..."amor não é literatura, se não se escreve na pele"...
Juan Manuel Serrat

 

Conheci Juliana no centro cultural. Uma cultura bem diferente da minha. Tão diferente que no momento de me apresentar me chamou de "argentino". Sou argentino?, me perguntei depois.

Não será como falou Jorge Luis Borges, "somos um pouco judeus, pretos, chineses, brancos"?. Depois de vários minutos de olhar quadros, e mais quadros, segui com a vista a figura dela. Uma figura desentendida, engraçada.

Bonita!, falei para ela.

São teus olhos que me vêem bonita!, respondeu para mim.
Foi nesse momento que voltei a me perguntar, seriam meus olhos, ou aqueles olhos do judeu, do preto, do chinês, do branco, que Borges fala? Não achei resposta ainda. Segundos seguidos a acompanhei andar pela rua. Uma rua com muitos cartazes, papéis jogados na calçada, e propaganda de qualquer produto nas vitrinas. Chovia; sim, chovia esse dia que conheci Juliana no centro cultural. Que cultura será essa? Juliana falou várias vezes que estava com frio, é provável que a minha timidez do momento não me permitiu abraçar seu corpo, e protegê-la do frio, da chuva, essas ruas que andamos. Falou que ia viajar a Córdoba, Argentina, visitar uns amigos; que fazia dança; que no próximo 24 de agosto, faria dezenove anos de idade. Foram duas ou três ruas, muito longas por certo. O certo que a felicidade de andar com ela foi o mais longo. Eu teria falado muitas coisas para ela, mais estava com pressa para se encontrar com amigos, estava com frio, sem eu abraçar seu corpo, e olhando seus olhos novamente falei: Quanto bonita você é!

São teus olhos que me vêem bonita!, respondeu. Tomou meu pescoço, colocou sua bochecha perto de mim, e a beijei. Segundos depois a vi correr atravessando a rua, entrando num prédio cor branco, muito iluminado por certo. Eu teria beijado seus lábios, se ela aceitasse. Fiquei na esquina uns segundos. O suficiente para sentir aquele mágico momento que teve começo no centro cultural. Esqueci os quadros, os amigos que tinham chegado junto, e ao lembrar de tudo isso voltei, debaixo da chuva, olhando o chão, minhas andadas, com o sabor de sua pele nos meus lábios. Hoje amanheci com a sua figura, aquela figura engraçada que descobri na noite anterior. Agora eu sei. Ela dança. Dança a diversidade cultural.

Nem tudo é amor quando se beija.
Nem tudo é cultura quando se abraça outro ser humano.

9 de junho de 1999. 14:17


Para Juliana, a dançarina do centro cultural de Itajaí, SC.

 

Marcelo Urizar
Nasceu em Parana, Entre Rios, Argentina, em 19 de outubro de 1963. Cursou Arquitetura e Urbanismo em Buenos Aires, de 1983 a 1989. Estudou desenho e plástica em oficina do artista plástico Hemenegildo Sabat, e desde 1997 está radicado em Camboriu, SC.
Sites:
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