Desde que nasceu, em primeiro de abril de 1964, que Nicolau das Neves, precocemente até, revelou uma notória vocação para imitar, principalmente bichos. Dos mais comuns aos animais estranhos, exóticos, quando não até espécies inexistentes, ou que ele, só ele, via ou inventava de ver. Bebê, de colo, parecia até que temporão, e já imitava o beiço mole da dengosa mãe quando lhe dava o bico gordo e marrom do seio enorme, feito um bicho-mulher mimando a cria gulosa. Muito criança ainda, caprichosamente imitava com tamanha perfeição um tal embonitado pássaro-flor, que chamava a atenção e era muito admirado por isso. Era mesmo espetacular, quase um show pueril, de criança especial, ainda na muda. De começo, muito novinho, imitava o andar das formigas vermelhas como fogo, o zumbido mirabolante das abelhas-tiês, os pios maviosos de pássaros silvestres, a corrida parede acima da lagartixa verde no mal caiado de seu quarto com janelas pro quintal com bosque e canteiros, a desesperada barata marrom correndo da vassoura de Dona Isaura das Neves, sua mãe, uma confeiteira quarentona de mão cheia.

Só começou a ficar chato e inconveniente quando deu de imitar os próprios familiares, principalmente seu pai, o sexagenário carroceiro e entregador de lenhas, Otávio das Neves, que tinha asma crônica e uma ocasional tosse de cachorro, e que ficava muito magoado e constrangido, quando o único filho o imitava com odiosa perfeição nesse problema de saúde. Depois Nicolau deu de imitar outros bichos-seres, parentes, amigos da família que era crente, passou – ainda na tenra idade – a imitar vizinhos fofoqueiros, conhecidos curiosos, figuras públicas do notório folclore popularesco de Itararé, e ainda incorporou um repertório ruim de imitações discriminatórias, de pobres coitados como aleijados de paralisia infantil (ou de revoluções e guerras), gagos nervosos, pedintes berebentos, problemáticos com tiques nervosos, crentes nostálgicos, magricelas como varaus, negros humildes, nanicos como anões de jardim, manquitolas por acidentes, picegos gabirus por carências de típicos excluídos sociais.

Fazia sua graça costumeira e a algazarra dos amiguinhos da rua descalça de terra cor-de-rosa era um vareio de forró, pois os piás broncos saltitavam de contentes com aquele circo em pessoa, enquanto alguns já lhe depositavam olhares secos como gravetos, ou sondavam, odiosos, imaginando ocasionais surras com varas de marmelo, e outros, mais refinados ou sensíveis, sentiam que Nicolau não ia longe, que os pais não lhe davam necessárias descomposturas, sermões ou sanções, e que o disgramado ainda iria dar com os burros n'água, "montar num porco", como diziam em Itararé, ou entrar numa fria, apanhar muito na rua, na vida, pois que era espeloteado, traquinas, sem seca, casca grossa, chato.

Quando começou a freqüentar a Escolinha Arco-íris de Itararé, em pouco tempo tornou-se insuportável. Foi um pandareco.
De primeiro, querendo mostrar serventia ao viçado meio, e aparecer mais do que filhote de cruz-credo em lua cheia à beira do rio Itararé, começou a imitar plangentes pios de noturnas corujas cegas, chiados de lontras resfriadas (aprendera na TV Cultura), miados de caibros de cedro verde em fogueiras de São João ou São Pedro, faniquitos de amores disfarçados (captara em novelas), topetes de antas, línguas de víboras faraônicas (vira num livro velho), vôos de patativas outonais, figos maduros soltando néctar, atropelos de micos canibais, corridas de preás ou patos selvagens em fuga, sinal de troca de aula, apitos de chaleiras, e até mesmo, inconveniente, a voz fanhosa do Seu Antoninho vendedor de pirulitos premiados em frente à escola

Era difícil lidar com ele. Bater de frente, era ser alvo de imitação rústica, grosseira. Sabia, o atrevido, tirar o defeito tácito de cada um, como se arrancasse uma minúscula contenção de desfaçatez, e punha no andaime do real, com polvorosa, e todos então, inseguros, se sentiam como se revelados num filme crucial, doloroso, inimaginável, por aquele maldito guri de calças curtas com cerzidos suspensórios verdes. Pois passaram a ter um certo medo-coisa dele, como de um cussaruim, enquanto ele crescia e, sabido das matérias e muito inteligente, acabou no Grupo Escolar Tomé Teixeira, de Itararé, ali, no sudoeste do estado de São Paulo, município adjunto ao rio que dividia o município com o estado do Paraná

No grupo escolar não mudou muito, o traste de gente. Crescendo, ficando avantajado como o pai lenhador descendente de bugres, ficou mais forte, algo culto e muito mais curioso, sempre entrão e diuturnamente fazendo das suas, aprontando. Advertências, suspensões, nada disso mudava muito. O pai, jurado de tristeza e já algo senil, desgostoso por demais, entregara pra Deus o menino-problema. Jamais levantara a mão ou a voz para o filho. A mãe, mais turrona, apesar do amor pelo ente único que conseguira gerar já meio entrada em idade, dava pitos, beliscões, puxões de orelha, pés-douvidos, surras de relho, punha de castigo atrás do fogão de lenha, cortava as deliciosas sobremesas e quitutes de festins, mas o estrupício do coió era muito mais sabido, e imitava a mãe curtindo doce de cidra, o pai arfando no carregar os montes de lenhas em cangas, os clientes que chegavam aloprados pedindo entregas, os vendedores de leite, pão, ou trazedores de compras. Do Armazém do Seu Antonio Pelissari. Ele era mesmo um peste. Até amigos ocasionais vinha perdendo com isso. Tinha gente de olho nele. Que esperasse pra ver.

Tornou-se jovem e de presto foi recusado pelo Tiro de Guerra – sabiam a fama de entojado (e molenga) dele – tentou se aprumar com algum serviço ocasional, vender sorvete de groselha preta, ser bóia-fria na colheita de feijão-jalo, mas nada. Era demais o seu ser de si, muito menos sendo espelho quebrado de defeito alheio. Crendêospadre.

***

Para falar a verdade, contando direitinho, nunca foi nada na vida. Crescendo, barba rala surgindo na face parda de rosto quadrado, testerona tornando-o ainda mais impoluto de voz, viril, e corpo avantajado, continuava um inconveniente Nicolau que só prestava mesmo para o seu talento-defeito, ser um imitador de deploráveis defeitos alheios, mesmo que, às vezes, caísse no cadinho de sua mais íntima sensibilidade temporã e, com maestria quase poética, encantado imitava o vento-coisa dando de relho rítmico nos calipiás, o solo de clarineta em mi menor do corguinho do rio da prata correndo rente, os flashs dos fuzilos rápidos anunciando chuva de granizo, os pés lépidos (e em gestos faciais) imitando tardes alaranjadas em seu bairro, movimentos lânguidos de asas de anjos enormes que só ele via – ou inventava – ou mesmo quando imitava tons e timbres de chuvinhas madrigais, plangentes banzos em violões fantasmas, ou coisas de assim, como se nos encantários de um devir – ou costurados entre as amarguras de seu interior cheio de baladas de incêndios, pertencimentos, questionários, enluos ou renúncias – pudesse ser ainda puro, meigo, saradinho. Mas isso não dava show e nem chamava a atenção para o mágico de suas travessuras de moleque insabido. Ser ruim dava esteio, respeito, admiração com lastro e lavra. Batia com sua índole.

Não parava nos empregos vários, que ainda tentou arrumar desacorçoado, depois de terminar o colegial no Colégio Comercial, e a escola feliz de se ver livre daquele peste que apesar de tudo era bom de nota. Nos serviços tentados, ora imitava o chefe da pá virada, ora o galanteio mórbido do diretor metido a galã babaquara de meia tigela, ora a faxineira paroara com pés enormes, ora o zelador de nariz de corvo. Riam dele, no começo, mas não lhe davam inteira valia ou apreço e afeiçôo. Logo punham desdita. Era um bobo da corte, sem corte. Mas ele, ainda imaturo, se achava o máximo. Era o circo do grotesco, um show-man de espetáculos daninhos à espécie humana, ao meio, ao convencional no vivenciar entre iguais, socialmente falando.

Na fila do banco, na quermesse, no forrobodó periférico, na rua de cacau quebrado de Itararé (paralelepípedos), no triste morgue úmido, no quintal de casa cheio de amoreiras com lagartas, era um imitador a toda prova, valioso, arisco, caprichoso em sua pantomina ou mímica de crucificar desvalores, desespelhos. Oxigenava seixos íntimos? Com o passar do tempo-quirera e seu capote de desventuras, começou a freqüentar lugares ruins como bordéis e bodegas da marginália – imitava chavões de pequenos infratores – deu de beber por atacado – imitava arrotos de cervejas ou flatulências sonoras de marginais imprestáveis e velhos. Sem emprego que lhe apetecesse (ou lhe suportassem com esse defeito), logo enveredou pro crime, imitando ora Al Capone (vira numa fita do Cine São José), ora o criminoso-médico dr. Hosmany Ramos (vira num jornal da Capital), ora um, ora outro personagem de gibi, de cinema, de sofrência social que fosse, mesmo que com nódoa ou o nojo pegajento de eventual graceza envernizada de burreza descomunal.

Numa altura da vida, imitava falas com gírias de membros do PCC (Partido do Comando do Crime), a voz impostada e meio fanhosa do turco que era o maior corrupto do Brasil, um político que dizia que roubava mais fazia, depois decorou trechos de falas clandestinas de chefes do PCC. Era um cafajeste perfeito. Sem tirar nem pôr. Passou a imitar traficantes, estimulou consumos de drogas com seu circo de percursos e circunstâncias. Ficou vaidoso entre uns manés. Achou seu redil. O céu por testemunha. Tinha valores diferentes em seu imaturo e irracional lado sentidor, fora de eixo.

Passou a decorar senhas de comandos, alarmes de fugas espetaculares, imitando com maestria sirenes de carros de policias e zumbidos de balas de metralhadoras. Imitando fuzis israelenses em ação, era perfeito. E imitava também reações de alérgicos, de viciados em cocaína e outros coitados mais, seus cúmplices, súditos ou clientes da rua da amargura. Imitava bichos para os drogados (jacarés, tigres, panteras) que, tolos ou loucos, perdidos ou desesperados, riam alterados quimicamente dessa sua faceta de traficante com grife própria.

***

Começou a assaltar, para ter dinheiro fácil. Compreendeu a impunidade que reinava no Brasil neoliberal também em era globalizada. Sentiu que o crime organizado era quem mandava no país com um holocausto de despossuídos. Notou que era um nefasto capitalismo financiado pela corrupção, com históricas riquezas injustas, insanos lucros imunes. Alegrou-se por fazer parte da banda dos contentes, não ser um borra-botas favelado de uma periferia sociedade anônima entregue ao deus-dará da sub-sobrevivência hedionda. Captou que o país tinha ex-presidentes corruptos e ladrões, soltos. Tinha ex-governadores corruptos e ladrões, soltos. Tinha ex-prefeitos, senadores, deputados, vereadores, ministros, quase todos corruptos e ladrões soltos, impunes, livres. Todos admirados e bem de vida.
Notou que ser corrupto e ladrão podia, não podia alguém dizer isso. Dizer era o verdadeiro crime que chamava a atenção dos podres três poderes. As leis?

O safado então tinha direito a resposta legal, até porque a lei eleitoral era do tempo da onça. A política de direita era um passaporte e até dava imunidade parlamentar do crime com status, mais terno, gravata, diploma, toga, farda, e túnica. Sentiu-se o rei da cocada preta.

Notou juizes roubando como macacos ordinários, um promotor matando esposa grávida como um cão sarnento, um delegado feito bisonte serrando pessoas vivas, autoridades-ratos incompetentes, empresários-lobos financiando tráficos, contrabandos informais.

Nos assaltos grotescos, hilário e feiçudo imitava bichos, punha as vítimas loucas, desesperadas, sob humilhações (imitando elefantes), até que estuprou algumas (imitando hienas famintas), atirou em pessoas imitando leões criados em cativeiros de savanas distantes, sempre dando seu show na alegria e na tristeza, no desafeto ou na porrada. Ficou conhecido como um criminoso deveras "animal".

Gostou disso. Ganhou espaço nos jornais. Dissimulou. Era craque nesse porém. Saiu de circulação por algum tempo, para escapar de justiceiros. Depois até deu entrevista para uma tevê estrangeira, de enfoque anarquista e marginal, quando imitou vários animais, inclusive bichos em extinção – fez um sucesso, deu ibope – depois enveredou pelo pessoal e imitou o Presidente do Brasil sorrindo sórdido enquanto dava uma suspeita desculpa pro apagão moral de sua montada gestão inumana e aética (ou mal explicando privatizões-roubos), depois entre grunhidos de parco inglês macarrônico imitou o predador, ex-presidente norte-americano em assédio explícito no salão oval de Washington, cevando uma galinha, e assim ganhou a gandaia do inédito, topetudo, crente em sua força de conhecer o lado coisa das pessoas, dos momentos, das estéticas, das dinâmicas que estão paralelas ao espírito sacrificial de tudo que existe no estojo da vida, feito um pântano íntimo, um porta-lapsos.

Muito tempo se passou e Nicolau sempre aprontando das suas, escapando de justiçamentos, contando palha, prometendo ódios e vinganças, pais arigós e senis – depois de intrigadas tristices – encontrados mortos de fome entre vermes, mais amigos da família com revoltas em espúrios argumentos, porres homéricos, angústia-vívere, solidão-albatroz, medo-coisa, vacas, piranhas, ratos e pangarés passando por sua vida sedentária em busca de um palco tétrico para o seu descaminho entre sombras, pesadelos e orquestrações de imoralidades com estilo.
Mas não hás sensações no esquecimento. Agora, já beirando aos quarenta anos, Nicolau, o maldito, o estuprador, o assaltante, traficante, ladrão de banco, está acabado, quase podre, cheio de berebas com cogumelos vivos de infecções por atacado, cheirando a fogo e enxofre, cabelos assustadoramente uma gadeia descomunal e fétida, unhas grandes como as do diabo, esquálido como uma vareta, e, bem seguro, preso num lugar forte, entre grades úmidas com ferrugem e cadeados de segurança máxima, de uma cela especial no Pavilhão 9 da mais violenta e maior prisão do mundo, o Carandiru, em São Paulo.
Finalmente, recolhido, sedado, o tempo-rei cobrando o dízimo do haver, Nicolau agora não é mais um talentoso mero e ocasional imitador nessa horrenda havência, mas verdadeiramente apenas e tão-somente isso que sempre foi:um BICHO!


* Esse conto inédito, foi elogiado pelo escritor premiado João Silvério Trevisan (Balaio de Textos/SESC online), e considerado um trabalho diferente, especial, realista, extremamente moderno e brilhante.

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Silas Corrêa Leite

Poeta e ficcionista premiado em verso e prosa, educador pós-graduado em Literatura, Jornalismo e Comunicação pela USP. De Itararé, SP, membro da UBE, União Brasileira de Escritores, autor do romance Ele está no meio de nós, no site www.hotbook.com.br/rom01scl.htm
Autor de Trilhas & Iluminuras, poemas, 1995, Editora Grafite-RS
Outros trabalhos nos sites
www.riototal.com.br/coojornal/
www.poetasilas.hpg.com.br e www.silaspoeta2222.kit.net

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