

Idéia I

Escrever algo sobre xadrez. Um romance ou conto. Essa é uma boa metáfora.

Idéia II

Não vou mais escovar os dentes nem fazer a barba. Vou juntar a secreção, pode ser que olhando pra ela, no espelho, eu lembre melhor. Na noite do sonho com os enxadristas eu tive vários outros, mas não consigo lembrar.

Idéia III

Transformar isso num Livro de Sonhos/Diário. Todo escritor famoso deve ter um diário, quando ele morre, publicam-no.

 

 

[Esse será o primeiro dia como diário, omitirei fatos irrelevantes.]
Primeiro Dia, 19 de Maio de 2003

 

Descendo as escadas para evitar encontros desagradáveis, encontro-me com a pessoa que menos desejaria.

Não direi quem é. Manter-me-ei em sigilo sobre quaisquer identidades, além da minha. Eu costumo descer pelas escadas, assim evito encontrar-me com vizinhos chatos que sempre dizem um mal-disfarçado mal-humorado bom-dia. É melhor ficar calado. Também não gosto do espelho no elevador. Odeio espelhos, mas vou precisar deles para o meu livro, você já sabe disso. Um pequeno, só pra língua e barba.

Fui ao lançamento de um livro dum amigo meu. Ele é poeta. Não sei por que ainda existem poetas. A poesia está morta. Essa é a verdade. Morta. Escreveremos poesia sobre sexo? Isso não. Também não podemos continuar com a poesia lírica, qual é a saída? Parnasianismo? Prosa poética. Essa pode ser uma saída. Sou escritor, mas não entendo de literatura, não sei como fui conseguir aquele diploma de Letras. Chega de discussões literárias.

Eu gosto de foder com minha namorada, hoje fodemos toda a tarde. Foi divertido. Eu ria durante a cópula. Ela me disse "estou grávida". Expulsei-a de casa e disse que nem viesse com história de pensão. Odeio filhos. Odeio crianças.

Sou jovem, os jovens não podem ser pais. Eu nunca serei pai. Papai... Que ridículo.

[Não sei como fui usar um termo do naipe de foder ao fala da minha namorada, acho que foi por estar com raiva dela.]

 

[Vamos reiniciar a contagem]

 

 

Primeira noite, 19-20 de Maio de 2003

Sonho I

Papai. Papai. Papai.

Vi aquele negócio pegajoso se mexendo e se contorcendo como uma lava dentro da bela barriga de Érica. Tive nojo, muito nojo. Vomitei, mas meu vômito era a criança. Não vou mudar de opinião.

Idéia I

Não houve idéias. Só consigo pensar na maldita e no seu filho. Isso é ruim. Muito ruim. O gosto do vômito, não poderei ficar sem escovar. Não dá para agüentar.

 

Segundo dia, 20 de Maio de 2003

Acordei cedo, ou melhor, dormi pouco e resolvi levantar cedo. Olhando-me no espelho tive repulsa pelo aspecto da minha língua. Não escovar os dentes parece estar sendo uma forma de não esquecer os sonhos. Minha teoria está certa. Não resisti, depilei minha face com um daqueles cremes que Érica deixara no meu banheiro. Faltavam lâminas. Meu rosto ficou vermelho pelo resto do dia.

Ela me ligou. Parece que adivinhara que eu não sairia de casa, por causa do rosto.

"Tu és um homem ou rato?"

Ela gosta de me agredir com esse português alusitanizado.

"Nenhum deles, querida. Sou um artista, escritor."

Isso calou-lhe a boca por uns instantes. Procurava uma saída.
"Artista quer dizer desempregado em latim."

Lembrei-me de repente. Puta que a pariu. O pai de Érica é o dono da editora que publica meus livros.

"Bons escritores sempre são assediados pelas editoras. Sabia?"

"E todos os donos de editora têm filhas que dão pra um escritor rato medíocre que recebe muito mais do que deveria ganhar pelos livrinhos que escreve?"

Ela sabia como me deixar com raiva. Posso ser um rato, mas não sou escritor medíocre porra nenhuma. Ela continuava.

"Quem vai querer publicar livros de idiotas que saem dizendo porra e puta-que-o-pariu e foder e dane-se a cada três linhas?"

Esquecera de pronunciar seu belo português. A agressão continuava.

"Sabe de uma coisa? Eu vou começar a escrever também. Memórias sentimentais de uma mulher traída por um escritor que diz não ter sexo. Belo título, não? Eloqüente? Sim, eloqüente.

Ela sabia como me persuadir. Sabia não. Sabe. Ao contrário daqueles do sonho, ela era uma boa jogadora e eu, o peão.

"OK. OK. Pode vir aqui. Poderemos conversar. Venha à noite."

 

À noite.

"Quer casar comigo?"

Eu casado. Essa foi ótima. Isso não poderia está acontecendo comigo, uma mulher me pedindo em casamento. Que quadro estúpido.

"Há quanto tempo você não escova os dentes?"

"Dois dias"

"Vais ter um câncer de boca"

Ela saiu e disse que não mais voltaria. Quer livrar-se de uma mulher? Pare de escovar os dentes. O destino está ao meu lado.

 

[Esse projeto é uma idiotice.] Fim

 

Primeiro dia 20 de Maio de 2004

Retomo meu Livro de Sonhos/Diário. Faz um ano, acho incrível que o arquivo ainda esteja aqui.

Não sei quais foram os motivos que me levaram a isso. Talvez o câncer de boca, talvez o casamento com Érica e o meu filho (vais ser um escritor) ou então o sucesso do Romance que escrevi quando desisti disso. A coerência não é uma virtude, só para os imbecis. Nietzsche disse algo como isso. Agora uso uma linguagem mais prolixa. Adotei a prosa poética e a grande metáfora do xadrez. É o fim do merda-porra-puta-que-o-pariu-veado-foder-chupar-bater na minha literatura. É isso aí. Não sou rato, sou homem.

No elevador o esposo diz à amada esposa:

"Hoje tive um sonho estranho. Eu tinha um câncer de boca e tinha um livro também, não lembro direito".

"É melhor ir no médico, dentistas com câncer de boca é algo estranho, hoje à tarde."

Tempo.

Ao jantar:

"O médico disse que eu não tinha nada. Acreditar em sonhos: que coisa estúpida."

 

***
 

  

 
 

 

Hugo Erik
Tem 16 anos e é estudante no ensino médio. Viciado em leitura – lê um livro por dia – mora em Fortaleza, Ceará. Seu contista favorito é Rubem Fonseca e romancista, José Saramago. Como cronista, prefere Luis Fernando Veríssimo.