Estavam os dois no quarto, o médico e minha mulher, além de mim, é claro, prostrado na cama, ouvindo sem ver e sem conseguir falar ou mexer. A conversa girava em torno do meu estado, quando o médico perguntou qual a opinião de Lívia sobre o que estava se passando comigo e ela respondeu que "por todos os acontecimentos dos últimos dias, eu tenho certeza de que ele está preso num corpo que não funciona".

Minha Lívia. Mais uma vez estava certa e mais uma vez provou me conhecer melhor do que eu mesmo. Depois da primeira cirurgia, quando tudo começou, esteve comigo sempre e irrestritamente. Ajudou-me a vencer o pós-operatório, que me tomou a capacidade de comunicação. Eu pensava com clareza muitas vezes, mas volta e meia tudo deixava de ter sentido e só nossa conversa me trazia à compreensão. Os exercícios a que eu me obrigava para conseguir coordenar as mãos, teimosas em não transcrever meus pensamentos, e fazer a boca comportar-se para exprimir as palavras de forma inteligível, contavam intensamente com o apoio e incentivo de Lívia. Aliás, minha única intérprete.

O tumor em meu cérebro tinha sido extirpado, mas suas raízes voltaram a germinar com mais força e impetuosidade. Uma característica da espécie. Enquanto ele não voltou a se manifestar, toda a família, inclusive eu, parou de pensar na fatalidade e se apegou numa esperança cega, meio idiota, mas compreensível. Afinal não é fácil aceitar a morte, mesmo quando ela se aproxima. É mais uma forma de defesa contra um sofrimento inevitável. Que esse sofrimento dure o quando menos e comece o mais tarde possível.

Foram tempos maravilhosos os últimos treze meses, apesar das idas ao hospital para controlar os edemas. É incrível, quando conhecemos o nosso destino, quando a morte se aproxima, como tudo tem grande valor, o quanto é curto o tempo. Eu acho que aproveitei bem minha vida, mas certamente não dava tanto valor às coisas como dou agora. Fui feliz e tive muita sorte em tudo, mas agora vejo o quanto isso é realmente verdadeiro e não apenas um discurso conformista de quem acha que, no fundo, não aproveitou tão bem e está tentando se convencer de tê-lo feito.

Eu e Lívia tivemos a grande idéia, nessa época em que minha saúde parecia boa, de coletarmos sêmen e óvulos para uma futura inseminação, caso ela quisesse. E isso me trouxe paz. Se ela um dia resolvesse providenciar um filho, seria não só minha perpetuação, mas a confirmação de que nosso casamento foi especial.

Droga, como é difícil entender esta situação. Como pode minha mente permanecer tão lúcida neste corpo moribundo; como pode minha mente permanecer tão lúcida neste cérebro putrefato. Cérebro e mente, dois entes distintos. Agora entendo. A mente flutua, passeia no cérebro. É como um ônibus que transporta a bagagem de emoções e lembranças nas estradas neurais que é o cérebro em sua forma macarrônica. Nada disso, caia na real.

Perdi parte da máquina e o restante tenta salvar o que é possível antes de apagar de vez. Ou será que existe mesmo isso de alma e encarnação? Ouço sem ser ouvido; sinto sem poder me manifestar. Tem que haver algo além disso daqui. Eu não posso simplesmente acabar.

Cá estão meus parentes e Lívia. Ficam aqui no quarto brincando e rindo, ora falando comigo, ora só entre eles com muita alegria. É um conforto, apesar de saber que não saem de vez em quando para ir ao banheiro, até porque temos banheiro privativo. Voltam com olhos inchados, rostos abatidos. Eu posso ver quando meus olhos estão abertos. Não posso mexê-los, mas enxergo perifericamente. Como é bom contar com eles. Gostaria de poder falar-lhes isso. Devem estar mais frustrados do que eu, afinal nem podem se sentir vítimas de vez em quando. Talvez um pouco vítimas, mas não tão vítimas quanto eu.

Quanto tempo já passou? Me lembro, depois da primeira operação, como alguns dias pareceram um ano. Dois ou três dias na verdade. Quando manifestei minha preocupação com o emprego, Lívia fez uma cara de não-estou-entendendo-porra-nenhuma. Num esforço mútuo para nos comunicarmos, apontei no calendário a distância que eu imaginava estar do dia em que tudo começou, do dia na folhinha que Lívia marcava com a ponta do dedo. Ela sorriu, franzindo a testa e apontou dois quadrinhos depois. Realmente o cérebro pode aprontar muitas com essa história de tempo. Agora, não tenho nem como tirar essa dúvida, podem ter passado anos ou apenas algumas horas. Será que farão outra operação e eu ganharei mais alguns meses? Não, não vão. Eu sei disso. Tenho que deixar as fantasias de lado e cair na real. Meu dia está chegando. Ou melhor, minha hora. Pode ser agora, mas acho que vou sentir quando ela estiver realmente próxima. E Lívia? E minha mãe? Como ficarão? Não posso abandoná-las. Tenho que me levantar.

Estou cansado. Não no corpo, porque não sinto nada. Minha mente está cansada. Estou cansado de pensar, mas foi uma vida boa. Era bom chegar em casa e assistir um filme com Lívia. Como era bom ficar em casa. Posso sentir o cheiro de lá. Gozado, não sinto o cheiro de nada. Posso me lembrar do cheiro de um hospital, mas não o sinto. Isto é uma verdadeira prisão. Esta é a verdadeira prisão. Quando estamos crianças ou adolescentes ou também adultos, sempre achamos que somos vítimas de alguma prisão. A escola, as obrigações, o trabalho, até mesmo um casamento infeliz ou menos feliz do que se gostaria. Tudo isso nos faz sentir vítimas de prisões. Não deixam se ser, mas a verdadeira prisão é a última. É aquela em que se perde a esperança.

Lívia está aqui do meu lado me olhando. Estou de olho aberto e tento olhá-la também, mas meus olhos não obedecem. A enfermeira some do meu campo de visão e ouço a porta se fechar. Lívia começa a falar "que ficará bem, que minha mãe ficará bem (será que ela me ouviu?!). Que muitos dos nossos me esperam em outra vida e que não preciso temer o desconhecido. Será bom". Meu coração chora, minha mente chora, mas meus olhos estão secos, sei que estão. Contudo, algo me alivia de tal forma, uma sensação nova de leveza. Me parece que amarras estão sendo soltas. Não sinto mais angústia. Começo a ver meu corpo. Que engraçado, é como se estivesse flutuando. Acho que estou flutuando. Tudo está mais calmo. Vejo Lívia se afastar, enquanto levam meu corpo em uma maca para algum outro lugar do hospital. Estou próximo dele, mas não mais nele. Estou livre. Adeus Lívia. Sempre me lembrarei de você.


N. A.: Este conto é baseado em um fato real e o casal teve uma filha um ano após o falecimento do marido

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Bruno Carlos de Andrade
38 anos, servidor público, escritor bissexto, disposto a inverter esses papéis.

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