– Coronel, não encontramos as armas de destruição em massa.

– O que você quer dizer com isso?

– Quero dizer isso mesmo, senhor. Não encontramos armas de bactérias ou químicas.

– Mas isso não significa que elas não existem. Procuraram no palácio do ditador?

– Sim, senhor. Invadimos o prédio e nada foi encontrado.

– Procuraram debaixo das camas, dentro dos guarda-roupas?

– Quem, o ditador ou as armas?

– As armas, claro.

– Sim senhor. De químico só água sanitária.

– Revistaram os prisioneiros?

– Ficaram todos sem roupas, e nada.

– Cacete. E o homem?

– Sumiu.

– Como sumiu? Ninguém foge de nós, dos nossos satélites e de nossa visão noturna. Falou com o Tony?

– Ele nós vimos pelo satélite, senhor. Tava comendo um membro do parlamento. Não registramos para não parecer indiscrição.

– Mas deviam ter gravado. Esses ingleses são todos viados. Falou com o presidente?

– Não pôde atender. Ele está furioso pois soube que nós vamos ser acusados da morte do Mar Morto e fará um pronunciamento provando que isso é coisa do Sadam.

– É bom mesmo botar a culpa nesse filho-da-mãe, mas verifique se não foi fogo amigo. Quantos mísseis caíram nesse lugar?

– Não sei, mas parece que foram bombas de sal.

– Bom, deixa isso para o presidente resolver. Temos que achar o homem. Matem todos os iraquianos de bigode com mais de quarenta anos.

– Isso vai dar umas trezentas mil pessoas só aqui em Bagdá.

– É, pode dar na vista. Então fechem todas as saídas da cidade e não deixem passar ninguém de bigode.

– Mas e se ele raspou o bigode?

– Olhe aqui, seu majorzinho de merda, crioulinho inútil. Você é pago para fazer o serviço e não para inventar desculpas. Trate de achar o homem.

– Sim senhor!

– E tem mais.

– Senhor!

– Destaque uma patrulha para descobrir esses troços químicos e bactérias.

– Senhor, posso perguntar como são essas bactérias?

– Ora, seu cretino. Essas bactérias são... são, bem, vá para o diabo! Leve um capitão médico junto com vocês e bombas de antibióticos. Agora saia!

II


– Major, chamada de Washington. É do Hexágono.

– Pentágono, idiota. Pode passar a ligação.

– Major Headwind, senhor.

– Alô Wind, é o general Smartpack.

– Sim, general, em que posso servi-lo?

– Quero o homem, cadê o homem?

– A coisa está difícil, general. Estamos procurando em cada centímetro da cidade e prendendo todos os suspeitos. Até agora matamos vinte e duas pessoas suspeitas de serem o bandido, mas ele tem muitos sósias que parecem gêmeos. Pode ser que o verdadeiro esteja no meio deles. Vamos mandar todos os cadáveres para Washington para o corpo de delito.

– Meus Deus. Queridinho, quem deu essa idéia genial para você?

– O coronel, senhor.
– Eu não sei como é que conseguimos ganhar guerras. Não fosse o presidente o enviado da justiça divina, o representante do bem no universo e o iluminado, a gente não ganhava essa merdinha de guerra. Onde mais vocês procuraram?

– Até nas igrejas, senhor.

– Mesquita, imbecil. Não vai me dizer que bombardearam as mesquitas.

– Não foi preciso, senhor. Pegamos apenas um suspeito, que estava no alto da torre, berrando num alto falante, provavelmente enviando mensagens ao Sadam e convocando o povo para resistência.

– E o que vocês fizeram com o infeliz no minarete?

– Nossos atiradores derrubaram ele. Um tiro só.


III


– General, é da presidência, senhor.

– Senhor presidente, Smartkpack falando, senhor.

– Smart, acho que você está querendo perder suas três estrelas, não é mesmo?

– Desculpe lembrá-lo senhor, mas tenho cinco estrelas, mas para o bem de nossa causa não me importo em perder as três, senhor. Posso ao menos saber a razão, senhor?

– O que é que vocês estão fazendo com o dinheiro do contribuinte que até agora não encontraram aquele babuíno safado?

– Beduíno, senhor?

– Você sabe de quem estou falando. Quero esse homem morto ou esquartejado. O que foi feito até agora?

– Senhor, acabei de falar com o major Windhead. Vasculhamos os escombros onde o bandido deveria estar, o serviço secreto prendeu e acariciou mais de cem pessoas, e nada. Parece que o homem sumiu como por encanto.

– Não me venha que essa história de duas mil e uma noites no espaço, que não vou aceitar.

– Desculpe senhor, mas a lenda é das mil e uma noites.

– Duas mil.

– Talvez o senhor se refira a dois mil e um uma odisséia no espaço.

– É tudo história de quem não tem o que fazer. Procure esse bigodudo até no inferno, caso contrário vamos invadir a Síria e sua capital, o Líbano, terá o mesmo destino de Bagdá. Por que você está tossindo?

– Areia, senhor. Mas, se me permite, senhor, só para lembrar, o Líbano não é mais a capital da Síria.

– Quem falou?

– O secretário da defesa.

– Ah, bom. Esse povo não se fixa em lugar nenhum.

– Senhor presidente, acho que temos outro problema sério pela frente.

– Vocês só me trazem problemas. Qual é a droga agora?
– Estamos sendo acusados pela imprensa estrangeira de não proteger o patrimônio cultural do país e dar atenção somente ao petróleo.

– Explica melhor.

– É que o Museu de Bagdá foi destruído, saqueado e todas as suas peças sumiram.

– Aí é que você se engana. Está tudo muito bem guardado e cuidado. Dessa vez o Tony foi legal. Me pediu para levar as peças para o Museu Britânico, para protegê-las do saque e da destruição. Eu até perguntei se o povo não iria se bronquear, mas ele me assegurou que eram todas peças velhas, muitas de barro e livros que ninguém usa. Coisas de inglês.

– Posso então contar para a imprensa? O presidente Chirac também está cobrando.

– Não diga nada, pois o Tony me pediu segredo para evitar ação de terroristas. Quanto ao Chirac é um filho da puta que não quis entrar na briga e agora quer um pedaço do bolo. Manda os tanques iraquianos para ele colocar no Museu dos Aleijados.

– Inválidos, senhor.

– Qual a diferença? Vou dar um prazo de seis dias para seus homens me darem a cabeça desse mafioso espetada no poste, caso contrário você perderá toda essa constelação, ouviu bem?

– Sim, senhor.

– Mais alguma coisa?

– Ele não é mafioso, senhor.
 

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Dos perigos de um parto normal


– Queremos parto normal

– Quem queremos? São duas gestantes?

– Queremos, eu e meu marido.

– Ah. Depende. Nunca vi marido parir, portanto não tem que dar palpite. Quem escolhe por onde parir é a mulher ou o médico. Quem vai parir é a senhora?

– Claro que sou eu. Olha a minha barriga.

– Claro coisa nenhuma. Olha o tamanho da minha e eu não estou grávida, além do mais, toda hora chega uma mãe pra me dizer de como quer que a filha tenha filho. O que a senhora chama de normal?

– Normal de normal, como eu nasci.

– Eu não sei como a senhora nasceu, mas se foi pela via tradicional não é normal, foi uma aberração. Normal é a cesariana. Normal e civilizada.
– Mas eu e meus seis irmãos nascemos de parto normal, pela vagina, sim senhora.

– Vocês apenas escaparam. Além do mais quem decide por onde vai sair esse pobre infeliz, sou eu, a obstetra.

– Mas eu não quero ser operada.

– Mas para fazer cesariana tem de operar

– Eu exijo parto normal!

– Escuta aqui minha filha. Pobre não exige nada. Mas como estou com paciência vou explicar. Você está desnutrida, desempregada, marido ganhando um quinto do salário... É ou não é?

– Mais ou menos.

– Claro que é. Se você for operada, vai tomar banho, ganhar cama e comida de graça durante três ou quatro dias.

– Mas também posso ter hemorragia, tomar sangue contaminado, ter uma infecção hospitalar...

– Qual foi o palhaço que pôs essas bobagens na sua cabeça?

– O médico de minha avó.

– Deve ser um velho gagá, ultrapassado e que não atende convênio nem dá plantão.

– Mas eu quero sentir o meu parto.

– Além de pobre é masoquista. Quer sofrer pra depois contar a todo mundo como é a dor do parto. Olha aqui, minha filha, você pode querer esse parto anormal, tudo bem, mas eu não vou ficar de plantão na véspera do Natal esperando a senhora resolver parir. Além disso eu tenho que entrar em férias...

– E seu eu pagar?

– Como é? Você quer pagar o quê?

– O parto normal.

– Eu não acredito. Você tem um parto por cesariana de graça e quer pagar um anormal.

– Normal, eu acho.

– Eu devia ter feito dermatologia, tratar rugas de madame e sardas de adolescente. Não tem plantão, não tem urgência e ninguém discute. Mas essa burra aqui foi fazer obstetrícia. Abre as pernas, faz força pra baixo, não grita, faz força... Eu me odeio.

– Mas se fizer meu parto normal eu vou te amar.

– Duvido. Médico de serviço público não recebe agradecimento, só denúncia em jornal.

– Juro que vou te amar. Quer ser madrinha de meu bebê?

– Qual vai ser o nome dele?

– Jorge Buchi.

– Só se for para o Bin Laden batizar. Isso é nome de viado. Põe nome de gente brasileira que eu batizo.

– Como é que a senhora chama?

– Sandra.

– Então ele vai se chamar Sandro.

– Lindo, comadre. Entra aqui para eu examinar.


(Extraído do volume de Novas Crônicas, em preparação.)

 

   

Heitor Rosa
Nasceu em Urutai (GO) e reside em Goiânia. Médico, professor titular de Gastroenterologia na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás. Residiu alguns anos na Europa (Londres e Paris), onde fez pós-graduação. Foi colunista do Jornal da Associação Médica Brasileira (SP), para o qual escrevia crônicas sobre a vida universitária. Seu primeiro livro foi “Histórias agudas e crônicas: do apêndice ao avião” (1996). A seguir publicou “Os ossos do coronel Azambuja e outras mentiras” (1997), pela editora Fábrica do Livro, com prefácio de Moacyr Scliar. Em 2000 publicou “O enigma da Quinta Sinfonia”, pela editora Escrituras. No prelo, pela Prêmio Editorial, encontra-se o último livro “Memórias de um cirurgião-barbeiro”.

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