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Soturno, sempre desconfiei de suas intenções. Menino ainda vestiam-no com casacos pretos, que combinavam com profundas olheiras e as pesadas botas que o obrigavam a um andar arrastado, olhando, vez por outra, para trás, como cão enxotado. Me parecia uma dessas figuras a quem a vida não concede uma saída, aprisionando-o dentro de si mesmo. Na mão, amarrotadas folhas de papel almaço, que dizia ser o suporte para o que mais gostava de fazer: escrever. Nunca ninguém vira nenhum dos seus escritos. Apenas suposições dos que o encontravam desatento, com um cotoco de lápis, a rabiscar, longe dos gritos alegres das brincadeiras de rua. Nem mesmo seu nome sabia. Mas me aguçava a curiosidade maior que a mangueira debaixo da qual se sentava no quintal de um velho casarão. Voltei a encontrá-lo quando o casaco e as botas eram bem maiores. O casarão e a mangueira haviam dado lugar a um prédio em que empilhavam novas famílias. Meu reconhecimento se fez pelas encardidas folhas de papel em suas mãos. Que idéias teria posto nelas? E aguçado pela já madura curiosidade, me aproximei. Assustado, olhou-me de soslaio e apertou o chumaço de papel com a desconfiança natural de quem vive numa cidade onde o canto dos pássaros foi substituído pelo sibilo das armas de fogo. Tranqüilizei-o com os ares de velho amigo e mansamente falei de uma infância que vivia na minha memória: dos ipês lilás e amarelos que coloriam a rua sem saída perfumada pelos jasmins; do café servido com bolo de fubá e aipim, nos fins de tarde, entre papos acalorados dos homens sob o olhar adocicado das mulheres. Falei, ainda, de Helena, para quem ele nunca dirigira um olhar. Helena tão cobiçada por todos nós... E aventurei-me: –
Diga-me, amigo, o que de tão importante escrevinhou nesses papéis, que sempre os teve protegidos dos olhares de todos? Foram muitos os anos e o reencontrei agora. Cabelos brancos, dirigiu-se a mim sem que eu buscasse a aproximação. Não fossem os papéis, não o reconheceria. Agora bem mais encardidos, mas não menos a causa da inquietação da minha curiosidade por tantos anos. Temendo afugentá-lo, pensava de que maneira o abordaria, para que desvendasse o mistério dos papéis. Surpreendeu-me. – Sempre vi na curiosidade dos que viviam próximos a mim a intenção criminosa de me tomarem os papéis em que tenho meus escritos. Por toda a vida os protegi. Cuidei deles como zelei pela minha alma. Neles estão a minha própria vida. Como um meliante das letras, não resisti à tentação de roubá-los, cuidando de antes policiar se alguém me via. Arranquei de suas trêmulas mãos tão preciosos papéis, pois assim me pareciam. E num fôlego corri até a rua sem saída. E lá estavam o casarão, a mangueira e o menino. Deixei junto a ele os papéis em branco que roubara...
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[escrito com Henriette Effenberger] |
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Tudo começou assim...
– Oi... – Vamos tc... Iniciava-se ali uma experiência inesquecível. Pelas coordenadas que iam sendo dadas, fui construindo letra por letra o desenho mágico da mulher loura virtual, belos olhos azuis, boca sensual emoldurando dentes perfeitos. O corpo
– ah!, o corpo – pelos números fornecidos, não tinha como me enganar: uma sarada freqüentadora das academias: 52 quilos distribuídos em 1,70. Muito recatada, aceitou, cercando-se de cuidados. Natural que assim fosse. Afinal, tão bela mulher iria encontrar-se com um homem sobre o qual apenas sabia ser um virtual gentil de razoáveis escritos. Muita exposição colocaria em risco suas reais qualidades. Assim, creio, pensava... Sugeri um restaurante de cuja janela tivesse a visão do colar de lâmpadas da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. A cada carro que chegava, meus batimentos cardíacos mais se aceleravam. E temeroso que o calor neutralizasse o "Silences" borrifado no blazer que disfarçava os malditos quilos a mais, solicitei que aumentassem um pouquinho mais o ar-condicionado, mesmo diante dos olhares furibundos da senhora de uma mesa próxima já tiritando de frio naquela noite de junho. Agora sim, era ela. Os louros e longos cabelos contrastavam com a negritude do interior do carro importado. Em passos firmes caminhou na direção da porta, fazendo-me levantar com um largo sorriso. Não, não podia ser... Mas era. Todos os olhares convergiram para a figura que acabara de chegar. Uma onda de calor deve ter envolvido a vizinha tiritante na alegria expressa pela minha derrota. Diante do ET que chegara, alguns devem ter imaginado um OVNI na porta do restaurante. Bem, do virtual para o real, o salto tinha sido olímpico. Dos 52 quilos, era certo que 42 estavam na barriga e no busto. Os olhos azuis haviam marcado um encontro naquele rosto, mas se desencontraram, indo um para cada direção. Pedi a Deus que me enfartasse. E que fosse fulminante, pois o maître se aproximava para espocar o champagne, o que chamaria ainda mais a atenção dos clientes distantes. Havia súplica no meu olhar para que não o fizesse. Tarde demais. Homem educado pelos ensinamentos do meu pai de que o bom jogador se revela na derrota, deixei que a noite corresse, já que eu mesmo não tinha mais condições de fazê-lo. Se não pela educação que recebera, mas pelo estado de semi-embriaguês em que já me encontrava. E a hiena ali na minha frente a mostrar os dentes inegavelmente perfeitos que me induziam a imaginar que estivessem presos com "Corega". Acrescente-se um mastigar interminável. Diria secular. Impor-me maior sofrimento do que já vinha tendo só se com a intenção da absolvição plenária das penas do purgatório que tanto fiz por merecer. Pedi a conta. Entre salamaleques, o maître esticou-me o papel: 698 reais. E foi quando bateu-me no ouvido tal qual um "telefone" do DOI-CODI a sugestão: – Que tal esticarmos... Entre os dentes, fugiu-me a frase: "Esticar só se for no asfalto..." Me traíra o inconsciente e já me via cercado por passantes curiosos, coberto por plástico preto, iluminado pelas velas trazidas de mesa do restaurante. Acredito que ela não tenha escutado tal indelicadeza, mas a idéia avançava na medida exata em que automóveis e ônibus passavam em velocidade. Se Deus me poupara do enfarte, quem sabe?... A noite fora lenta e longa. Reuni o resto das minhas forças nos dois beijinhos de despedidas. Nesse momento pensei em minha mãe a olhar-me de uma das galáxias que por certo habita, orgulhosa dos ensinamentos. Dois espirros coroaram a noite. O ar-condicionado ainda por cima me gripara. (Para que não mais me surpreendam, nem eu a vocês, jantar agora só com foto de frente e perfil, de vestido e biquíni.)
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Fernando Fiquei encantada em conhecê-lo!!!! Sou loura, olhos azuis, lábios carnudos e seios naturalmente firmes (jamais permitiria que um Pitanguy qualquer (Pitanguy?? ai, Jesus!) ousasse transformar o que Deus criou com tanta perfeição! Tenho 1,70m e peso em torno de 53 quilos. Achei excelente sua sugestão de um jantarzinho simples, com vista para a Lagoa. Sou uma pessoa pouco exigente. Por isso não se preocupe com o cardápio, nem com a carta de vinhos. Acompanharei seu pedido! Como é do seu conhecimento, moro em São Paulo e não gostaria de desperdiçar horas preciosas, que poderíamos passar juntos, viajando até aí de automóvel. Assim, acho mais prático que você providencie o bilhete da ponte aérea, o motorista para me apanhar no aeroporto e a reserva de hotel. Não me incomodo com a localização do hotel, pode ser o Mèridien mesmo, embora o Leme não seja um dos meus bairros preferidos no Rio. Por favor, você se incomodaria de pedir à recepção do hotel que disponibilizasse uma cesta de frutas e uma caixa de chocolates suíços na suíte que ocuparei? Uma outra gentileza, sim? Como não estarei em minha casa, não se preocupe em comprar flores, que meu causarão um grande transtorno uma vez que não vou querer deixá-las no hotel e serão inconvenientes quando embarcar de volta. Se você fizer questão de me presentear com um mimo, sendo o gentleman que percebi que você é, poderá substituír por uma jóia qualquer. Por favor, nada muito dispendioso! Uma pérola negra seria fantástica para eu conservar como lembrança dos momentos que, com certeza, viveremos. No aguardo de sua resposta.. meu beijo apaixonado... Henriette
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Henriette Diante do proposto, nada mais justo que, ainda que gentleman, contraproponha. Vivemos num mundo de negociações e, em assim sendo, peço que considere o que, por certo, poderá evitar que eu viva uma Segunda Noite Virtual. Falou-me dos seios firmes, sem esclarecer se os da face. Acredito, portanto, que não se incomodaria de, uma vez esclarecido quais, mandar-me algo que comprove tal firmeza, como, por exemplo, a marca do silicone. Da altura e peso, nada a temer, exceto que por descuido tenha deixado se medir incluindo saltos altíssimos que sempre aumentam a feminilidade nos requebros do equilíbrio. Se os olhos são azuis e os cabelos louros, estaremos próximos da suprema magia de com o verde da minha surpresa e o branco do meu susto, chegarmos a patriótica ventura de representarmos in totum este Brasil tão grande e amado. Duas barras de chocolates já disponíveis e flores obtidas graciosamente das sobras de um velório (ainda não o meu) quase completariam as solicitações feitas, faltando apenas a pérola negra, cuja depende apenas da secagem da tinta. Caso a contraproposta venha a ser aceita, peço urgência na resposta para garantir a viagem na FAB, no avião do Correio Aéreo Nacional e a contratação dos serviços do João Bandalha e de seu confortável Fusquinha 1961, uma preciosidade a somar-se à sua. Beijos amorosos... do Fernando
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Fernando Li e reli sua contraproposta! Para uma mulher do meu nível, num primeiro momento me pareceu inaceitável. Mas, ponderando sua argumentação e com o temor que Deus lhe enfarte, resolvi esclarecer alguns pontos que, talvez, tenham ficado obscuros. Coisas da virtualidade! Sou loura mesmo, graças à minha devoção fervorosa à Santa Loreal, que tem conseguido milagres espetaculares transformando meus parcos fios grisalhos num louro-trigo-embolorado, muito na moda ultimamente. Os olhos realmente não são azuis... Mas bem que poderiam ter sido, uma vez que revendo as fotos do álbum de família descobri uma sobrinha neta de minha bisavó que tinha os olhos claros como duas águas-marinhas! Mas acredito que isso não seja nenhum problema, um simples acaso da genética me fez com dois olhos castanhos lindos... (não tão lindos e narcisistas que estejam sempre olhando um para o outro). Uma outra confissão: exagerei um pouco ao dizer minha altura. Mas você como um homem vivido sabe que 20 cm a mais ou a menos não fazem a menor diferença, não é, benzinho? Quanto ao peso, bem... uma de minhas promessas de fim de ano foi começar urgentemente um regime e matricular-me numa academia de ginástica. Pretendia reduzir meu manequim 52 pelo menos para 48. Mas os dias andaram mais depressa que eu. O mês de janeiro está se acabando, logo chega o carnaval e resolvi, sem culpas, que neste restinho de ano continuo assim mesmo. Para o próximo ano serei mais disciplinada. Prometo! Espero que você não tenha se decepcionado comigo. Afinal, ninguém é perfeito e uma mentirinha à toa na rede faz parte do contexto... Ah! quase ia me esquecendo! Não deixe de me dizer quando passará o próximo avião da FAB, já estou de malas prontas. Você não me disse também a cor do fusca do seu amigo. Como irei reconhecê-lo? Beijos ardentes e apaixonados... Sua Henriette...
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Henriette Prosseguindo em nossas negociações que poderão levar-nos a absolutamente nada, meta que, creio, tanto ambicionamos, seguem objeções e aquiescências, aquelas mais que estas. Imaginei que seus parcos cabelos louros o fossem pelo Wellaton, o que em nada diminuiria a falta de brilho provocada por esse produto. Em sendo L'Oreal, dou-lhe os parabéns, pois, me parece, só se verá à frente da calvície dentro de longínquas duas semanas, pelo muito que me informei. Mas face ao calor senegalês, se sentirá mais fresca pela calvície. E frescura nos tempos atuais vem ocupando lugar de destaque na mídia. Falemos dos olhos. Não me parecem impedimento, pois se a bisavó da vizinha da sua tia os tinha azuis, neste mundo imaginário do virtual podemos perfeitamente aceitá-la como dona de belíssimos olhos azuis de Metileno, sem nos determos no arroxeado que os contorna, pois bem sabemos das reações de quem se vê frente a você no escuro da noite. Da altura. Pelo que vejo - ou graças a Deus ainda não vi - você seria uma gigante na terra dos anões. Em sendo assim (adoro frases começadas por em sendo assim... Me dá firmeza) relevo seu metro e quarenta e mantenho a contraproposta de colocá-la na lista de espera da FAB, reivindicando, é óbvio, meia passagem por tão insignificante pessoa. Esclareço, outrossim (outrossim é ótimo, já que nunca vi outronão) que o fusca é discreto, tipo rosa-choque (choque sim, pois o espanto de quem o vê já levou alguns transeuntes ao estado de. Transeuntes é uma palavra quase obscena, né?). E o motorista é facilmente identificado por ser paraplégico. No mais, no aguardo de breve resposta, com carinho despeço-me. Fernando
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Fernando Outrora (gostou de outrora?) me sentiria insultada com a proposta de um motorista paraplégico dirigindo um fusca rosa-choque comigo a bordo. Mas os tempos mudam... os anos passam... e estou aceitando até um chope no "Amarelinho", com direito a uma esticada na "Estudantina". Pois, como diria Liz Taylor, a parte difícil depois dos quarenta anos é que a cabeça está lá em cima e a região glútea lá embaixo... (Não sei por que cada vez que leio a palavra glútea associo com farinha láctea.) Pelo sim ou pelo não, estou olhando pro céu, procurando o avião do Correio Nacional, porque guerra é guerra, oras! Beijos da Henriette
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Henriette Depois
de ter percorrido 163.540 lugares nas salas Internet, é com desespero
que retorno as nossas negociações. Mas, parodiando Liz, só encontrei
regiões glúteas moles e lácteas endurecidas por silicone. Em
assim sendo (olha eu usando o em assim sendo novamente), trocar coisa
nenhuma por nenhuma coisa fere à minha gentileza. Mas proposta é
proposta!!! Apenas peço que a reconsidere em alguns pontos, quais
sejam: Dada
a dificuldade de conseguir um passe livre do Correio Aéreo Nacional,
por ter sido o tenente Juquinha reformado por invalidez permanente,
acredito que não se importaria em vir por transporte rodoviário mesmo
e acreditando que não se recusará, já mandei preparar o engradado
onde você virá muito bem instalada. A “Transportadora Quibe”, do
meu amigo turco Ahmed, garante a entrega pronta para ser servida. Desta
forma, viverá o sonho maior de ser jantada ao invés de jantar. Digo
sonho, já que a ser realidade, mil vezes o trator a esmagar esse peito
apaixonado. A
idéia da “Transportadora Quibe” ocorreu-me pela economia no aluguel
do fusquinha do João Bandalha, coincidindo com a prisão do meu
prestimoso amigo por homicídio doloso, depois de ter matado cinco
criancinhas na porta de um colégio e ter sido constatado que além da
insignificante paralisia de ambas as pernas, o pobre só tinha um olho,
considerando desnecessário dizer qual. A
"Transportadora Quibe”, com 50 anos de tradição e frota de
igual idade, é “porta a porta”, o que evitará que, tanto aí como
aqui, evitemos despesas com ônibus cujas tarifas subiram o absurdo de
10 centavos. O lema da empresa diz bem da qualidade do serviço:
“Receba sua encomenda, moída, pronta para ser servida”. Os
demais itens serão mantidos, pedindo apenas que não dê importância
ao mofo na barra do chocolate e das flores estarem murchas. Afinal, doce
Henriette, encontrará um amante tão mofado quanto murcho igualmente. Sem
mais, com todo o afeto em que se encerra... Fernando |
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Fernando Proposta é proposta! Analisando friamente, abro mão do chocolate mofado e das flores murchas, posto (posto é tão interessante como o "em sendo assim", não concorda?) que meu objetivo não é aumentar suas despesas. O turco não me pareceu pessoa de bons bofes e acabei optando pela "Transportadora Lusitana", na qual o portuga bigodudo me pareceu mais simpático, oferecendo-me, inclusive, um lugar na boléia do caminhão, desde que eu fosse, digamos, um pouco mais carinhosa com ele. O que aconteceu, porém, é que o destino do transporte não era o Rio de Janeiro e acabei indo parar em Teresina, fato que me impossibilitou de comparecer ao encontro marcado com você. Mas não se desespere! Assim como você se deparou com uma infinidade de glúteos moles e regiões lácteas siliconadas eu também tenho me visto às voltas com abdomens cultivados na cerveja, ralos fios de cabelos penteados de modo a encobrir (?) calvícies, próteses dentárias mal conservadas, tudo isso com a agravante de uma conta bancária sem a suficiente provisão de fundos para o pagamento de um almoço a quilo. Por essas e mais aquelas, acho que o destino nos uniu e que teremos que retomar nossas negociações partindo do zero. Que tal uma bela amizade? Abraços... Henriette
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Henriette É desesperadora a relação que virá a ter com o portuga da "Transportadora Lusitana", gerando provavelmente um franco-luso que na pia batismal receberá o nome de François ou Françoise Pereira, dos Pereira de Setúbal. Encareço (encareço é ótimo, pois me sinto majorado) que reveja as ofertas que fiz, pois ainda que mofado, trata-se de chocolate Nestlé, série 1972, portanto safra das melhores como por mim constatada. Em contrapartida (existirá por acaso em favordapartida?), proponho reformular o item flores, trocando-as por um capinzinho verdejante maneiro. Se não enfeitar a casa, asseguro que lhe será útil nos tempos difíceis que atravessamos. Outrossim (olha o outrossim novamente aí!) vale informar que a barriga da qual fala e que penso não ser a minha, bem fala da minha abastança. Os cabelos ralos troquei-os por belíssima peruca, daquelas absolutamente lisas, sobre as partes baixas da cabeça encaracoladas (por favor, falamos da calvície, apenas isso). A dentadura é uma preciosidade, pois passada a três gerações de pais para filhos. Uma raridade, como vê, ainda que hoje faltem dois poucos importantes caninos. Mas o que é isso numa ninhada de trinta e dois? Fiquemos na amizade colorida tão em voga nos tempos atuais. Sugiro apenas que diminua a intensidade do rímel preto, da sombra azul-rei, e do batom escarlate, pois de há muito parei de relacionar-me com índias, pelas razões glúteas e lácteas que não são do meu gosto. No aguardo da reconciliação... com muito amor. Fernando
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Fernando Ainda emocionada com o pedido de reconciliação, a despeito da ausência dos caninos, revejo sua proposta, retirando o rímel preto e a sombra azul, mas conservando o delineador que amendoa meus olhos. Até porque o portuga me abandonou no meio do caminho, unicamente por eu ter me recusado a manter o bigode que me fazia parecida com sua santa mãezinha. E agora, cá estou na estrada esperando a providencial carona do turco que me levará até você. Beijos ansiosos... Henriette
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Henriette Surpreso com sua emoção e mais ainda pelo despeito que imaginava enormes, reafirmo que os caninos são de pouca valia, pois não os poria em suas carnes flácidas. Lamento pelo bigode ora raspado que imagino fruto da ascensão pelas muitas plásticas cometidas. Sugiro (gostei de sugiro, pois parece anúncio de pratos irrealizáveis que aparecem em invólucros de sopas e outras iguarias de péssimo gosto) que inicie a caminhada de olho no céu, alertando-a de que o azar pode fazer com que de lá venham não as bênçãos do Senhor, mas algo enviado por um voante que não o avião da FAB, já que mais do que navegar, caminhar é preciso, pelo peso que carrega em suas finas pernas. Sem mais nem menos, certo de que o caminhão não irá fazer a suprema maldade de trazê-la... aqui jaz, Fernando
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[escrito com Henriette Effenberger] |
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Ótimo! Já adquiria, de novo, a segurança para fazer o que precisava ser feito. Quanto mais adiasse, mais distante ficaria de seus objetivos. Abriu a pasta, uma bela imitação de couro, preta, brilhante, em alto-relevo lembrando pele de jacaré, e foi direto ao compartimento que reservara para o livro. Na capa, em letras vermelhas, o título que o seduzira: Poder, amor e Dinheiro – 10 passos para a felicidade! Na contracapa a foto do autor, esbanjando felicidade, tendo ao fundo uma bela mansão, rodeada por um jardim gramado. Releu o primeiro passo: a felicidade está em suas mãos. Cabe a você ir buscá-la: os seres humanos nasceram para serem felizes, embora as pessoas, manipuladas por teorias religiosas e sociais tendam à infelicidade, ao comodismo. Uma criança ao nascer exige dos adultos os cuidados necessários para que sobreviva: quando sente fome, chora e é saciada. Quando está com as fraldas sujas, chora e as fraldas são trocadas. Ela não sente medo de ser rejeitada ao chorar, porque instintivamente sabe que suas necessidades são prioridades que devem ser atendidas, que seus pais ou os responsáveis por ela necessitam que sobreviva para a garantia da preservação da espécie. Mas à medida em que cresce, muitos medos e culpas lhe são ministrados juntamente com sua alimentação. Ela escuta que a mamãe vai ficar triste se ela se recusar a comer um vegetal que detesta, que é feio chorar, enfim, será reprimida para se adequar à sociedade. Então, continua o autor, este é o primeiro passo para ser feliz: manifestar sua vontade. Ignorar o medo da rejeição introjetado em sua mente durante a infância, enfrentar o desconforto do olhar desaprovador das pessoas que o rodeiam e exigir que sua vontade seja satisfeita. Mais uma vez respirou fundo, guardou o livro na pasta e com as palavras do escritor ainda ressoando em seu cérebro, decididamente entrou no elevador e apertou o botão número 12. Passos firmes, sentia-se um exército diante do que iria encontrar. Descobrira-se um novo homem...
Transpôs a ante-sala, sem nem mesmo observar o olhar espantado da secretária por não se anunciar. Nunca fizera isso antes, nos mais de trinta anos em que servira a empresa, alguns dos quais festejados como funcionário-padrão, reconhecido exemplo de lealdade e honestidade. Diante dos seus olhos a placa indicativa de que dali para frente era o que diziam ser o "ninho das águias", recinto privado da diretoria, em que grandes decisões eram tomadas pela palavra única de um homem de pequena estatura, calvo, olhos azuis e barbicha rala. Ali, na sala forrada de mogno, a grande mesa de uma cabeceira só, já que ninguém até então ousara sentar-se na outra extremidade para enfrentar, olho no olho, o "Sr. Presidente", como era tratado por todos, diretores e funcionários, o senhor do império em que se tornara o pequeno negócio surgido de um empório numa rua do subúrbio. Fora lá que começara como servente, quase um menino, a carreira que agora o fazia entrar naquela sala, um sonho acalentado pelos milhares de empregados da poderosa holding. A sala vazia dava mais imponência ainda à escrivaninha inglesa de absurdas proporções por trás da qual a figura do "Sr. Presidente" lhe pareceu insignificante. – Sente-se. O tom amistoso daquele homem sempre o emocionara. Fora assim durante todos aqueles anos em que sempre era solicitado para as tarefas mais difíceis, muitas das quais lhe exigiam noites insones. No turbilhão de seus pensamentos, os ensinamentos do livro que trazia na pasta de que este é o primeiro passo para ser feliz: manifestar sua vontade. Ignorar o medo da rejeição, procurar, pela introjeção em sua mente durante a infância, enfrentar o desconforto do olhar de desaprovação das pessoas que o rodeiam e exigir que sua vontade seja satisfeita. Percebeu que havia um pouco de suor na testa e enxugou-o com o lenço de fina cambraia que sempre fazia questão que vissem quando da tomada de grandes decisões. Havia importância, sim, naquele pequeno lenço. Sempre invejara, em sua trajetória, lenços, fossem eles em bolsos da lapela ou em aparições mágicas, alvos e perfumados, saídos de bolsos masculinos ou de bolsas femininas. Nunca encontrara explicação para o significado do lenço como poder de sedução. Mas enfim... E foi com o lenço apertado nas mãos que deu início às suas reivindicações que lhe pareciam todas justas. Muitas delas em cobranças intermináveis da mulher e dos filhos. Férias nunca gozadas, gratificações insignificantes, aumentos obtidos por dissídios coletivos, enfim um arrazoado de injustiças que o haviam transformado aos olhos da família numa servidão humana. Já ia pelo meio quando a voz quase maternal daquele homem de meigos olhos azuis soou como um trovão na imensa sala. Só então voltou a lembrar-se das fraldas sujas de que falara o livro. Levou o lenço aos olhos num último gesto e jogou-se pela janela, com pasta e livro. Poder, Amor e Dinheiro – 10 passos para a felicidade!, a exata distância da poltrona à janela... |
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Fernando Carlos de Andrade à disposição dos que honestamente me achem um meliante das letras. | ||||
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Henriette Effenberger | |||||