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Ele chegou aos
43 anos e começou a ficar inquieto com a perspectiva de envelhecer.
Era tão assustador...E desconhecido. Poderia, de repente, significar
a renúncia a muitas coisas boas da vida. Não estava preparado.
Mais que o medo da morte era a vaidade que lhe torturava nas manhãs,
espelho na mão, esquadrinhando o rosto, detidamente, num levantamento
diário das rugas. Afastou-se dos antigos amigos e não comparecia a nenhum almoço de aniversário de formatura, nem ao bate bola mensal dos veteranos da empresa. Passou a encarar, com muita seriedade, uma dieta vegetariana, fez assinaturas das revistas Teen e Rolling Stones e congelou o canal da televisão na MTV. De tanto fazer o caminho contrário, em busca do tempo perdido, perdeu os referenciais e se viu suspenso numa lacuna cronológica, sem saber o que era "ficar" e abominando as festinhas onde era forçado a sentar-se no chão e amargar dores de coluna e formigamento nas pernas. Num fim de semana, quando sua atual namorada resolveu fazer esportes radicais com a turma ele ficou sozinho. Terrivelmente sozinho. Não sabia o que fazer. Era um homem entre dois mundos. Optou por um programa de sua época. Um cinema (de arte), um jantar num restaurante com boa, suave e baixa música ambiente e depois... Quase caiu de susto. Na fila da bilheteria uma ex-namorada, seis meses mais velha que ele, pequenas rugas em volta dos olhos. E os seios...Viram o filme, jantaram, falaram do passado, de música, do governo, de si mesmos. Aos poucos ele foi voltando para trás e, descobrindo a cada recuo o quanto ela era interessante, perfumada, inteligente, tranqüila e...Hábil. A última imagem que registrou foram os seus cabelos espalhados...Adormeceu e sonhou. No sonho ele era um adolescente que espiava, por uma fechadura, enquanto ela trocava de roupa, distraída, sem fazer poses ou tentando esconder o corpo. Deslumbrou-se com os seios...Maduros, suavemente caídos. Acordou meio assustado, virou para o lado, enlaçou-a pela cintura e adormeceu de novo com um sorriso de satisfação ao reconhecer o seu quarto de quarentão, no presente, no tempo certo. Tinha voltado para si mesmo. Rose Pereira/2003 |
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Nunca se apaixonou verdadeiramente.Escolhia a pessoa com um critério prático, apurado e exigente. Era preciso ser inteligente, elegante, bem vestida, ter uma profissão promissora e, claro, um bom emprego. Acima de tudo ser chic, em todos os sentidos. Assim era sua vida afetiva, sem envolvimentos profundos, feita de relacionamentos saltitantes, breves e interessantes como asas de borboleta.
Um dia precisou viajar a negócios. Saiu de casa com os planos de
sempre. Conhecer novas pessoas e, se rolasse um clima, tudo bem...Se não,
seria apenas mais uma experiência profissional para a sua carreia
em ascensão. Não estava aqui e nem em qualquer outro lugar
para esquentar a cabeça com romantismo, amor e outras baboseiras.
Só não contava com quem abriria a porta do apartamento, de
um amigo, onde ficaria hospedado. Cumpriu todas as tarefas da tal viagem...De que mesmo? E, como uma refugiado de guerra, passou a reerguer o seu mundo emocional, antes tão organizado e, aparentemente seguro. Deparou-se com as coisas que o amor ensina a sentir. Na pele. Distante do papel ou telas. Na real. Começou a sentir saudade, já que precisou voltar para casa e deixar a outra metade do seu querer. Depois, numa seqüência vertiginosa de sentimentos, conheceu o ciúme, a insegurança, a desconfiança, o medo e a vontade de voltar atrás e desfazer aquele instante que alterou o curso de sua história. Seguiram-se telefonemas, e-mails e mais telefonemas e mais saudades e milhões de planos. Não agüentou o arrastar-se dos dias de ausência e resolveu viajar novamente. Dessa vez uma viagem de amor. Contava nos dedos as horas que faltavam, repassava, mentalmente, a que horas chegaria e a que horas diria "oi" e o primeiro beijo e... Por causa dos negócios perdeu o avião e dez horas (segundo os seus planos) de paraíso. Tudo entrou em pane. O vôo, os planos, as pernas, os nervos...Sentiu, na chegada e na pele, as outras coisas do amor, o lado escuro dele. Os ciúmes e a desconfiança da outra metade do seu querer. Era como se olhar no espelho. Depois, tudo esclarecido e as rotas corrigidas...O paraíso de um sexto andar acima da cidade. Agora, vive entre dois Estados brasileiros e dois estados de espírito. Não sabe o que fazer em determinadas ocasiões e nem como fazer com determinadas emoções. Perdeu o manual e a concentração, mas, não está interessado nessas coisas. É inquietante, mas, não existe negócio, por mais bem sucedido que seja, melhor do que estar preso na armadilha de dois olhos, repletos de promessas de paraíso. Aqueles que abriram a porta quando a campainha tocou. Rose Pereira/2003 |
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Como sempre, seja qual for o horário dos casamentos, a temperatura é quase insuportável, misturada ao cheiro de vela derretendo e flores estranguladas por arames. Cá estou, sufocando de calor e emoção. Não pensei que este dia chegasse tão rápido, nunca vi você tão alto e tão assustado. Malditos sapatos... Por que não os velhos e cômodos? A cor deles combinaria perfeitamente. Mas, alguém haveria de notá-los. Mãe de noivo é visada, percebida dentre todas, ainda mais com um vestido vermelho e dourado... Um estilista treinou em mim, para o Natal, em pleno Outubro. Sem falar na cor dos cabelos. Estou entre Hebe Camargo e Ana Maria Braga... Chamativo. Olho para seu pai. Parece-me envelhecido, arqueado pelo peso das lembranças e das despesas. Tenho a impressão de que não me ama mais, está aqui apenas por você e por ele mesmo. Eu também... Se pudesse estaria na frente da televisão, acompanhando alguma novela dos anos 70, esfriando seu mingau. E essa menina? Como pode ser tão mirradinha e irrequieta? Parece um pardal, barulhento e comum. Não gosto do jeito dela, acho que costuma acordar tarde e, nos primeiros 365 dias, depois de hoje, você sairá de casa sem café da manhã. Além disso, ela me olha esquisito, como se dissesse - "Vou levá-lo para bem longe". Antipática! Penso tudo isso tentando enganar o choro que começa a desfocar as imagens. Avalio todos os estragos, caso escorra pelo rosto... Olhares penalizados e lacrimejantes também, meus olhos de pierrô de circo pobre e, o infalível lenço anônimo que terei de levar comigo.Prometi tanto a mim mesma... Ensaiei dias, no banheiro, repassando caras, falas, bocas e posturas. Vida não tem script. É puro improviso. Terminou. Passo-lhe adiante como num revezamento. Vou ficando para trás, extremamente cansada... Alguém toca ou agarra meu braço? Deparo-me com um olhar reprovador e uma advertência murmurada por seu pai. Eu dormi em pé!... Durante a troca de alianças e, não ouvi você dizer que era para sempre. Ainda bem... Não dou um ano para esse casamento acabar. O melhor de tudo foi tirar esses, malditos e dourados, sapatos e me atirar de costas na cama num misto de saudade e alívio... amanhã poderei dormir até mais tarde. Você não está mais aqui. Agora é arrumar tudo... no que eu poderia transformar um vestido vermelho e dourado? Numa fantasia de diabo para o carnaval ou numa toalha para o arranjo de Natal? Amanhã vou ligar para o hotel e avisar, àquela criatura mirrada, que você não gosta do leite quente demais. Ela tem jeito de que nem isso sabe... Não dou um ano. Seu pai, como sempre, finge assistir televisão, e está novamente com aquele olhar distante. O mesmo olhar do dia em que escolheu entre você e o grande amor da vida dele. Nunca lhe contei essa história... é muito antiga e nem é bom falar sobre isso. Não suporto esse olhar do seu pai... o que estará lembrando, pensando, tramando? Será que ainda pensa nela? Será que foi mesmo um grande amor? Afinal, só durou um ano. Rose Pereira / 2000 |
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