Segura o livro com a mão direita espalmada por trás da capa. Ela murmura cada palavra lida como uma prece. Murmura sem produzir nenhum ruído perceptível para o homem que está ao seu lado no ônibus. Observo-a da fileira de trás, na diagonal, e sorvo todas as palavras lidas. Cada tremida do lábio superior, contato da língua com os dentes, cada virada de página que mostra um relance da capa preta. O ônibus balança, a prece cessa por alguns segundos e o homem olha devotamente para os seios da menina que comungam.

Desvio o olhar por um instante, à procura de uma explicação para a balbúrdia na calçada do outro lado da rua. Uma velha está caída no chão, com as mãos sangrando. Sem dúvida tomou um daqueles tombos tão sem sentido quanto costumeiros para pessoas da nossa idade. Dois jovens e um porteiro a socorrem e ela levanta chorando, não tanto pela dor, mas pela humilhação de não conseguir mais andar sozinha sem se machucar.

Reconheço-a quando levanta. Era uma antiga vizinha de vila. É quatro anos mais nova que eu. Adorava brincar de pique, subir na árvore de pitanga. Lembro que chorou bastante no dia em que os pais se mudaram da vila. A reconheci pelo jeito de chorar, porque os olhos já perderam o brilho, a boca murchou, o nariz cresceu e a pele enrugou. Todos que conheço daquela época estão assim agora. Quase irreconhecíveis. E estes têm que dar graças à maior invenção humana por estarem vivos.

O ônibus anda novamente e balança muito. A menina também esticou o pescoço para ver a queda da velha. Todos os passageiros fizeram isso, percebo agora. Sorrio para a menina e utilizo uma expressão que outrora era meu rosto de flerte.

Nenhum resultado. Nem indignação consigo arrancar mais das mulheres. Nada. Foi como se não fosse com ela. Um velho lhe fez uma cara esquisita, mas deixa para lá.

Levanto, tento tocar a sineta no teto do ônibus, mas meu braço já não se eleva mais que 45 graus. Desisto e caminho, apoiando as duas mãos nas cadeiras do ônibus, até a porta da frente. Peço ao motorista para descer nesta esquina, uma antes do ponto. Ele não me escuta. Meu tom de voz já é bem mais baixo do que antigamente. Grito desta vez. O motorista faz que não ouve.

Grito novamente e ele responde que não pode abrir porque posso me machucar ao saltar fora do ponto e aí ele estaria em apuros. Me reprova por querer saltar antes do ponto, algo tão natural, ora essa. Mais uma humilhação que a idade nos faz passar.

Salto no ponto. Um passo de cada vez. Um estudante, que espera para entrar no ônibus, me dá o braço para ajudar a descer o último degrau. Eu faço um meneio de cabeça de que não há necessidade, mas mesmo assim ele agarra meu braço e me coloca com segurança na calçada. Espera por um obrigado que não vem, e fecha a cara. Não pedi auxílio, ora bolas.

Caminho vagarosamente até a próxima esquina. A rua está vazia. Os carros estão parados no sinal fechado. Em outros tempos, nem tão longínquos assim, atravessaria correndo a rua e continuaria no pique até a praia, onde mergulharia no impulso, não sem antes dar uma cambalhota nas ondas que chegam mansas à areia.

Sei que correr está fora de questão agora. Mergulhar dando cambalhotas nem se fala. Mas continuo andando devagar e chego à esquina. Espero o sinal fechar novamente e atravesso a rua com o passo mais apressado que consigo dar. Conheço este sinal. Sei que ele abre rapidamente. Mesmo com toda pressa só consigo alcançar a calçada do outro lado da rua com a luz amarela piscando.

Caminho em direção da praia de Ipanema. Esquina com a Garcia D'Ávila. Cresci neste quarteirão e vivi aqui por mais de sessenta anos. Vivia brincando pela rua, passava as tardes na praia. Conheci minha falecida esposa nestas areias. Namorávamos no banco do calçadão que ficava em frente ao extinto Bar Brasil. Fiz questão de continuar morando no bairro mesmo depois de casado.

Quantas recordações. Agora estou morando em Botafogo. Em um quarto e sala. Exigência da minha filha que cismou que eu não poderia morar tão longe dela depois do falecimento da minha esposa Rosa.

Vez por outra dou minha fugidinha logo de manhã cedo para um passeio na praia. Hoje aproveitei que minha filha está em São Paulo, em viagem de negócios, coloquei meu velho calção de banho vinho, vesti uma bermuda, camisa regata branca e vim.

Cá estou agora, já no calçadão da minha praia. O sol ainda está fraco, pois são oito horas, e me entusiasmo a tirar os chinelos do pé para sentir o contato com a areia gelada e dura da manhã.

Pelo menos costumava ser assim. A areia está muito fofa, meu pé afunda e fica cada vez mais difícil andar. E como meu pé arde. Não é possível a areia estar tão quente a essa hora. Nunca foi assim.

Continuo andando devagar. Mesmo com as solas dos pés queimando me recuso a colocar os chinelos. Chegar na parte da areia molhada é um refresco, mas não resolve completamente minhas dores. Molho meus pés na água e sinto de volta a sensação de tranqüilidade de décadas atrás. Mas tudo se evapora rapidamente quando uma marolinha tira meu equilíbrio e quase caio. Uma moça que passava fazendo cooper grita para o vovô ter cuidado. Eu entendo perfeitamente que é comigo, mas dessa vez sou eu que me faço de surdo.

Fico com os pés na beirinha da água por mais alguns segundos e caminho de volta até a areia seca, onde sento em cima do meu chinelo para não sujar a bermuda. Hoje em dia, vejo que todo mundo faz isso, mas na minha época eu fui o pioneiro. Mas disso ninguém sabe. E mesmo que soubesse, quem daria bola?

Tudo está tão diferente. Pessoas queridas morreram, bares e lojas fecharam. A areia está mais fofa e quente, mas a água do mar continua a mesma. Eu envelheci, mas ela não. Conheço cada possível buraco nestas areias, cada corrente marinha que empurram sempre para a esquerda. O vento. Ah, o vento continua fraco, mais parecendo uma brisa. Como nadei nestas águas.

Decido repentinamente que preciso voltar a nadar nesta praia. E terá de ser hoje, agora, porque da próxima vez estarei mais velho e frágil do que neste momento. Tiro minha camisa regata sorrindo. Tiro também minha bermuda. Dobro as duas peças de roupa com cuidado.

A praia vazia me dá cobertura. Com ela cheia jamais permitiriam um senhor da minha idade nadar sem ninguém por perto. Venço com algum esforço as marolas iniciais e mergulho com vontade na água gelada. As correntes são minhas parceiras e devolvem meus pés à areia com a suavidade dos meus tempos de garoto. Que sentimento gostoso se apossa de mim.

Sinto-me confiante para dar umas braçadas de despedida neste mar que tanto fez parte da minha vida. Começo a nadar e a sensação de bem-estar continua. É verdade que tenho de fazer cada vez mais força para não afundar ou ser arrastado pelas ondas, mas isso é detalhe perto da felicidade que este momento está me trazendo.

De repente, alguém agarra afoito minha cintura e começa a gritar coisas ininteligíveis. Tento me desvencilhar batendo o pé mais forte, mas não consigo. Fugir mergulhando também não dá certo. Acabo engolindo muita água. Até que apago.

Não sei por quanto tempo fiquei desacordado, mas ao abrir os olhos senti o sol forte invadir minha retina. Estou deitado na areia. Resolvo fechar novamente os olhos, mas sinto que dezenas de pessoas estão em pé a minha volta. Escuto uma pessoa dizer que me salvou. Que o velho estava se afogando, mesmo na beirinha, a menos de três metros da areia.

Tusso duas, três vezes, as pessoas fazem silêncio para ver se acordo. Resolvo permanecer com os olhos fechados. Eu poderia estar mesmo me afogando, não tenho dúvida disso. Mas a verdade é que por alguns segundos, enquanto batia as pernas e os braços, mesmo que fosse na beirinha, como disse o meu salva-vidas, me senti de um jeito tão bom como não me sentia há quatro décadas. E é me apegando nesta sensação que permaneço mais um pouco de olhos fechados, me agarrando à memória recente da minha despedida do mar.


 

 
 
 

Flávio Izhaki
Tem tem 24 anos e é jornalista.