"E um abismo invocava outro abismo."

 

 

 

O trecho reproduzido é o seguinte:

 

O abismo

 

Abriu-se a grade. Quem olhasse ao interior daquela construção indiscutivelmente branca e de alas simetricamente construídas seria capaz de perceber, e não é exagero que se diga, um outro mundo, de dimensões restritas ao perímetro demarcado pelos altos muros também brancos. Um microcosmo, esta seria a palavra a ser usada para descrever o já mencionado sítio. No entanto as palavras nem sempre nos bastam e, com mais freqüência do que se pode imaginar, enganam. É sabido, o dicionário não nos deixa mentir:

microcosmo
Sm 1. Pequeno mundo. 2. Universo dos pequenos seres. 3. O homem, como resumo do universo.

Tomemos o primeiro significado dado a esse vocábulo e teríamos um pequeno mundo, o que não deixa de ser verdade, mas que é, no mínimo, inadequado, pois é, sim, muito pequeno para aqueles que pela graça divina lá não estão, no entanto a variedade de seres que podemos encontrar pelos corredores e instalações dessa edificação é tamanha que nos leva a preferir o terceiro significado atribuído à palavra em questão. Esse é, de fato, um lugar onde podemos encontrar o resumo, a síntese, da natureza humana, a humanidade na sua mais pura e incontestável essência, ainda que alguns insistam em desacreditar no que possa ser chamado de humanidade e outros não desistam de espalhar aos quatro ventos, se é que são só quatro, que ali só se pode achar desumanidade. O segundo significado também não poderia ser dispensado por um leitor que fosse dado a hábitos constantes de leitura, pois, como já disse um outro escritor contemporâneo nosso, somos todos pequenas criaturas. É um local de loucos. Um manicômio, se assim preferes chamá-lo.

 

O homem que, ao abrir das grades interrompido pela longa explanação do lugar que estas mesmas e também já mencionadas grades guardam, entra, segue o caminho diretamente até o pátio frontal, não hesita, caminha firme dentro da brancura de sua roupa, ali dentro ele é mais que um homem, a sua insistente e irritante brancura, que não se limita à roupa que veste, mas também aos seus cabelos e pêlos de todo o corpo assim como os sapatos, pele e, atente bem, os dentes, dá-lhe um aspecto quase divino, santo. Ele é um médico e, para não contestar os antigos, citemos Homero que, nos já passados séculos antes de Cristo, dizia-nos: "Um médico, por si só, vale alguns homens". Ele é, como já deve ter deduzido o bom leitor, um psiquiatra, mesmo que outros prefiram dizer psquiatro. Mas não é apenas isso, ele é o Sr. Doutor Diretor, ou poderíamos escolher uma das muitas alcunhas que os internos trataram de dar-lhe, não que sejam pejorativas, não pense o leitor que este aqui que escreve é dado a faltar com o respeito àqueles que não conhece, mormente os que, por serem mais idosos, merecem-no ainda mais. Talvez (mesmo que outros prefiram quiçá) aos já mencionados desacreditadores da humanidade, chamemo-los assim, apeteça chamá-lo de médico de loucos, mas isso não virá ao nosso caso já que não temos aqui tempo nem espaço para tentar provar a existência ou não desta tão discutida característica que se insiste em atribuir aos homens, para não repetir o já mencionado termo, o que tornaria, além de prolixo, muito repetitivo este nosso relato. Que seja enfadonho, mas não repetitivo, supondo que estas duas propriedades possam, de alguma forma, estar segregadas uma da outra e outra da uma, se o leitor permite aqui este jogo de palavras tão usado na oralidade do cotidiano e que examinando bem não chega a ser tão impossível de se passar ao papel. Já apresentados o sítio e o nosso protagonista, encerremos mais este trecho e partamos ao próximo.

Chegando ao vestíbulo frontal, que serve de estacionamento para os automóveis dos que ali trabalham ou daqueles que, por infelicidade tamanha ou castigo divino pelos pecados de seus ancestrais, pois, ao contrário do que se pode imaginar há, no nosso mundo, muitos que ainda têm resquícios do que um dia foi chamado fé e há muito menos do que se pode imaginar do outro grupo ao que, por conveniência e mesmo eufonia e sentido corretíssimo da palavra, chamamos ateus, ali vêm em visita dos parentes. O Sr. Doutor Diretor busca pelas chaves do seu veículo nos brancos bolsos de sua calça. Deixara ali o carro e saíra a pé à biblioteca que, por ironia, foi-se erguer ao lado de um manicômio. Os livros, que são três, que põe adentro poderiam revelar-nos os seus gostos literários, no entanto não precisamos dizer mais do que são todos de autores nacionais, o que pode encher-nos de um orgulho pátrio em tão maus tempos de nossa arte da escrita. Em verdade, em verdade, se perguntássemos ao Sr. Doutor Diretor "Então lês apenas os autores nacionais? Atitude digna de aplausos!", responderia no tom coloquial tão próprio da nossa gente e que não foge nem da boca dos letrados pelas mais eminentes universidades do país e do mundo carregando por aí nomes de especialidades que metem medo a um mero escritor como eu, "Que fazes?", "Corto gente", "E você?", "Eu faço bombas, e tu?" "Eu? Eu escrevo", "Não, que é isso, coincidências!", esta última seria a resposta do Sr. Doutor Diretor. É humilhado pelas pomposas especialidades desses homens, e também por suas magníficas habilidades, que encerro, com os olhos rasos de lágrimas, mais este trecho. Sou apenas um escritor.

Já guardados os livros dentro do seu carro, para que não haja risco de aqui deixá-los, o doutor dirige-se à porta principal da edificação central. Assim como a parede, também é branca esta porta. Sua presença modifica a atmosfera daquilo que pode ser chamado de recepção, a mulher que, não erroneamente, tomaríamos por secretária, baixa o telefone bruscamente, vê-se que não marcava nenhuma visita familiar ou muito menos conformava com informações de que "Sim, sim, os médicos dizem que ele está em processo de melhora, está aqui na ficha, quer que envie um fax?". Certamente alimentava o seu ímpeto amoroso, falando por horas e horas com o namorado, se assim podemos chamar, da semana corrente, pois é assim que se é quando é jovem, mas sendo já uma mulher de idade poderíamos afirmar que dava conta da vida alheia, desde o mais louco interno ao menos importante assistente dos homens de branco. Na verdade, se viajássemos um pouco pelo perturbado espírito daquela senhora poderíamos perceber que falava ao marido que desesperadamente não sabia o que fazer, pois as crianças estavam com uma febre de muitos graus. Isso só prova que, como é dito, as aparências são realmente muito enganadoras apesar de algumas vezes serem também muito reveladoras da realidade, é como aquela velha máxima do meio médico: "Cada caso é um caso, isso não é como a matemática". Sendo profundo conhecedor do seu meio, sobretudo das máximas e anedotas que lhe dizem respeito, o Sr. Doutor Diretor finge não ver o descuido daquela subalterna. Mas se o leitor for dado a práticas religiosas, fique sabendo que também o Sr. Doutor é um homem de fé e como todo bom cristão sabe que onipresente só Deus, e por acreditar nessa onipresença abandonou o seu antigo culto católico que lhe aparentava atribuir tal característica também aos santos, que seriam capazes de, já mortos, ouvir-nos e vir em nosso socorro, entrou para uma das inúmeras Igrejas protestantes que se encontram por hoje em dia. Talvez essa não seja a afinidade religiosa do leitor, pois, como sabemos, nosso país e de maioria católica, então usemos uma outra máxima que sempre vem em nosso socorro evitando fervorosas discussões sobre religião: "Deus é só um pra todos". Claramente o Sr. Doutor não pensou em tudo isso, nem o podia ter feito, pois já o chamavam. Enquanto vai ter com um dos muitos visitantes que aqui estão, venhamos a uma descrição mais detalhada de onde nos encontramos a acompanhar a ilustre e carismática figura do Sr. Doutor.

Há ali todos os tipos de loucos que uma pessoa sã possa imaginar, além dos que não podem ser imaginados ou que só o podem ser pelas mentes daqueles que chamamos, mesmo sem ter certeza do que realmente quer dizer esta palavra, insanos.

Átila e Napoleão, apesar do comum ímpeto conquistador, são amigos de longa data, mas isso só veio a acontecer por meio do armistício intermediado pelo Sr. Doutor, discutem fervorosamente estratégias de guerra alheias ao seu tempo, quando nem se sonhava com a mais simples pistola automática. Temos ainda D. Pedro I e seu irmão D. Miguel, em calorosa disputa pelo trono do império lusitano, já vigiando, de perto, quase assediando, a morte do pai, D. João VI. Esse se encontra nas dependências que um dia pertenceram a D. Maria, sua mãe, quando ainda aqui estava, tempos imemoráveis em que nem o sr. Doutor trabalhava aqui, mas lembrados saudosamente pelo dedicado filho. A loucura é tão eclética e democrática, no que se diz respeito a escolher as suas vítimas (ou seriam abençoados?), quanto o é a nossa amada nação, vê-se também seu grande espírito familiar, que foi capaz de unir, num único manicômio, pai, dois filhos e, em outros tempos, avó. Há um metido a leituras que enfiou na cabeça de dizer ser o Grande Mentecapto, sempre que é visitado, por quem quer que seja, protesta contra o confinamento no qual vive: "Conheço e sou conhecido por Viramundo, em toda a província das Minas Gerais, atentem bem, sou amante da Filha do Governador! Minha história foi narrada por um grande autor daquela província, hão de tirar-me daqui!" Pode até ser conhecedor das Minas Gerais e de tudo o mais que por lá houver, mas não diria que é um bom sabedor do nosso idioma português, declarando-se mentecapto está a assinar o seu atestado de insanidade, se é que se pode confiar em documento assinado por um mentecapto, mas o leitor sabe que não falamos do documento e que esta é mais uma força de expressão da oralidade de nossa tão peculiar gente, como espera ser liberto?

Estranha-se que não haja cá nenhum músico, no entanto as estatísticas que, diga-se de passagem, são as mais perfeitas representações da realidade pelos números, têm-nos mostrados que entre os do meio musical são bem mais comuns os casos de surdos, mudos e cegos que os de loucos, dementes e doidos. Supondo que haja alguma diferença de significado entre essas últimas palavras. No-lo digam os sábios de nosso idioma, apesar de também entre eles ser bem comum a divergência de opiniões.

Existem outros, uns mais, outros menos loucos. Mas todos, sem exceção, carregam em sua testa uma marca invisível que avisa aos desavisados: sou louco. E isso é suficiente. Não são muitos, trinta ou trinta e cinco, divididos em duas alas, enquanto a edificação central serve para o corpo administrativo e médico, esta última tem três pisos, sendo que o térreo circunda um pátio interno, destinado aos doentes, formando um quadrado de corredores onde a tensão é contínua, um fio entre o mundo lá fora, o átrio, e o cá dentro, as câmaras dos internos. É um manicômio particular, daí entende-se a organização e a inteligente arquitetura, chamado, com eufemismo, de clínica de recuperação psiquiátrica. É o local que os ricos escolhem para esconder aqueles que não devem ser vistos por seus pares, escamoteiam a demência de um parente enquanto põem à mostra, para quem quiser que veja, o que eles não têm, e o que eles não têm é exatamente tudo aquilo que declaram ter ou pelo que lutam.

É sabido que as conversas e discussões, mesmo as mais entusiasmadas, não perduram pela eternidade. Tendo acabado a sua sessão de bons-dias e cumprimentos, o Sr. Doutor dirige-se agora à sua sala. Não lhe cabe o dever de visitar os doentes, mas é esse o seu hábito. Um por dia, depois volta às suas atividades burocráticas e administrativas. O que faz nesse momento é observar a ficha do que será visitado hoje, faz isso à frente do computador. Levanta-se e, no banheiro, olha-se no espelho, ato repetido tantas vezes que nem chegamos a nos aperceber de sua importância filosófica, ali ele olha a imagem e a imagem o olha, sente-se vigiado e, ao mesmo tempo, vigia, "É assim aqui no manicômio, vigiamos e somos vigiados". Mesmo sem pensar exatamente nisso acaba de dizer uma grande verdade, pois existem em todos os corredores e salas, com exceção dos banheiros, lavatórios e da sua sala, câmaras de vigia. Ao abrir a porta, olha o teto, lembra-se disso. Caiu por terra o sentido filosófico de sua frase, "O que importa? Eles ainda são os mesmos e eu também". Para não cair nas artimanhas do pensamento que, num local como esse, são sempre perigosos, começa a cantarolar uma musiqueta chata, não sabe mais que o refrão, mas isso lhe é suficiente. O Sr. Doutor sabe como lidar com o que tem. Não busca as melhores cartas, mas joga muito bem com aquelas que possui. É viciado no truco.
 

Os filósofos diziam, e ainda dizem, que o homem só é homem quando pensa. Dizem que a razão é o que nos diferencia dos animais. Eu digo que o homem só é homem quando faz arte, a arte é o "quê" que nos determina como seres humanos, é nela, na arte, que está a humanidade, não na ciência ou na filosofia. Esse é o motivo que me impele a escrever um livro.

Quando eu tinha oito anos aprendi uma coisa: deve-se abotoar a camisa começando pelos botões de baixo, assim evita-se que algum dos botões seja metido na casa errada. Escrever é diferente, não dá pra começar pelo final, eu já tentei e não consegui. Talvez me falte o talento, mas outra coisa que descobri é que pra fazer arte não se precisa de talento, isso de escrever, pintar, cantar etc. é tão natural quanto a respiração, foi um escritor francês que disse isso, ou algo muito parecido, mas ele, o francês, esqueceu de observar que, apesar de ser natural, não é tão ritmado quanto é o movimento de inspiração e expiração. Tudo depende muito do humor do sujeito que se dispõe a fazer a arte. Escrever é começar, dessa vez quem disse foi um brasileiro mesmo, inventar um meio e um fim, ou então acabar sem ter um meio, mas nunca sem começo. A respiração começa, mas, se ela acaba, nós morremos, a literatura e arte também, sem elas nós morremos, deixamos de ser humanos. Essa é a minha teoria.

Respirar é fácil, escrever também é fácil. Os fumantes, asmáticos, enfisemásticos (inventei essa palavra) têm dificuldade pra respirar, ou pelo menos deviam ter. Parece-me que quanto mais difícil uma coisa é mais interessante ela fica, isso todo o mundo sabe. A escrita difícil impressiona, dá um ar de intelectualidade ao escritor. Nessa semana comecei a fumar. Pretendo tornar minha escrita, como minha respiração, difícil. Eu quero impressionar. Acho que um câncer no pulmão me cairia muito bem, no que se diz respeito à literatura.

Preciso usar palavras difíceis, comprei um dicionário. Um bem volumoso com palavras que só o autor dele conhece, uma lista delas, as palavras. Vilipêndio, inexorabilidade, ascese, crível, debelar, malsão, postergado, meretriz, zoster etc. Eu não as conheço, sou um ignorante. Melhor, não conhecia. Agora sei que, por exemplo, meretriz é a mais que conhecida prostituta, é uma palavra bonita. Sai muito bem pelos lábios e deve ser belíssimo quando falado em holandês, russo ou polonês.

Quero escrever um romance policial. Sou fã do Poe, aquele americano que dizem ter inventado isso. Quando eu fazia o segundo ano meu professor de literatura dizia que o conto policial era o mais efêmero e longo "gênero" literário, não sei o que ele queria dizer com isso. O fato é que ele, o professor, possuía todos os livros do Poe, foi ele que me iniciou como leitor desse americano, sempre odiei os americanos, mas esse me parecia simpático, talvez por ser meio louco. Ele morreu andando no meio da rua, o Poe, algo que ver com álcool.

Não tenho problemas com álcool, eu gosto dele, bebo tudo. Meu organismo nunca reclamou, bebo desde os dez anos, meu pai, não o meu professor, foi quem me ensinou a beber. Em toda a minha vida aprendi duas coisas com o maldito doador do espermatozóide que me gerou: como se abotoa uma camisa e como se bebe. Agradeço-lhe. Nunca lhe agradeci, uso esse espaço pra isso. Ele também nunca gostou de mim, a gente se entendia. "Eu te sustento e você não faz besteira." Era um acordo perfeito, e que foi seguido rigorosamente por ambas partes.

Quando ele morreu, fiquei com o seu dinheiro, o velho não tinha testamento. Se tivesse, teria doado tudo, nunca me deixaria ficar com o dinheiro dele, ainda bem que não teve tempo pra redigir o documento. Esse espólio foi, e ainda é, minha fonte de renda. Nunca trabalhei. Engoli arte por dez anos e agora é minha vez de fazê-la. Quero que alguém a engula, como eu fiz com a obra dos outros durante tanto tempo. Sei que vou publicar isso. Tenho dinheiro. E isso é, por si só, suficiente. Custar-me-á caro, mas farei, ainda que de forma medíocre, a minha arte. Serei um homem.

 

"Tu és esse escritor?"

Ao falar com aquele interno o doutor costumava usar uma versão bem mais polida do seu idioma, sabia como falar. Tratava-se de um escritor, esquizofrênico, famoso. Começara a escrever depois de ali ser interno. A vida gosta dessas.

Esse é um trecho do seu novo romance. Cinco anos de internação, dezoito livros. Nas palavras de um crítico literário conterrâneo seu: "Esse homem não escreve, ele prolifera textos". O título desse novo trabalho é O abismo.

O escritor olhou-o fixamente por alguns instantes, penetrava-lhe a alma. Aquele certamente não era um olhar de louco. O que aquele homem fazia ali?

(É preciso que se explique algo mais do funcionamento daquela clínica de recuperação psiquiátrica. Há, como já se sabe, duas alas. A da direita comporta o que se chama, excluindo qualquer eufemismo, de doidos varridos. Do tipo que precisa ser contido com sedativos e camisas-de-força. A ala da esquerda destinava-se aos mansos, viciados, gente como esse escritor, depressivos, rebeldes, geralmente pessoas que ali estavam por vontade própria, pessoas que, na rua, poderiam ser tomados como normais. A ala esquerda merecia o nome de clínica de recuperação psiquiátrica.)

(É preciso que se explique que o destino não é tão irônico quanto nós, os escritores, gostamos, adoramos, afirmar que é. Aquela biblioteca não se erguera, ao lado, por ironia. Ali estava porque o nosso escritor prolífero financiara a sua construção. Não por acaso recebia o seu nome.)

Continuavam os dois a se olhar, face-a-face, como fossem dois amantes. Aquele homem, aquele louco, ou não, parecia ler, adivinhar-lhe os pensamentos, mas sabemos que os homens não podem ler os pensamentos na cabeça do outros. Esse dom, esse assustadoramente perigoso dom, era de exclusividade do Deus que os mesmos homens criaram, não obstante alguns insistem em atribuí-lo a algumas fêmeas de nossa espécie, mais precisamente àquelas que são, e são quase todas, pois esse parece ser o destino comum a todas, agraciadas com a benção, dada pelo mesmo deus machista, da maternidade. Algumas palavras saíram furtivamente, quase mudas, da boca daquele mentecapto, a palavra bonita aliviava um pouco o peso do doutor, aquele homem não era louco, era um mentecapto, não, não era um mentecapto. Era um doente mental. As palavras soaram, destruindo os eufemismos tão buscados e rebuscados pelo homem que fora adestrado (sim, adestrado) para, como fosse de seu exclusivo poder, assim como o juiz decide quem é culpado, assim como os sacerdotes decidem quem é pecador em nome de seu deus irado, decidir quem é louco, demente, mentecapto, maluco, doido, doente mental, não mais lhe importava o nome de tal coisa que, por tanto ser repetida, perdera o sentido. São as coisas repetidas, as verdades absolutas, o que todo mundo sabe e ninguém quer mais saber, o que ninguém percebe que é exatamente o que todos nós sabemos, são essas verdades, empíricas, sensoriais, simplórias, são elas, somente elas, elas são as verdadeiras verdades. O doutor não podia pensar nisso, mas seus hábitos literários já o tinham levado a essa conclusão. Não pensaria nisso mais tarde. Não obstante era de pleno acordo com tais afirmações. O homem era louco.

"O Doutor sabe o que é ser louco?"

Anos e anos de estudo, aqueles ensaios publicados, as placas em sua mesa, prêmios do Ministério, aquele título pomposo, Doutor, o equilíbrio de seus pensamentos, seu nome nas revistas especializadas, a recente indicação ao novo Ministério da Saúde. Deveria saber o que é ser um louco. Não sabia, não respondeu. Em muitas ocasiões, e essa era uma delas, o silêncio, por si só, é mais que suficiente. Ele não lhe respondera, agora era a sua vez de silenciar. Assim eles se entendiam.

"Só escreveste isto?"

"Comecei há uma hora."

"Vou deixar-te, escreve."

O doutor deu ainda mais um suspiro e saiu, fechando a porta lentamente. Nada acontecera, lera um trecho de um livro que se encaminhava para algo como autobiografia, fizera uma pergunta da qual o seu interlocutor não gostara e descobrira que, apesar de toda sua erudição no assunto, não sabia o quê, afinal, era ser um louco. Ninguém sabia, nem mesmo os loucos o sabiam. Mas aquele homem, aquele homem era lúcido, passeava pelo tênue fio que dividia os mundos: seu mundo e o mundo real. Vivia nos dois mundos. Ele sabia que era louco, mas saberia o que era ser louco? Não, não saberia. Identificar-se como tal excluía-o desse grupo de pessoas. A loucura, palavra que já se repete por demais, está em não saber que se é louco, é uma doença da mente, ou seria do espírito? Todos esses pensamentos flutuavam em sua cabeça quando à sala sua voltava, esquecera o estribilho da musiqueta, não tinha com que mais expulsar os indesejáveis pensamentos. "O homem é homem quando faz arte." Teria medo de pensar, o escritor? Sua arte era uma fuga à sua demência ou era ela mesma a demência? Cinco anos é muito tempo para que não tivesse percebido nada. Se aquele texto era uma revelação de si mesmo, e as circunstâncias indicavam para isso, ele precisava terminar de lê-lo. A solução estaria lá. Amanhã voltaria a visitar o amigo, usou esta palavra e assustou-se consigo mesmo. Por último pensou que solução era aquela em qual pensara. É sabido que esquizofrenia não tem cura, mas pode ser controlada com choques e antipsicóticos. Disse à enfermeira que podia diminuir as drogas daquele homem, receitou mais alguns remédios e toda essa inutilidade que, de antemão, sabia que de nada servia. Era seu dever profissional: dar uma esperança à família daqueles pobres coitados, eles queriam gastar, pagar-lhe para que dissesse "estamos evoluindo, estamos evoluindo". Não se lembrava de um dia ter "curado" ninguém, ele apenas controlava os seus males. A pergunta que fizera em relação àquele interno, fê-la a si mesmo: o que fazia ali?

 


Deixemos o doutor com suas perguntas, dúvidas e contradições. Voltemos nossos olhos ao que se sucedeu com o nosso amigo (fora esta a palavra usada pelo doutor) naquele quarto, quando se retirou o magnânimo juiz do juízo pleno, ou não, de outrem.

O doutor deixara-o dizendo "escreve". Ele não podia saber e nem saberia, e isso derruba de uma vez por todas qualquer hipótese daquele homem meio-louco-meio-lúcido ser capaz de ler pensamentos, que já naquele momento o doutor pensava em extrair-lhe algo através dos seus textos. Algo que o doutor nunca pensara, atitude pela qual se recriminava. Sozinho? Sim, estava sozinho, mas não. Não estava sozinho. Aquela voz. A voz da loucura? Aquele homem tão bem vestido de negro, cabelos negros, olhos negros, unhas negras, barba negra, pele negra. Exatamente oposto ao doutor. Ao seu amigo doutor. Qual deles seria a voz da loucura? Seu estado de semilucidez o confundiu, e esta foi a primeira vez após o início do tratamento, os choques e antipsicóticos. Naquele momento, não era capaz de distinguir realidade e delírio doentio, malsão, de má, de péssima influência sobre a sua já perturbada mente, mente de louco, mentecapto, esquizofrênico, era essa a palavra. Ela soou-lhe bem, algo eufônico, indiscutivelmente e desconfortavelmente eufônico. Eufônico... Eufônico? Eufônico!

Mas agora aquele homem, que já o visitara na noite anterior, voltava. Dessa vez à luz do dia, que entrava fraca e dissimuladamente pelas janelas gradeadas, uma prisão? Não, um manicômio. Estava lá, disposto a falar-lhe, como sempre estivera e sempre estaria. Estaria? Esse verbo no futuro fê-lo concluir o que já sabia (as verdades que se repetem), esquizofrenia não tem cura. Loucura não tem cura. Por que por tantas vezes escutara o que aquele senhor de negro tinha a dizer-lhe? Não sabia. Sabia. Aquele senhor de negro era a sua voz, era ele mesmo num apelo a si mesmo, era ele mergulhado dentro de si, dentro do abismo que ele próprio cavara só para depois se jogar nele, no abismo. Era ele mesmo o culpado por ele mesmo se tornar o que ele mesmo era? E os outros? Que outros? Não havia outros. Era esse o problema? Não haver outros? Quem poderia responder-lhe? O senhor de negro? O de branco? O SENHOR? Aquele que estava ali à sua frente não tinha respostas, tinha uma ordem: "Escreve".
Foi só isso que disse, uma ordem. Ordens são ordens. "Escreve, escreve, escreve", repetiu para si. A palavra perdeu o sentido. Fonemas absortos, não pertenciam àquele ambiente. A fumaça, a última fumaça, os resquícios mais ínfimos daquela formação verbal desfizeram-se quando respondeu, não para o homem de preto, mas para si: "Escreverei".

Pôs-se a escrever, o trecho escrito naquela manhã que já se transformava, como todas as coisas se transformam, em tarde foi o seguinte:


No segundo ano eu tinha, além do de Literatura, um outro professor que era muito interessante. Ele nos guiava pelos meandros da Matemática. Álgebra e Geometria. Ele era o dono do maior número de aulas semanais. Sempre usava camisas listradas e tinha como grande amigo o de Física. Esse último, o de Física, usava seu colega como personagem nos problemas a serem resolvidos. Desenhava no quadro uma bola com antenas, pernas, braços e uma listra na altura do que seria o peito. Enchia-a de vetores, coisa que nunca entendi, e nos dava a solução.
Num dia que teríamos aula à noite, coube ao de Matemática a difícil tarefa de dar a última aula da semana, no último horário, à noite, depois de mais de seis horas de confinamento nosso naquele colégio, colégio de rico, diga-se de passagem. Ao chegar à sala deparou-se com um espetáculo que, para mim, era dantesco. Dois dos seus alunos disputavam um braço-de-ferro. Aquela demonstração de força física, bruta ia contra a minha concepção de humanidade: "O homem só é homem quando faz arte". Repudiei aquilo e confesso que quase vomitei. Eu gostava do professor. Não mais gostei. Ele permitiu que aquela cena se prolongasse ainda mais, deu direito de revanche ao perdedor. Como sempre fazia, continuei a ler meu livro (todo dia eu lia um livro diferente, ia à aula onde ficava apenas a ler), A montanha mágica, do Tomas Mann.
Acho que para aquelas pessoas que me viam todos os dias, mas que na verdade não me conheciam, eu era um louco. Será se eles sabiam que eu tentava descrever o que observava neles em meus textos kafkianos de linguagem euclidiana (adoro a adjetivação com nomes de escritores), que fazia por aquelas épocas? Hoje, relendo esses textos, vejo que seus delírios são, de fato, kafkianos e sua linguagem tenta ser euclidiana, beneficiando-se do meu saber em Biologia. Eu conseguia descrever os atos de cópula com um rigor que assustaria qualquer cientista, propositalmente. Descrevia partes de nosso corpo, anatomia de diversos filos do reino animal e vegetal, tudo colocado no texto de forma que viesse a ser cômica. Hoje não consigo mais fazer isso, o que aconteceu comigo? A degradação do homem pelo homem, como dizia meu irmão? Não, o tempo, a velhice (aos 26?), desistir de fórmulas e concepções não tão artísticas. Sei lá. Hoje estou feliz com o que consigo escrever e isso me basta. Basta-me para que eu seja um homem. "Arte é carne, é sangue." Essa frase é do Graciliano Ramos, na semana em que aconteceu aquela cena animal, estávamos estudando-o. Penso que só eu atentava às aulas de Literatura. Aqueles outros faziam parte de uma subespécie, consigo recordar algo de biologia. O nome dessa classe taxonômica, Homo sapiens adolecentus. Nunca fiz parte desse subgrupo. Não me arrependo disso, meus livros me são suficientes.

 

Tínhamos deixado o Sr. Doutor num estado de espírito lastimável. Ele, homem culto, descobrira que a profissão a qual dedicara sua vida era algo incerto. Descobrira que fora adestrado para julgar questões superiores a seu próprio entendimento, afinal ele não sabia o que era ser um louco. Não obstante era a sua tarefa, como um anjo (ou um demônio) que julgasse em nome do seu deus, ou como a morte que julgasse quem está a viver, pois a loucura, para o espírito daquele médico (sim, lembrara que era um médico), era como a morte: fria e solitária. O que ele podia falar sobre a morte, já a vivera? Ou melhor, já a morrera? Sentira-a em si? Não, assim como sobre a loucura, nada podia dizer. Era essa impotência, essa certeza de que nunca teria uma certeza que o abalava. É isso que nos abala a nós todos. Duas certezas ainda lhe restavam: nasci e hei de morrer. Eis os dois direitos e, ao mesmo tempo, os deveres absolutos da humanidade. O que está ou deixa de estar no caminho que percorremos entre esses dois extremos, é o que nos diferencia uns dos outros, mas no final havemos de voltar ao pó de onde viemos. Mas não, ele não poderia estar a pensar daquela forma, impossível. E Deus? Reformulou o seu pensamento: o que há entre esses dois extremos é que nos diferencia e o que pode nos dar uma outra esfera de existência, seja ela boa ou má. Até agora, tudo o que fizera, dar-lhe-ia uma segunda chance ou uma condenação ao fogo eterno? Essa era outra certeza que não poderia nem jamais teria. Sentiu um calafrio, pensou escutar a primeira trombeta do Apocalipse. Viu as bestas, dragões, o cão dos infernos, Cérbero. Não, ainda não era chegado o tempo. A única besta presente em sua vida era a da loucura e isso, por enquanto, já era demasiadamente pesado para o seu espírito. Pensou escutar a segunda trombeta, mas já estava à porta de sua sala. Seu furor filosófico esvaiu-se.

 

Vamos fugir um pouco ao ambiente da clínica, que já está por demais saturado com crises filosófico-existenciais e sentimentos de dúvida, repulsa, preocupação com as crianças, ateísmo temporário, medo, e, precisamos lembrar, loucura.

Dirijamos nossas atenções, preciosas, à casa do Sr. Doutor, em algum bairro de ricos na capital de nosso país. O telefone toca e quem o atende é a empregada.

 

"O Sr. Doutor Maximiliano se encontra?"

A mulher responde com uma voz áspera que parece brutal àquele que falava ao outro lado da linha.

"Não, mais a mulher dele tá."

"Poderia passar-lhe o telefone, à senhora?"

"Um momentin. Dona Fátima tem um home de voz macia e palavra bonita querendo falar com a senhora, acho que é o mesmo daquele dia lá."

"Me dá o telefone aqui"

Os ricos também não usam mais a colocação pronominal na oralidade, mas D. Fátima sabia que, ao falar com aquele homem que ansiosamente a esperava ao telefone, deveria usar todos os conhecimentos do nosso idioma, mesmo que corresse algum risco de cometer um erro.

"Quem fala?"

"Hugo Castelo, assessor do presidente eleito. Liguei ao doutor Maximiliano há alguns dias, encontramo-nos e eu o fiz a proposta que a senhora bem sabe, pois estava com ele".

"Sim, sim. Lembro-me muito bem do senhor. Não poderia esquecer."

"Gostaria que o doutor Maximiliano marcasse um novo encontro, um almoço. Nada formal. Quero saber se ele já tem uma decisão formada."

"Entendo perfeitamente. Falarei ao doutor que entre em contato consigo. A que horas ele poderia telefonar-lhe?"

"O que temos a discutir é algo importante, muito importante. Ele tem o número do meu telefone celular. Poderá ligar até pela madrugada se isso bem lhe aprouver. O presidente quer a formação de seu ministério o mais rápido possível. A senhora entende, na política o tempo não é dinheiro, mas é voto e apoio popular e partidário."

"Sim, direi, direi ao doutor. Quão antes for possível."

"Agradeço-lhe e tenha uma boa tarde."

"Para o senhor também."

Ele não pôde ouvir esta última frase que D. Fátima pronunciava. A indiferença e frieza inerente ao tipo de pessoa que era fizeram-no baixar o telefone. Havia muito trabalho e, como já dissera, não se podia dar o luxo de perder tempo. Quanto antes melhor.

 

Vemos que essa vista à casa do doutor não foi atitude vã. Que grande sorte a nossa! Quando resolvemos visitar D. Fátima chegamos no momento em que tocava o telefone e descobrimos o nome do nosso protagonista! Maximiliano. Esse certamente é um nome de psiquiatra. Combina com o seu jaleco branco, combina com a sua idade, é difícil imaginar um Maximiliano com menos que meio século de experiência e literatura por sobre os largos ombros. Ainda corroboramos o que já nos foi concedido pelos momentos de onipresença do narrador: ele foi convidado para ser Ministro do novo Governo. Como diria aquele Maximiliano: "estamos evoluindo, estamos evoluindo". De resto, ainda descobrimos o nome do assessor do presidente eleito, Hugo Castelo. É um nome curto. É um nome para diplomata. Ele pode ser importante, pode sim. Nunca se sabe. Esses personagens que falam pouco e olham dissimuladamente, parecem figurantes de filme C, esses geralmente são importantes no enredo. Se fosse um romance policial o Sr. Hugo poderia muito bem ser o assassino ou então o detetive: talvez tivesse de investigar por si só a morte do Presidente eleito, durante uma madrugada, junto com o Sr. Maximiliano, tudo deveria ser feito às escondidas, a imprensa de nada poderia saber. Mas por que o Sr. Doutor se envolveria com isso? Ora, foi um louco que matou o presidente! Nessas histórias tudo pode acontecer, meu amigo leitor. Não se assuste. Mas o talento desse que lhe escreve não é suficiente para convencê-lo de tal fantástica história e, nesse caso, o principal suspeito é sempre o vice-presidente ou adversário que não conseguiu eleger-se. Mas naquela noite o vice estava em outro país, esse é um álibi, mas ele poderia ter sido o mandante do crime. E o derrotado? Não, não. Já entrara em acordo com o vencedor, iria até assumir um dos ministérios. Essa não é uma boa história. Voltemos à clínica. Um certo Doutor Maximiliano vos espera para que possa retirar-se daquele recinto e voltar ao aconchego da sua casa, onde pensa que poderá descansar para que, à noite, possa ir à igreja. Está em falta com Deus. Ele quer o Seu perdão.

 

Ele não pode sair agora, ou melhor, ele pode. No entanto terá pouco tempo, apenas o suficiente para o almoço. Como sabemos, estamos ao meio-dia, a manhã está a madurecer. Em poucas horas já será tarde. O doutor ainda organizará alguns papéis sob o som de um belo jazz, em sua sala, e, feito isso, partirá a sua casa, no outro lado da cidade. Não lhe importa que possa retornar atrasado, hoje ele quer almoçar com sua esposa, D. Fátima. Hoje ele blasfemou, hoje ele descobriu que não sabe o que é ser louco. Hoje ele apercebeu-se de quão empírica é a sua ciência, aquela ciência a qual se dedicara por muitos anos da sua vida. Hoje ele saberá que o presidente eleito quer uma resposta daquele homem que, já por duas vezes, foi secretário da Saúde de seu estado. Ele ainda não tomou uma decisão e muitas coisas hão de entrar na pesagem que fará à noite, antes de dormir e exatamente após a sua oração, na qual pedirá perdão a Deus e uma luz para não tomar a decisão errada. Lembrará que só o Senhor é Deus. Lembrará que "Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim". Seu pecado foi muito grande, mas também recordará que todo e qualquer pecado é igual perante os olhos do Senhor, pois "Sua palavra é mais penetrante que espada de dois gumes [...] e sob seus olhos todas as coisas estão nuas". Lembrará do que leu, o texto daquele homem, aquele mentecapto. Lembrará da sua face, sua loucura, seu apelo, sua pergunta. E é ele, o louco, que aparecerá em seus sonhos e repetirá a insalubre pergunta que lhe fizera pela manhã: "O Senhor Doutor sabe o que é ser louco?" Aparecer-lhe-á também um homem de negro que lhe perguntará porque o doutor não respondeu que "não, não sei o que é ser louco". Acordará em meio à brumosa madrugada com a testa suada, suor frio. Levantar-se-á e irá em direção à cozinha, "um chá, um chá é o que eu preciso". Perceberá que ele não precisa, nunca precisou e nunca precisará de um chá. De que ele precisa? Ele não sabe. E quem sabe? Deus? Pode ser que Ele saiba. Mais uma vez, estará a blasfemar contra Deus. Mais uma vez arrepender-se-á. Voltará à cama, descobrirá que está sem sono. Escutará as ressonâncias de sua querida esposa, aquela mulher que sempre esteve ao seu lado, desde os tempos da faculdade quando se decidiu pela psiquiatria e seu pai o expulsou de casa. Foi nessa época que a conheceu. Pensará que sua vida poderia dar um romance e terá uma idéia que, de início, lhe parecerá boa. Pensa em pedir ao escritor para ajudá-lo a escrever o seu próprio romance. A idéia desvanece-se, assim como a sua consciência, que cai no sono. Um sono de esgotamento. Puro esgotamento, não o físico, mas o mental. Pensa isso, exatamente isso. São essas as palavras que ele usa, são essas as expressões, essas formações semânticas, esses mesmos pontos, esse tom. E nós sabemos disso graças a um momento de onipresença deste indeciso narrador. Nós sabemos disso porque sabemos e essa explicação é-nos suficiente.

 

Naquela noite, enquanto Maximiliano ruminava, remoía, suas dúvidas e recentes descobertas, o escritor, lá na clínica, punha-se a escrever, que é o seu natural ofício e, ao mesmo tempo, maior prazer. Aquele texto que iniciara pela manhã tinha poucas páginas, necessitava de escrever mais. Percebeu que era aquilo, não os antipsicóticos, não os choques, não as drogas, não as sessões com os muitos psiquiatras que estavam dispostos a atendê-lo naquele sítio. Aquilo era o que o mantinha naquele estado de semilucidez. Dava-lhe o equilíbrio exigido para caminhar sobre o tênue fio que dividia os dois mundos. Ele poderia dizer: "Isso é real, aquilo não é". Era um louco no mundo dos sãos ou era um são no mundo dos loucos? Não importa. Esquizofrenia não tem cura. O que sua mão conseguiu escrever foi o seguinte.
 


 

 

 

 

 

  

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