"Poeiras do Tempo" é a história de um assalto a uma velha senhora que, aproveitando a oportunidade da morte que se avizinha e da necessidade de ouro do assaltante, começa a contar a história de Luke, um caubói amaldiçoado por um amor e que tenta a vida nas fileiras dos povos turcos.

A história tem um fio que é a impossibilidade de uma pessoa dominar a linha inteira da narrativa. O filme comunga de uma verdade, de coerência de fundo, segundo a qual a história não é dominada por uma personagem, pela visão singular de uma personagem que conta, mas pelo acréscimo que cada personagem dá. O poder de construção ficcional está nas mãos de quem tem o poder de contar, a fala nas mãos, não na onisciência, numa proposta de quebrar a veracidade da história, pois se não se tem a credibilidade de contador oficial, a fragmentação de contadores não o terá igualmente.

Diríamos que se trata de uma alegoria do poder de contar histórias, da infinitude das histórias que são acrescidas pelo olhar de quem conta. Inicialmente a história de Luke é contada por Ângela, a velhota que está morrendo mas não conta onde está o ouro nem tampouco onde quer ser enterrada, supondo que isso seria sabido ao final. Luke, um caubói do interior dos Estados Unidos, tem um irmão, que se casa com uma prostituta. Luke, entretanto, continua tendo relações sexuais com a cunhada, mas não assume a relação, rumando para a Europa. A promessa de ouro, riqueza fácil com bons tiros, estava na Turquia, onde se lutava sem saber muito contra o quê, mas onde todos gostavam de ouro.

Entre a narrativa desta história suas seqüências, o assaltante, Edge, era pressionado pela polícia de Nova Iorque para que pagasse a droga que ele tinha roubado, sempre sofrendo fisicamente, com promessas de outras fraturas. Seu desespero aumentava e a destruição no apartamento de Ângela para buscar o ouro, proporcionalmente. Mas ele teria que ouvir mais histórias ainda. E o irmão de Luke foi a seu encalço, atirou nele, foram os dois presos, e ficamos sabendo que sua esposa havia morrido, afogada, grávida, e ele perdia mais uma vez o filho.

Durante o filme verificam-se paralelismos entre a história passada e a presente, como a ganância de ouro, a quebra dos laços de relacionamento, a ameaça dos protagonistas da de cada um das histórias um ao outro, a recuperação dos laços, a forma como a protagonista foi e voltou para sua terra.

Todos os principais personagens estavam à beira da morte, em situações tão diferentes, mas sempre sofrendo a fragilidade da vida. E o tempo é o fio caprichoso com que lidamos para construir nossa história. Essa é a sentença dos povos, que retratados nesse belo filme, reconhece a vitória da história sobre a verdade dos homens.

 

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Priscila Beltrame
Advogada, formada pela Faculdade de Direito da USP, especializada em propriedade intelectual e em relações internacionais pela London School of Economics. Conclui formação em letras pela FFLCH-USP. É free lancer do jornal Gazeta Mercantil e coordenadora de publicações do Instituto Pensarte. Possui diversos artigos publicados.