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Lábios
finos, sempre cerrados. Todavia, inegável, seu sorriso era mesmo
cativante, em perfeita consonância com os olhos cândidos, sob as
sobrancelhas espessas. E naquele balcão de bar, em diversas situações,
Clara pôde ouvir sua voz, baixa e rumorejante, no pedido de um maço de
cigarro, uma bebida. Encontros que se fizeram diários, para ela momento
para um café expresso, após o expediente de trabalho. Para ele... não
saberia dizer, mas sempre às 18h15 se encontravam involuntariamente no
mesmo local, em uma das esquinas do centro de São Paulo. E assim foi
durante um mês e mais outro mês e mais um ainda. E o prazer que a visão
daquele homem lhe proporcionava fez de sua ida ao café um ato
imperioso. Era fato, queria vê-lo, apreciar a sua tez clara, seus
cabelos grisalhos, meio revoltos, seu ternos de bom corte, suas mãos
com dedos longos – másculas – a pasta de couro, um pouco puída,
é bem verdade, mas de excelente qualidade, como se via do fecho em
cobre. Sinceramente, para Clara era um encontro, para ele... bom, para
ele não saberia dizer. Continuava com o sorriso enigmático, com a voz
que despertava a ela sentidos outros além do arremate de um dia de
trabalho, hábito que fizera com o café expresso, sempre no mesmo horário.
Todavia, naquele dia viu-se desconsertada. Sim, Clara não o encontrou,
ele não foi ao bar. E no outro dia e mais um dia. Não querendo ficar
com o gosto incerto da curiosidade, perguntou, finalmente, a amigos
comuns quem era ele. – Ah...um executivo que estava prestando
consultoria numa empresa próxima; Mário, Mário era o seu nome. Não
teve dúvida! Ligou, cutucou conhecidos, vasculhou informações e
acabou por obter o cartão de visita de Mário. E bastante sorte teve!
Grafado estava seu celular. Isso tornaria as coisas mais fáceis.
Celular é de quem o carrega e por conseqüência de quem o atende. Ótimo!
Não haveria intermediários outros a perguntar: quem gostaria? De onde?
Particular? Qual o assunto? Bastaria um pouco de sorte para que ele
atendesse ao primeiro chamado e calma para que ela não se atropelasse.
E assim, sossegadamente, em sua casa, depois de um belo banho, um copo
de uísque na mão, Clara sentou-se na poltrona mais confortável e
ligou! Estremeceu quando escutou do outro lado a voz, aquela voz
marcante, rouca, que parecia trazer ao momento situações cavernosas,
primárias, que haviam tanto marcado suas idas ao café. –
Mário? – perguntou rápida, passando a mão na própria perna,
sentindo aí as imaginárias mãos de Mário. –
Sim... –
Nós nos conhecemos de vista! –
Sim... –
Eu tomo café todo dia, às 18h15. –
Certo... –
Meu nome é Clara, estou ligando para você para dizer-lhe que senti sua
ausência. –
Como? –
Então, é isso! –
Clara, como isso? Só isso? –
Não, Mário, quero dizer, como vai? –
Clara, encerrei o trabalho. Por isso não apareci mais no bar. –
Sim, sim, Mário. Fiquei sabendo, andei perguntando sobre você e nessas
procuras achei o número do seu telefone! –
Verdade, Clara? Você é a mulher do café às 18h15, não é? –
Essa mesma, Mário! –
Então fica mais fácil, Clara. Podemos conversar pessoalmente, que tal? –
Lógico, Mário. Podemos sim. Eis,
num instante, o encontro marcado, dia seguinte, à noite, num bar. Oh!
Frenesi que tomou conta de Clara! A voz tão sensual, a roupa tão
pontual, os lábios finos sorrindo, sorrindo sempre! –
Tenho reserva, para dois, em nome de Mário Lima. –
Por gentileza, senhora, me acompanhe. Ei-lo
todo ele, todo inteiro, sentado, a mão direita sobre a mesa, o olhar
vago misterioso e o sorriso, então! Cativante, brincando naqueles lábios
cerrados, onde as palavras pareciam vencer barreiras para serem ouvidas,
em rouquidão, tantas vezes procuradas naquele bar, uma timidez que
fazia daquele homem mistérios e expectativas! –
Mário? –
Clara – sussurrou ele. – Sente-se, querida. E
sentada, impensadamente, Clara pegou aquele rosto, puxou-o para junto do
seu e beijou com avidez. Olhos fechados, foi possuída de certa
inquietude. Sim, sentiu os lábios de Mário cederam à pressão dos
seus. Mas parecia ir além, sem barreiras, ir além, como se sua boca
entrasse, ela mesma, por aquela boca. Recuou espantada. –
Clara – sussurrou Mário, com a boca entreaberta. –
Mário! Mário, que nojo! – gritou-lhe Clara em cusparadas ao ver
aquela boca aberta e nela pequenos toquinhos de dentes carcomidos pelo
tempo e falta de cuidado. maio
de 2003
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Adriana
Gragnani |
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