![]() |
|
Naquela tarde fui ao shopping. Estava eu andando, devagarinho, olhando as vitrines refinadas de algumas das lojas, principalmente as de roupa feminina. Enquanto comia pipoca, envolvida pelo fascínio do marketing, pensava com meus botões sobre as minhas possibilidades de consumo, obviamente chegando à conclusão de que não dava mais para satisfazer nem algumas das minhas miúdas necessidades. Tal sentimento não me intranqüilizava, talvez pela certeza de saber que não podia comprar, como antes. Frustração. Isso certamente deixava a vagar meu olhar indefinidamente pelas lojas. Então eu o vi. Grande foi a satisfação com que fui me dirigindo ao seu encontro. Como se fora num filme, pude rever algumas cenas do passado nas quais vivi muitas emoções: as passeatas, os grupos de estudo na UFC, as reuniões de estudantes, os jogos universitários, os passeios nas passarelas da universidade. Parei perto dele e me aproximei movida pelo desejo de cumprimentá– lo. Confesso que senti saudade dos tempos idos da juventude e da vida universitária. Foi então que me dirigindo a ele, falei– lhe: – Olá, Artur! Como vai você? Ele me olhou com ar de desconfiança, expressando através de seu cumprimento que não sabia quem era aquela pequena mulher. Misturavam– se em mim a surpresa e a alegria de rever o amigo. Havíamos sido companheiros e compartilhado muitos momentos. E insisti: – Não me reconhece? Será que mudei tanto assim? Alguns me dizem que não! Até perguntam se não fiquei no freezer. Foi aí que sua expressão de desconfiança mudou para a de perplexidade. Pude observar com mais atenção sua indumentária. Estava trajado de calça de linho marrom escuro, camisa de cambraia branca, bem talhada, sapatos pretos de verniz, modelo clássico. Nisso ele diz:
– Lamento, mas não estou reconhecendo a senhora. Então, falei, um pouco sem jeito: – Não está mesmo lembrado? Eu sou a Márcia, sua contemporânea de universidade. Estudávamos juntos com a Beth, a Ana e a Teresa. Recorda dos bons tempos em que participávamos das passeatas, que íamos ao Céu? Você discursava sobre Marx e a revolução do proletariado, Lênin, Freud e incitava o movimento estudantil. Você era um dos melhores. Subia nas mesas e convocava os colegas a participarem. Rapaz, ainda hoje admiro sua determinação e suas idéias revolucionárias em favor de uma sociedade justa. Você realmente impressionava. Todos nós dizíamos que você era o máximo! A bem da verdade, eu me associava a vários desses movimentos, mas não tinha a convicção política e ideológica que fazem a diferença. Percebo, ao recortar parte dessa minha história, que participava das passeatas, tinha clareza e consciência do movimento, compartilhava das concepções ideológicas que sustentavam a luta estudantil, dos compromissos e dos riscos. Mas era só. Não fui uma militante política na plena acepção do termo. Mas, voltando à cena, que já se constituía uma situação de vexame, ele exclamou: – Ah! Agora me lembro! – E dirigindo– se à jovem mulher que estava ao seu lado, falou em um tom meio sem graça. – Isso foi no tempo em que eu era "doidão". Foi aí, então, que olhei para a sua companheira. Elegante, bem maquiada, não negava a sua condição de classe abastada, não apenas por esse motivo, mas sobretudo pela postura própria de quem se sente acima dos outros. Ela, olhando para mim com certo ar de indiferença, perguntou: – Então ela é umas daquelas? O que essa expressão significava?, pensei. Poderia ter muitas interpretações. Foi quando ele esclareceu: – Sim, ela era daquelas que participavam do movimento estudantil. – Ele olhou, então, para mim, e com um ar de ironia, boca retorcida com um riso de canto, transparecendo pouco caso, falou: – É... Parecíamos um bando de tresloucados. Ainda bem que não guardei registro. Sabe, hoje sou empresário e bem– sucedido, tenho uma ótima condição de vida. Já pensou se houvesse insistido naquela atitude idiota? Quanta tolice fazemos quando somos jovens! Não concorda? Não falei nada. Parei e o fitei, não reconhecendo nele aquele jovem universitário de jeans, camiseta de malha, cabelos soltos, esvoaçantes, sandália tipo franciscana, animado, vibrante, de olhos curiosos para o mundo; desejoso de mudança, febril em seus projetos políticos! Não reconheci nele os sonhos que o embalaram naqueles dias e noites distantes de um passado renegado. Finalmente, dei por terminado o que parecera tão promissor e findado, agora tão opaco, sem graça. – Pois então, tchau. |
|
Regina Lúcia Barros Leal da Silveira Cearense, professora da Universidade de Fortaleza, UniFor, membro da Comissão de Avaliação Institucional dessa universidade. Membro da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – AJEB que estará lançando uma antologia nacional no dia 22 de Abril, da qual faz parte com uma crônica. Mestre em Educação. Escreveu artigos para revistas especializadas, livros e crônicas. Está com um livro no prelo. |
.