O terremoto que devastou Lisboa na manhã de 1º de novembro de 1755 alcançou 8,5 graus na escala Richter. Logo em seguida uma "tsunami", raríssima no oceano Atlântico, terminou o mórbido serviço. A população de Lisboa era de 170 mil pessoas. E o terremoto ceifou entre 10 a 15 mil vidas. A destruição foi enorme. Cinqüenta e cinco conventos e mosteiros danificados, cais afundado e o palácio real destruído. Eram 10h00 e era Dia de Todos os Santos, portanto grande parte da população participava de serviços religiosos. Muitas igrejas simples-mente desabaram sobre as congregações durante a missa.

Duas semanas após o terremoto, o cônsul britânico em correspondência a Londres relatou: "O primeiro abalo começou as 9h45, e, na medida em que pude avaliar, durou seis ou sete minutos, de modo que em um quarto de hora esta grande cidade estava em ruínas. Pouco depois começaram vários incêndios, que queimaram durantes cinco ou seis dias. A força do terremoto parecia estar exatamente sob a cidade. Dizem que ele se descarregou no cais que vai da Casa da Alfândega em direção ao palácio real, que foi totalmente arrasado e desapareceu. Na hora do terremoto as águas do Tejo ergueram-se 20 ou 30 pés".

O caos foi geral. Até o rei, D. José I de Bragança, que estava ausente e residia em Belém, ficou aterrorizado pelo resto de sua vida, evitando, a partir desse dia, dormir em qualquer construção de pedra. Na prática D. José I era um rei ausente, sem grande interesse pelas coisas do governo e obcecado por caça e ópera. Se o seu primeiro ato após o terremoto foi mudar-se para os jardins do palácio de Belém, em abrigos temporários, os do seu primeiro ministro foram mais duros, eficientes e históricos.

Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), o Marquês de Pombal, ocupava a pasta de primeiro ministro do rei e reagiu no primeiro momento com a famosa frase: "Enterrem os mortos e alimentem os vivos".

Numa caligrafia delicada Pombal baixou três atos. O primeiro era livrar-se dos mortos para evitar doenças, o segundo impor teto para o preço do pão e assim alimentar a população, e o terceiro, impor a ordem pública.

A destruição de Lisboa foi tal que a remoção dos corpos tornou-se essencial para evitar a disseminação de doenças e peste. Pombal convenceu então o patriarca de Lisboa a autorizar que os corpos fossem recolhidos sem cerimônia, colocados em barcos, enviados para o Atlântico e despejados no oceano sem os habituais ritos fúnebres. Para conter a ordem pública, Pombal autorizou juízes a reagirem instantaneamente em caso de saque ou assassinato. Ordenou que fossem armadas 80 forcas por toda a cidade, onde os flagrados saqueando e cometendo outros crimes eram enforcados sumariamente.

Discussão Intelectual: O terremoto de Lisboa ocorreu num momento crítico durante o Iluminismo, quando já se levantavam dúvidas sobre a crença excessivamente otimista na capacidade de conquista e realização da humanidade. O quebra-pau intelectual mais notório da época foi entre Voltaire e Rousseau. No seu "Poema sobre o Desastre de Lisboa, ou uma Análise do Axioma 'Tudo está Bem'", Voltaire demonstrou uma visão bastante pessimista do ocorrido: “Que crime, que erro cometeram essas crianças/ Esmagadas, sangrando sobre o peito de suas mães?/ A Lisboa caída bebeu mais fundo no vício/ Que Londres, Paris ou a ensolarada Madri?"

Rousseau, chocado com o que Voltaire escreveu, reafirmou as causas naturais dessas catástrofes e numa carta protestou: “Você teria preferido que esse terremoto houvesse ocorrido no deserto. É possível duvidar que eles não ocorram nos desertos? Mas não falamos destes, porque não causam danos aos cavalheiros que vivem nas cidades, as únicas pessoas que levamos em consideração”.

Arquitetura de Resultado: Mas se o terremoto de Lisboa inflamou um debate filosófico na Europa, em Portugal a reação foi muito mais prática. O fato é que a destruição da cidade oferecia grandes oportunidades de negócios para engenheiros e arquitetos. Escoceses, italianos, franceses se arvoraram em convencer Pombal dessa ou daquela solução para a reconstrução da cidade. Famosos, ricos e não menos vaidosos, os arquitetos europeus disputaram a tapa um contrato com a corte portuguesa.

Como a situação era de emergência, Pombal chamou os engenheiros militares portugueses para oferecerem suas soluções de reconstrução de Lisboa. Entre três deles, um se destacou. Manuel da Maia, que em 1755 tinha quase 80 anos. Todos eram profissionais experientes, acostumados a supervisionar a construção de edifícios civis e fortificações militares. Contudo, Pombal deu a Maia a tarefa de elaborar o que ele chamou de "dissertação". A "dissertação" de Maia examinava uma série de propostas sobre as possíveis opções de reconstrução. Incluíam que tipo de detritos deveria ser utilizado para aterrar as áreas baixas da cidade, tamanho dos edifícios em relação às ruas, esgoto imune a inundação etc. Até mesmo uma espécie de massa com ferro à prova de terremoto foi sugerida. Enquanto o projeto era elaborado, Maia pediu a Pombal que na área a ser reconstruída fossem proibidas novas edificações, ação ou venda de propriedades até o plano ser posto em prática. Pombal, numa canetada (ou seria penada?), baixou um decreto do jeitinho que Maia pediu. E foi além. Como o conceito do plano era criar um ambiente urbano mais sanitário e mais saudável para a cidade, Pombal chamou para o projeto um português residente em Paris, um cristão-novo, de nome Antônio Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), aluno do químico, botânico e clínico H. Boerhaave (1661-1736).

Pombal, o antidemocrático: Em 1750, coincidindo com o planejamento pós-terremoto, Pombal começou a enfrentar uma oposição crescente da antiga aristocracia e da ordem jesuíta, ambas influentes no reinado anterior, de D.João V, mas totalmente marginalizadas por Pombal. Devido à oposição aristocrática ter percebido que para remover Pombal era necessário remover o próprio rei, em 1758 um atentado contra D. José I, o assustado, teve lugar. Mas o rei escapou. E Pombal, aproveitando-se da ocasião, voltou-se com total inclemência contra as duas grandes famílias aristocráticas de Portugal, a família Távora e a do duque de Aveiro, envolvidas no complô. E de lambuja usou o frustrado atentado para atacar os jesuítas.

Uma vez que as duas principais fontes de oposição foram removidas, Pombal passou a usufruir uma autoridade absoluta no Estado português. As propriedades confiscadas dos jesuítas e das famílias envolvidas no atentado ajudaram a financiar muitos dos projetos favoritos de Pombal. Sem precisar tocar um só dedo nas minas de ouro e diamantes do Brasil. Para felicidade de todos e principalmente da Inglaterra.

Dizer que Lisboa conseguiu ser reinventada no final do século 18 graças a um poder muitas vezes impiedoso do Marquês de Pombal é acertar na mosca. O uso do Estado, aliado a posturas ditas antidemocráticas mas não menos eficientes, fez com que uma cidade fosse radicalmente transformada das cinzas de 1o de novembro de 1755. Pombal é isso. Um assunto polêmico até os dias de hoje. Quem não gosta de um Estado eficiente? A questão é: como essa eficiência vem empacotada?
 
 

 
     
     
   

 

 

Cidadãos modernos, consumidores da violência como espetáculo, adeptos da proximidade sem riscos e que tudo farão para não moverem seus ditos fundilhos da poltrona onde se encontram, cuidado: Regarding The Pain of Others (131 p. New York: Farrar, Straus & Giroux. $20) não é para vocês.

Na verdade o novo livro de Susan Sontag está mais para um sermão contra aqueles que transformam a realidade num imenso Cidade Alerta.

Ou, se preferir, contra aqueles que convertem notícias em entretenimento. Para eles Sontag dedica um torpedo: "Ninguém, depois de uma certa idade, tem o direito desse tipo de inocência, de superficialidade, desse grau de ignorância ou amnésia".

Regarding The Pain of Others assume que todos somos espectadores. Principalmente os que vivem nas regiões tranqüilas do planeta, longe das guerras, desapossados do real sofrimento dos que sofrem. Por princípio consumidores de notícias não têm a dimensão do terror e da injustiça massiva de uma guerra.

Olhemos fotos ou vídeos do que aconteceu na Bósnia, Chechênia ou mais recentemente no Iraque. Imagens horrorosas, mostrando quão depravados somos e do que somos capazes de fazer a cada um de nós.
Susan Sontag lança outro míssil:

"Não são os fotógrafos que devem reparar nossa ignorância. Tais imagens não são mais do que um convite a prestarmos atenção, a refletir, aprender, examinar e racionalizar sobre o sofrimento em massa causado pelo poder estabelecido. Quem causou o que essas fotos mostram? Quem é o responsável? É desculpável? Foi inevitável?".

Para ela os fotógrafos caçam "narrativas" que nos fazem conectar, distinguir ou mesmo corrigir as barbáries desse mundo. Naquilo que ela chama de "Era do Shopping", nos acostumamos a vender ou alugar nosso ceticismo, nossa propriedade intelectual.

Para compreender o que acontece Susan Sontag faz um dever de casa surpreendente. Partindo do fotojornalismo, indo de Roger Fenton e seu trabalho no Vale da Morte, passando por Robert Capa durante a guerra civil espanhola, Buchenwald e Hiroshima, fome na India, napalm no Vietnã e limpeza étnica nos Balcãs, Regarding The Pain of Others é mais um capítulo no seu costumeiro trabalho arqueológico.

Nascida em Nova York (1933), estudante da Universidade de Paris no final dos anos 50, Susan Sontag, além da fotografia, possui uma obra que navega em temas diversos tais como literatura pornográfica, Aids, estética fascista, música. Talvez por isso construa em volta de si tanta repulsa quanto admiração intelectual. Em 1978 ficou conhecida por ter lutado e vencido um câncer (leiam Ilness and Methaphor), e hoje pode ser considerada (gostem ou não) um dos poucos intelectuais norte-americanos que consegue enxergar e ler o impacto da mídia através das mesmas lentes dos seus colegas franceses Guy Debord ou Jean Baudrillard. Embora para mim a câmera da Susan Sontag foque melhor.
 
 

 

 

     

 

Ilídio Soares
Carioca, 47 anos, vivendo em São Paulo há 17 anos. Jornalista afugentado das masmorras das redações, caiu no mercado financeiro até porque é tão arriscado quanto qualquer cobertura de guerra na Bósnia.