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Líquidas luas, que magicamente surgiam desenhadas nos copos com vinho tinto, embalavam nossos desejos, tornando-nos quase que retirantes do mundo. De fato, depois de ardilosos lances de sedução (com avanços teimosos, com recuos que não deixavam de possuir certa inquietação de derrota, seguidos de novos fascinantes avanços), eu e Luiz nos abrigamos no ambiente penumbroso do restaurante, com uma pequena mesa entre nós dois. Envoltos nos feixes da luz de velas habilmente colocadas em cantos certeiros, me permitia chegar meus dedos naquela boca, cobiçada desde há muito, no que era retribuída com um amoroso beijo. Os delicados camafeus de alcachofra e tiras de salmão, o risoto de pequi que acompanhava as costelinhas de cordeiro que, além da carne, exalavam o perfume da sálvia, o zabaione que cobria os figos frescos abertos em quatro, tudo em desfile ordenado à nossa frente, entrelaçavam nossos sabores e desejos. O sorver do vinho, o dirigir o garfo à boca, eram, quase que simultaneamente, feitos com exclamações incontidas de prazer que eu emitia. Não disfarcei um proposital dedo passado de leve no creme e levado aos meus lábios, como que apreciando sobremaneira o sabor do doce. Ah... a minha matreirice ia sendo retribuída. Uma perna entre minhas pernas, a mão deslizando boba pelo lóbulo de minha orelha, pelo pescoço, pelo braço, num jogo de sem querer. Evidente, a proximidade reinante não foi alcançada fortuitamente. Nas horas que precederam ao jantar, tudo foi medido e calculado. O banho demorado me ajudou a dar ritmo à respiração, o óleo passado no corpo me deu o sentido das formas para as quais foram escolhidas peças de roupas, ajustes de realce. Na bolsa Channel, coloquei o indispensável para os retoques de manutenção: um batom, um pequeno vidro de perfume, um lenço de linho, dois preservativos (feminino e masculino), a chave de casa, minha cédula de identidade. Como o gole de vinho que caminha rápido pela língua, desaparecendo em instantes, o tempo escoou! – Encerro a conta? – perguntou-me Luiz, sussurrante.
– Sim, enquanto isso, vou até o toalete – respondi-lhe, encostando
minha mão marota em seus lábios. Entrei, respirei fundo. Não poderia jamais fazer Luiz esperar. Passei rapidamente pelas pias à direita, me percebendo, de soslaio, na figura refletida no espelho que arrematava a fileira da louça branca, avançando até alcançar o pequeno sanitário, fechando a porta, sem que lhe passar a chave. – Droga! – exclamei. – Como esses banheiros são pequenos! Nenhum gancho, nenhuma prateleira! Com destreza, pendurei a alça da bolsa no pescoço, cobrindo a tábua sanitária com a forração de plástico descartável. Ágil, joguei, no fundo do vaso, papel higiênico para que meu urinar não ecoasse traiçoeiro. Virei-me, levantei a saia, desci a calcinha de renda, me abaixei, ficando como que suspensa no ar – com os joelhos flexionados – em razão da necessária precaução feminina em banheiros públicos. Posição desconfortável, pois meus olhos bateram na bolsa – que parecia um pêndulo – antes de mirarem o exato lugar onde deveria desaguar. Ao primeiro jato... Ai! a porta se abriu, descortinando Luiz à minha frente, com olhos de espanto, uma mão na maçaneta, outra na braguilha. Como que saindo de um redemoinho me dei conta de que as pias não eram pias! Eram cubas, os reles mictórios, os urinóis brancos encaixados na parede como pequenas biquinhas d'água! O "M" da porta que me guiara para o banheiro não era um "m" de mulher, era um "m" de masculino! Na busca da perfeição, entrara em banheiro errado! Meu esforço, contudo, não iria para o ralo. Isso não! Pus-me ereta, joguei a bolsa de lado, abaixei o tampo da tábua da privada. – Luiz, entre. O vaso é seu por tradição. Recordo-me de um som de porta batendo com força por um chute bem dado. Que bom...o banheiro era pequeno, perfeitamente planejado, onde tudo se encaixava muito bem! Novembro/2002 |
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Adriana
Gragnani |