Pra se igualar às perfeitas sombras, cada luz, intensa ou efêmera, lança sua cor escandalosa sobre o piso claro e quase cega. Esquecida, esquivou-se e vai-se embora mesmo acesa no céu forrado de roxo da tarde. Prolonga-se na noite estrelada com imensa luazul e entranha-se em corpos amantes. Quando o pecado adentra a carne, se esquece o vazio e lambe a cavidade vermelha da boca chamante.

Resplandecendo na janela esguia, descobre-se num nu róseo os corpos desleixados pelo escuro da sela soturna. As máculas, ainda intensas, desaparecem com a cera da quentura ocre; aos poucos toma o claustro avermelhando-se em laranjas estranhas e, por acaso, desperta o caótico pano sem fundo que recobre a suspensão geométrica do meio dia em clausura espontânea.

O lustre vislumbra a idade fosca da forma, e o que era vida, curiosamente agora se reproduz para o capricho dos celibatos, dos bem-nascidos. Que sempre oram pela tua carne ingrata branca.

Horas meditam sérios mediante a esfera que os separa das estrelas.

Inquietamente cochilam as chagas após o coito eterno. Fragmenta-se em feridas no capim distraído; tão violentamente se multiplicam em prismas incandescentes num delírio sério, d'um nuance nasce a prata, o cobre se estranha no verde que não se vê. O fogo queima as pétalas orvalhadas num incrível acesso de glória verlumbrante.


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Na aldeilha a torrente de torres me persegue, seu cheiro da salgada água que se aguça onde a onda espumante esvai-se em nada. Rompo e repito-me a aurora amarga para caminhar quieto entre as colinas que de tão longe não vejo. Já se foi o auto, e algo que sobrou foi o cinza de certa manhã com os olhares das velhas vestidas em xales semi-coloridos; junto aos seus sorrisos, em suas mãos, estranhas frutas frias e passos possantes a dois pés por hora; agora basta, o convento bater o sino das seis – a as logro de longe dum brando branco e preto. Terços bizâncios e cruzes quase gastas de tanto rezar nas altas pedras de encontro ao mar...


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Caminharei de cara contra o sol mesmo sabendo que serei vencido. Deixando para trás as mágoas em cada passo simétrico da calçada limpíssima por pétalas de rosas puras. O brilho é tão intenso que nem o sol se suporta. É tão intenso que cobre árvores e jardins, relvas tão ralas que secam nos olhos injuries, e o gelo que queima qualquer alma ainda vive apesar do calor.

Lá de longe posso vê-lo, o brilho intenso é o certo perder que não me deixe nem por uma esquina vagar pela luz de seu horizonte instável.

Aos poucos se sabe de intempéries conhecidas e as deixo com os passos leves, mas largos no único curto espaço que se pode caminhar.


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A traição pelos teus pecados fez de mim homem forte e com coragem tamanha que abandonaria o mundo por sua existência fatídica e intranqüila. fez-me os olhos ficarem firmes enquanto pecava um instante apenas – volúpia de meus sonhos; presente, a esperança triste de um condenado a nada. mas se conteve em conter o tédio enfurecido dentro de si: queria conquistar a falange eterna de seus belos desejos e torturar à altura de sua pureza, atado ao roubo de seus geniais intentos de morte e prazer puro. não da carne apenas mas de um sangue que ferve sem cessar pela aurora dos dias sem hora. livre para voar do mais alto prédio da cidade contente ou, espatifar-se na calçada: vindo o corpo pesado e insolente dos curtos três andares do mais decadente sobrado que se transformara num puteiro. é bem na hora do sono de alguns, o desjejum ou almoço com pinga dos desvalidos.

 

Adormecendo lentamente o olho não parava de me sorrir o tempo não cessava, nem um segundo sequer do sentido. Esqueci, a costela quebrada inda dói e a guerra é santa, mas ainda é guerra, entretanto é santa. E ele dorme agora. Seus olhos não fechavam e sorriam com mais força agora, o tempo não passa mais.

Basta gritar, a caravana já deixa tranqüila a vilinha de São Joγo Parrera. As pernas cansadas ainda gozam de algum privilégio, por mais exaustivo que fosse, a batalha não tinha fim. Ao eterno. Jogam-se fora, joga-se baralho e fuzil. O soldado me saudou exausto ainda antes de adormecer no cocho escuro.

– Santa mãezinha há de me manter vivo – ao sangue que se explora, se extrapolam, marca viva de luz na taipa grande que inluz na taipa grande – o que eu tenho de tanto que não lhe diga?

– (Silêncio, torpor). Bar!

Um arco azul bate na escuridão e é hora já. Os acontecimentos agora escapam – espancam – se em suas mãos cruas. Correm-se às armas, correm para uma espécie de êxtase, que nem a santa virgem mãe, nem as putas ou as noivas podem. O que (o)corre não lhe abre as pernas exaustas (– Abre!). Entranha a carne fraca e fura-lhe as vísceras às cegas.

– Arde, mas cura!

– Que deus nos presteja!

– Oh! deus de longe vê. Ele não se envolve, enlouquece com os pecadinhos da carne suja – ante o sol com que se acaba – já é hora, irmão.

– Que a mãezinha não me veja aqui, pecando... (tiro no flanco), ai.

Estremece Joγo, treme oh lavrador das estrelas perdidas da noite nua. Tu tua hora: à boca escorre a carne, semeia soldado, semeia! Firme, sentido.

– Que não te esqueças de mim! – grita o moço afoito com flores na mão vermelha, varando.

Estremece capataz, aqui não há glória perene. A vistas longe de orgulho bradado dos cães ferozes, mas que comem fezes se for a fome, armam-se se for santa a guerra: as palavras agora só são pensadas no alto âmago dos estômagos, e como saem belas as letras. Urros me dizem muito e claro.

– Hummmmm... (a bala entranha atenta). Ai, que o deus venha...

Descem correndo generais em escadas esqueléticas: descem e discutem o desdém de nosso filhos. Os generais masturbam-se uns aos outros enquanto os soldadinhos pederastas batalham com grossos fuzis. O ventre estatelado daquele, a enfermeira geme e baba gozando nas feridas alheias: o leite cai no peito do infeliz e gelado moço impávido.

– Daqui ninguém se santa.

E pára.

– Parem!

– Miseri nóbis, amem-se

– Miséria carne... – e mais um urro, mais um gemido.

– Em nome do pai, do filho... da puta – e risossss.

– Ah! breve alma santa, e casta e santa. Amem.

Finalmente se acabaram.

– A velha misericórdia – e grita, e cala a fala no flanco ferido e põe-se a tremer, sempre digno de tal auxílio.

Corre, Judas. Tua mãe morre, teu torpor atropela-se na vala. A vela se acende e escala a luz apagada: o caixão, o mundo e a imundície de tuas mãos acariciando seu rosto morto, chora de tanto rezar.

– Não quero morrer no mar nem no fogo, quero agora teu apelo...

– Não clames por mim, filho fiel – fala a morta.

Nem fogo, nem fala, acabaram-se as balas.

– Ah! Acabada a glória, a vitória – os mutilados espatifam-se nas escadas da catedral.

A missa pαra os vencedores. E lα no campo a guerra nγo cessa, os corpos empilhados reclamam conforto, prosseguem sem muito silκncio, a paz pousa todo dia na tua comida fria. A fera se amansa ante seus pelos pálidos. A missa prossegue e ai de quem não foi, perdeu o discurso em latindo do papa: agnus amem, armem-se.

 

Ednei S.
Nascido Ednei de Souza Leal em 28 de Março de 1979, em Curitiba, local onde ainda reside. Fez faculdade de Economia no entanto não chegou a se formar. Há cinco anos trabalha com assessoria de imprensa e internet. Teve alguns de seus artigos publicados em jornais do Paraná e alguns de seus contos na revista alternativa `Entropya´ em 98 e 99, atualmente prepara seu primeiro livro de contos e escreve um romance.