Somente a pouco menos de um mês do evento eu me dei conta que iria presenciar a posse de um novo governo. Inicialmente a minha pretensão era de estar em férias e viajando neste período. Percebi que pela primeira vez veria um ano novo 

 

por aqui e ainda com um ingrediente a mais.

Estar em Brasília naquele dia significava inexoravelmente estar na Esplanada.

A sensação de oportunidade de ser testemunha ocular da história era um atrativo bem palpável. Como fotógrafo quase compulsivo, ser testemunha significava fotografar e fotografar e fotografar mais um  

pouco ainda. Como deixar de aplicar a paixão ao evento ?

Comecei com uma grande dúvida sobre o quê e como fotografar. 

Sabia que não teria acesso aos locais mais privilegiados e que haveria outros muitos fotógrafos por lá fazendo o mesmo registro histórico.

Decidi buscar um pouco do ambiente, com retratos em preto e branco. Ênfase nas

pessoas, com planos abertos, para não perder de vista a caracterização do  momento. Um pequeno desafio pois não costumo fotografar pessoas regularmente, menos ainda em preto e branco.

Lembro apenas que fiquei mais de 7 horas perambulando de um lado para o

 outro, a procura dos meus personagens. Eu pouco escolhi o que ia fotografar. Os assuntos simplesmente se apresentavam na minha frente e eu os ia colecionando.

A câmera exerce um fascínio nas pessoas. Para o bem e para o mal. Numa certa hora apontei a câmera para uma moça sentada no chão e quase apanhei de um mal educado, que surgiu sei lá de onde, 

vociferando e se dizendo noivo... Único caso desagradável, pois em geral as pessoas se deixam fotografar. Umas consentem 

acintosamente, outras apenas fingem que não perceberam. Poucas pediram para eu não fazer a foto. Muitos se ofereciam à câmera.

O inverso também é verdadeiro. A câmera alheia também exerce fascínio 

sobre nós. O que pensam cada uma destas pessoas clicando a torto e a direito por aí ? Estarão pensando no momento decisivo de Bresson, no punctum de Bartes ou no ### de Sontag ? Ou nada disso, apenas 

imaginam voltar às suas cidades com o troféu que lhes testemunha a participação no dia mágico ?

Brasília é um pouco da síntese do povo Brasileiro. Naquele dia esta síntese ganhou ares de renovação. A capital conhecendo o seu povo e o povo conhecendo a sua capital. Os que vieram, ao mesmo tempo que pareciam querer fazer notar a sua origem, precisavam se fazer passar por brasileiros apenas, sem distinção de 

sotaques.

Respirava-se otimismo e esperança. Que mágica era aquela que inflava as

pessoas a ponto de parecerem mais belas, mais saudáveis e mais jovens ? O vermelho era a cor do dia. Eu esperava ver mais  bandeiras, mas talvez a ameaça de um chuvaréu tenha deixado 

grande parte delas em casa. De qualquer forma muitas pessoas vestiam vermelho

ou tinham vermelho numa estrelinha ou num adereço qualquer. O verde e o 

amarelo ficaram meio esquecidos. Quase não havia bandeiras do Brasil. Ao menos a da Praça dos Três Poderes, mais alta do que todas, estava presente para que não restassem dúvidas sobre o real significado de tudo aquilo.

Guardo com boas lembranças aquele dia. Festa cívica e oportunidade de lhe fazer 

juntar o agradável. A alegria do povo e a atmosfera de otimismo me fizeram 

esquecer a chuva, o peso do equipamento, o medo de cair no lago junto com os que eu fotografava e todas as demais dificuldades.

No fim, gostei muito dos resultados, que foram acima das minhas expectativas e me animaram a preparar este ensaio. Espero que gostem também.

 

Carlos Aversa 

 

Créditos

Fotografias - Azul - Carlos Aversa