Essa é a história de Cacau, um cara de 40 e poucos anos, que num só instante saberá que é pai e quase avô.

Uma situação esdrúxula que nunca vi acontecer a ninguém e que só vejo como explicar pelo mapeamento biográfico dos envolvidos.

A começar...

Pelo fato do senhor com aparência de ex-surfista estar pasmo na porta de sua casa, vendo desmoronar num só instante a certeza de não ter filhos no mundo.

Quando a campainha tocou, ele apenas esperava a entrega do supermercado e nunca a presença daquela garota pegando suas mãos para colocá-las sobre a barriga de sete meses...

– Parabéns papai, você vai ser avô de uma linda menina.
Papai? Avô?!!

Isso só poderia ser coisa do passado hetero do vizinho gay, batendo em porta errada; só podia ser, pois, ele, Cacau, era o rei da camisinha, doutor na contagem do dia fértil das companheiras que teve. Nestes dias nada de sexo, nem com preservativo.

Mas onde será mesmo que o perplexo homem de bermuda sundek vira covinhas iguais às daquela moça?

Na dúvida de estar tomado da alucinação de ter em sua frente a própria namorada dos 18 anos, esfregou os olhos e voltou a olhá-la...

Sim, estava ali na sua frente a própria Maria Alice aos 18 anos – as mesmas covinhas, os cabelo, formato de rosto... Tudo igual menos os olhos – azuis como os de Cacau.

É, leitores...

Poucas e boas esperam por Cacau, já que ali está a Paty, que até o exato momento de tocar a campainha jamais tinha visto o pai.

Ou melhor... o conhecia de foto – a da carteira, aquela única foto que sua mãe havia lhe dado, para mostrar como era o pai ainda garotão, na época em que morreu em Waimea, trucidado por uma onda de mais de 10 metros.

Nem o corpo dele fora achado, contou a mãe com ar contrito, explicando que o pai ficara preso nos corais, ou havia sido arrastado para alto mar, pela correnteza.

Detalhe que nunca se pôde esclarecer.

Esta é Maria Alice, mãe de Paty, a sinistra, maquiavélica e fria M. A. – a vingativa ex-namorada de Cacau e inimiga figadal do mundo do surfe; mãe amorosa, no entanto, a ponto de concordar em oferecer uma viagem a Bali para a filha, para esta poder comemorar os 18 anos em grande estilo. Pobre garota, a nossa Paty... a memória do pai herói morto lhe despertando o mesmo amor pelo esporte da prancha.

Paris, Londres, Barcelona, Milão... tanto lugar mais interessante para se conhecer, mas Paty queria ir para Bali – o paraíso do surfe.

Paraíso com direito a Adão e um sucedâneo da serpente – o sapo de mais de um metro de altura que por muito pouco não passou na alfândega. Os dois aliás quase não conseguiriam entrar: o batráquio e Steve – o surfista texano que Paty conheceu na viagem; o pai da menina que está por vir. O texano sósia de seu pai, segundo a foto.

– Tesão, minha filha, tesão?!! Mas põe mais que tesão nisso, menina... Põe burrice, em dose cavalar, ou como aceitar que no dia mais fértil do mês você resolve transar (e sem camisinha), me diz...

– Mas mãe era uma lua linda demais, você precisava ver...

– A lua estava linda?!! Dane-se a lua, viu Paty... dane-se a lua... e não nós duas, agora enlouquecidas. Se você viesse me contar que ficou grávida de uma trepada com o chefe, em cima da mesa do escritório, eu até poderia me conformar, mas engravidar de um surfista numa rave?

E pensar que M. A. tinha enterrado o dinheiro de uma plástica completa nesta viagem para uma mata cheia de mosquitos no outro lado do mundo. Com a notícia da gravidez, ficaria adiado por tempo indeterminado o projeto de abrir outra loja de paisagismo e aumentar os viveiros de plantas. Maria Alice era paisagista de sucesso.

Com os móveis da nova loja, já desenhados, dinheiro investido na participação da Casa Cor (para marcar bem o seu nome no mercado), ainda ia custar um caminhão de dinheiro aquela aventura...

Enxoval da Gap Baby; toneladas de fraldas descartáveis; móveis de Carlinhos Mota, feitos sob encomenda para o quarto do bebê, mais salários de enfermeira e babá (com cursos feitos no Albert Einstein), honorários de consultas com pediatra medalhão, isso sem falar em mais uma sessão de análise por semana (além das outras três) para que a mãe em conflito pudesse agüentar tanto estresse.

 

Ora!!

Ora se tudo isso não era culpa desta cultura QI de ostra, a do surfe. Por isso, melhor mesmo fora ter criado a filha longe deles, poupando-a dos infames espaguetes ao molho de atum em lata, potes de granolas, festas ao som de Pink Floyd e Jethro Tull, e luaus em volta da fogueira (pretexto pra fazer rolar um sexo no motel das estrelas).

Isso quando não se tratava das infindáveis sessões de filme de surfe, a galera dando gritinhos de hu-huuuua a cada entubada e batida irada. Alienação – alienação demais para quem tinha planos de estudar fora, viajar paras grandes capitais, adquirir cultura sólida.

Tudo besteira para Cacau e sua turma, mas não para Maria Alice – a mais aplicada aluna da sua turma; a mais talentosa das cinco irmãs – que não tinha como praticar as quatro línguas estrangeiras que já falava.

Mas era questão de pouco tempo para dar um tchau a tudo isso. Tempo que chegou numa manhã de junho, só ela sabendo-se grávida de Cacau, esperando que ele saísse do mar para poder sondá-lo sobre a idéia de ser pai. Queria ver como reagiria à idéia...

 

– Olha, gata... legal legal, não seria... porque a grana de que disponho está reservada para participar do circuito de surfe – disse desconversando, enquanto passava mais parafina na prancha, para voltar rápido para a água – o mar melhorando.

– Mas Cacau, e se de repente... se de repente sem programar viesse?

– Ô gata, vira essa boca pra lá, porque se isso acontecer eu embarco pro México no dia seguinte, vou pra Puerto Escondido pegar umas morras por lá... Pai não serve para nada, no primeiro mês o bebê só quer a mãe, todo mundo sabe disso.

(Um tipo desses só afogando, certo?)

 

De uísque na mão, M. A. se dava conta das razões que tivera para afogar Cacau com requintes. Havia afogado o ex e agora teria que lhe ressuscitar o cadáver, contando para a filha a verdade – o pai estava vivinho da silva.

Contar para a filha e pior... procurar o Cacau para avisá-lo.

Pensando em contar a ele tudo por carta, tomou da caneta:

"Cacau! Se lembra de mim? O meu corpo já não tem as curvas por onde tuas mãos derraparam..."

Ai – que bandeira! Rapidamente amassou o papel para tentar de novo:

"Cacau... tem um ponto na minha vida que cruza com a sua – uma intersecção – algo que só consigo explicar pelas curvas que suas mãos fizeram no meu corpo, até que o coração batesse tão forte para dizer que já éramos três..."

Com ódio de ver que não esquecera Cacau, Maria Alice amassou a carta e jogou-a pra cima da escultura de Bali:

– Tá rindo do quê, ô sapo pirado? Sai já de cima do meu tapete persa.

Na verdade Maria Alice era feliz e não sabia, já que dos seus tempos de cocota (ela tem ojeriza dessa palavra) vinha a vocação para a sua atual profissão, paisagista.

Namorada de surfista fica plantada na areia vendo a paisagem – de sol a sol, ano a ano, década após década; Endles Summer, como ensina o filme que qualquer surfista que se preze já viu vinte vezes no mínimo – e com M. A. não fora diferente.

Uma condição digna de ser apagada do currículo de qualquer mulher cheia de iniciativa, mas verdadeira no caso dela, que esperando o namorado sair d'água, feito uma mulher buda de tanga, fez da espera precioso aprendizado, ensinando-lhe a natureza os segredo das cores e das formas, e a maneira de relacioná-las.

Nem sob tortura a mãe de Paty admitiria uma coisa dessas hoje em dia, tendo estudado artes em Milão, mas era essa uma grande verdade. Era preciso também dar crédito ao fato de que o antigo namorado não era de ficar "filmando" tanguinhas na praia, sempre dentro do mar que estava. A galinhagem um esporte de muitos homens ditos "sérios", iguais a seu ex-marido – o intelectual/pavão que tinha melhor capacidade para avaliar pernas das alunas do que as notas que mereciam tirar. Isso muito embora o professor tivesse em casa aquelas que ainda hoje eram imbatíveis – as de M. A., torneadas nas antigas caminhadas pela areia fofa. Firmes pelo frescobol bem batido.

(Hoje M. A. não tinha nem com quem jogar uma biriba; e sabia como era chato andar feito uma idiota naquela esteira do quarto.)

 

(Cacau vai pra boca do sapo de Bali, pra alegria do tapete persa e para que cesse a "Maldição do Waimea")

 

Esclarecido o fato de como M. A. decidiu-se pelo paisagismo, seria o caso de perguntarmos se hoje em dia seria possível reconciliá-la com o mundo do surfe. Algo que parece ainda quase impossível ainda mais depois que a "Maldição de Waimea" parecia ter desabado sobre sua cabeça, com filha e genro surfistas dentro de casa e um vovô do surfe a ressuscitar...

Pressão demais para a cabeça feita da paisagista, que muito embora tivesse doze anos de análise ("Maria Alice Doze anos", gostava de pensar a respeito da categoria de seu pedigree psicológico), não vacilava caso necessitasse mandar tocar um tambor, para de qualquer jeito alcançar suas metas. Providência que o momento pedia para que sua luta contra o mundo do surfe não terminasse vã, muito menos estourasse eternamente seu orçamento doméstico.

Era chegada a hora e por isso M. A. foi correndo até a bolsa da filha e tirou de lá a fotinho de Cacau garotão, para colá-la com durex na boca do sapo. "Quero vingança de toda essa cultura 'viajadão', ó Grande Batráquio".

Com luzes acendendo e apagando, cortinas esvoaçando nervosamente, num apagar destes Mara Alice notou que o desgraçado do sapo estava fosforescente e de sua boca vinha um coaxar de sapo caboclo:

– Despacha... despacha o gringo, mizifia... o gringo e a tua menininha, que tá de bobó de sete meses... Despacha sem anestesia, zifia, lá pra casa do careca... Não avisa nada... ri ri ri.
Em seguida as luzes voltaram, e no semblante mediunizado de M. A. estava estampada uma expressão maquiavélica. Recostada na longue beije, fazia gestos de gata brava com a ponta das unhas vermelhas, em direção a foto de Cacau...

– Fisssst fisssst.

(Cruzes!!)

 

Como então pudemos saber, a jovem que desce do Suzuqui da mãe – de barrigão, túnica indiana e morey boogy embaixo do braço – ι Paty.

Olhando pelo retrovisor, dez metros à frente, está M. A., esperando que a porta da casa se abra, e quem sabe Cacau tenha um treco, sabedor de que vai ser pai, avô e sogro; de uma só vez.

Com a ziguizira posta... era hora de Maria Alice sair de fininho e acelerar.

Num elegante SPA alternativo ali perto, relaxando num ofurô de rosas, M. A. faria planos para o futuro – novo guarda-roupa, jantarzinhos transados à luz de velas com o namorado... o quarto pegando "clima" com velas perfumadas – isso enquanto na cozinha do spa se prepara uma salada com artísticas 50 calorias, providência light para contra-atacar o foundee de 2.002 calorias lá no meio da semana.

 

Postos assim todos os conflitos resta ainda conferir as soluções que naturalmente a vinda de Elisa providenciaria...

Azar de uns sorte de outros, para Leleca – a psicodramatista companheira de Cacau – dali mesmo da porta viria a intuição de que dali sairia sua tese de doutorado, quiçá um livro.

Sábia e gentil, já trata de convidar todos a entrar. Neste final de semana seus dons de psicodramatista serão colocados a serviço da família, um animado workshop avançara por todo final de semana, Leleca chamando suas monitoras para ajudar, afinal não faltariam bons papéis e um cardápio bem variado de jogadas lúdicas para ajudar a compreender estas famílias.

Um trabalho que renderia muitos frutos a curto, médio e longo prazos, todos morando juntos – Cacau, Leleca, os filhos dela do primeiro (e segundo) casamentos, mais Steve, Paty...

Antes que chegasse a próxima Copa do Mundo, veríamos muitas coisas boas na República do Açaí... de Cacau contado a Steve os bons tempos dos surfaris a dupla sogro/genro preparando litros de vitamina de frutas, traçando fôrmas inteiras de bolo, vendo muito filme de surfe -isso depois de Cacau ter encaixado em Steve um mata leão justo, para que o gringo de uma vez parasse de olhar as pernas de sua mulher, Leleca.

Isso, segundo aquilo que pude apurar nesta história de amores quase impossíveis e soluções imprevisíveis.

 

Nesta primeira noite no Embu, quando Paty fosse dormir, sonharia com o dia em que pela primeira vez pegaria onda com o pai.

Um sonho profético de um dia feliz, que contará com a volta de Maria Alice às praias (já batendo um frescobol esperto com Leleca), enquanto mais atrás, nos guarda-sóis, Steve e Otavinho (o namorado da mãe de Paty) fingirão estar muito conscientes dos deveres de pajem que espontaneamente se comprometeram assumir (na verdade de canto de olho estão a dar notas ao vaivém das melhores pernas).

Quanto a Cacau – como ele se sentiu sendo quase avô, pai e sogro – isso é coisa que não me atrevo a saber... pai e avô que nunca fui.

Já a pequena Elisa – a pivô e a razão de toda essa história...

– Santo Deus!! Olha o alto-falante do posto de salva-vidas anunciando a menina loirinha de 4 anos que saiu sozinha para catar conchinhas!

 
   
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Valeu galera? Se valeu, entγo – Hu-Huuuuuu!! Aloha!

Roberto Santos de Carvalho – São Paulo – SP

 

 

 

 

 

 

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