Houve um tempo na história recente desse país em que o ponto saliente do noticiário nacional resumia-se fundamentalmente na especulação sobre as alterações do Almanaque do Exército. A revista Veja – à época o único grande semanário brasileiro –, era pródiga em matérias sobre o quadro de generais da nossa força terrestre, esquadrinhando com indisfarçável deslumbramento os nomes dos que poderiam ser alçados ao patamar das "quatro estrelas". Essa tétrade estelar era a senha que pavimentava o caminho do militar rumo ao seleto grupo de onde poderia sair o próximo Presidente da República. Daí o interesse da nossa grande imprensa pela dança de postos entre os guerreiros no topo da hierarquia. A centimetragem quadrada ocupada pelos nomes dos oficiais nas gazetas e revistas tornava-os figuras tão citadas e populares quanto outra qualquer celebridade. Para manter-se a par dos desdobramentos da sucessão presidencial, era imperioso que se estivesse informado quanto aos detalhes da lei de promoção dos oficiais. Os nomes do Ministro da Guerra (era assim a denominação na época), do Ministro Chefe do SNI e do Chefe da Casa Militar eram tão citados quanto o do Presidente da República. O pronunciamento de um general era ouvido com respeito e reverência. De suas palavras procurava-se tirar pistas e conjecturas que pudessem apontar o rumo dos acontecimentos e as indicações do que estava por surgir no horizonte da nação. Figuras graves davam sisudas entrevistas e, a partir de suas afirmações, outra figuras também graves murmuravam com bestial respeito: "É um quatro estrelas!".

Com a redemocratização e a lufada de ar puro que varreu todos os cantos do país, começamos a ensaiar a caminhada rumo a um tempo onde o Brasil pleitearia uma posição entre as nações civilizadas. Foi uma luta dura, sofrida, que custou vidas, suor e sangue. Uma das etapas dessa jornada necessariamente passaria pela entrega do comando real e efetivo das Forças Armadas a um paisano democraticamente eleito pelo voto direto do populacho. Mergulhadas naqueles tempos, que se eternizariam nos anais com o aterrador apelido de "anos de chumbo", as pessoas imaginavam que se passariam séculos até que essa sonhada civilização se instaurasse no solo de Pindorama. Mas a História às vezes é mais generosa que o eventual pessimismo imposto pelas circunstâncias.

Nada do que se fala e escreve sobre a herança da era FHC - e como se fala, como se escreve! -, se compara à criação do Ministério da Defesa. Sem alardes, arengas nem traumas. Tudo que se registrou e vier a se registrar sobre os oito malfadados anos do Império Tucano haverá de ficar a léguas de distâncias, tanto em simbologia quanto em termos reais, do fato de que se criou um órgão comandando por um civil, subordinado ao qual estarão os comandantes de cada uma das nossas três forças armadas. Subordinação efetiva, real, hierarquicamente delimitada, acrescida de continência e posição de sentido.

Acredito que, tanto quanto eu, a grande maioria da população (aí incluídas as pessoas bem informadas), não sabe os nomes do general, do brigadeiro e do almirante que comandam atualmente o Exército, a Aeronáutica e a Marinha. As listas de promoções às "quatro estrelas" voltaram a ser um fato de interesse privativo da caserna e que dependem unicamente da canetada do civil que ocupa a Presidência. No momento, um ex-metalúrgico barbudo com ficha negra nos serviços militares de inteligência (?) da finada ditadura.Como é auspicioso e tranqüilizador esse fato! Enfim, demos um gigantesco passo rumo à civilidade e à modernidade. E é imperioso que as pessoas se conscientizem dessa benção que é o fato de termos as Forças Armadas inteiramente dedicadas aos seus afazeres profissionais. Bem longe de conspirações palacianas, futricas politiqueiras e sem a mais remota intenção de querer determinar o que é bom e o que é certo para o país, à revelia do seu povo. Valeu a pena sobreviver aos "anos de chumbo" só para ver a materialização desse sonho.

Não vai ter graça dizer para os meus netos. Mas vale a pena gritar para aqueles que pereceram no meio do caminho, que morreram lutando para que se chegasse à situação atual:

"Meninos, eu vi!!!"

 

Luiz Berto é escritor
encontra-se na livraria d'OCaixote
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