Balthazar


Ah... meu Balth, meu pássaro desgarrado,
a terra não te atraía tanto quanto voar acima
das cumeeiras e telhados...
Cismavas sobre o alto muro que transcendia a verticalidade das pedras sombreadas,
empilhadas em desinteressada assimetria por mão ignorada para consumar limites...
O velho casario, ladeiro acima, repetia,
entremuros, claustros, masmorras,
uma medievalidade cinzenta, coberta por escorregadio limo esverdeado ...
O interior asfixiava...
Escalar... Escalar...
Pairar sobre as cumeeiras e telhados...
Inconscientemente romper essa medievalidade, lançar desafios
em longos e longínquos olhares infanto-juvenis...
na busca da liberdade...
Um renascentista libertário... Um pássaro transfigurado...
E era lá no alto... Cada vez mais alto,
que se descortinavam possibilidades ícaras
nas pipas coloridas... ora interrompidas em seu vôo
e desatadas caindo num mergulho fatal,
último suspiro sobre algum telhado...
ou copa distante... Ou nas aves que desfilavam um vôo suave com seus braços emplumados...
Ah... meu balth, meu pássaro querido...
preso à terra... e procurando o céu...
Ser ave... ser ícaro...
ter os pés na terra e querer tocar o céu...
Na terra, entremuros, nada lhe faltava...
Mas queria liberdade...
Só conquistada quando sobre a muralha, um dia (para definir melhor,(um belo dia),
após tantas reflexões resolveu ir mais longe, o que incluía, principalmente, ir mais alto...
Cada vez mais alto...
Pôs-se de pé sobre a muralha...
abriu os braços emplumados ... fechou os olhos guardando neles a altitude e a profundidade das cores atingidas no espaço...
E lançou-se...
Não era filho de Dédalo, asas esculpidas no desejo, embora o sol estivesse alto e brilhasse mais que nunca...
um inferno de chamas no céu...
Repetiu o mito, apenas no ato, desnudado de qualquer conhecimento...
Após um tempo desprezível, (Há algo mais desprezível que o tempo), que com seu cinzel perverso retira de cada um o viço
e expõe à velhice torpe a sua finitude?)
Após um tempo desprezível, choca-se com a realidade...
Ei-lo no chão em gemidos, as carnes sofridas, alguns cortes e uma zonzeira desconfortante...
Acorda sob o arfar angustiado e a baba de um cão de estimação...Que assistira estupefato ao acontecido...
Como Ícaro... (e tinha tudo para sê-lo), quis da juventude a inescapável aventura...
Como Ícaro, no ato revivido, experimentou, na práxis,
o sofrimento que amalgama a liberdade...
Mas percebeu que a liberdade se conquista na terra
em longa peregrinação e jejum...
abaixo das cumeeiras e telhados, entremuros, sem perder de vista as estrelas... os horizontes... construindo e desconstruindo sonhos... por caminhos ora floridos... perfumosos... ora tristes ... silenciosos... Mas sem perder o rumo...
Uma conquista sofrida.

(poema homenagem ao urubu Balthazar, criado por humanos
e um dia desaparecido entre seus iguais)

Por treli(m) e sinuhe

 
   


Poema de Natal

Era Natal e a rua se perdia no brilho das lâmpadas coloridas...
E o povo rico em casas ricamente iluminadas tentava esconder suas feridas...
(feridas não se cicatrizam apenas porque Papai Noel chega.)
E cicatrizes da alma se refletiam nas faces pálidas
dos marginalizados dos natais festivos...
E dos solitários, quando pesa mais ainda a solidão.
E no semblante dos ricos que um dia foram pobres e
as feridas não cicatrizavam
por mais que chegassem os ricos presentes...
E nos lares humildes apenas se viam as balas e pirulitos
que a caridade formalizada distribuíra...
Presentes que lembravam tristemente os pastéis das
feiras pobres, recheados de vento...
Tantos os discursos e palavras vãs...
Mas as palavras dos ricos não conseguiam esconder a fome dos pobres...
Nem as lágrimas íntimas dos ricos secavam porque
presentes chegavam a granel...
Os verdadeiros presentes vêm do coração, não pesam nem se dimensionam...
Mas estranhamente era um Natal em que a luz brilhava por toda parte,
malgrado a fome dos pobres e suas pobres balas e pirulitos de Natal...
Malgrado as feridas não cicatrizadas dos ricos...
Porque Ele representava a esperança, o alívio da fome do pobre.
E até a alegria maior dos ricos...
Então o povo o aguardava... e nele acreditava...
(Como vêm acreditando naquele Jesus, filho de carpinteiro),
que morreu um dia na cruz para nos salvar... )
Todos, ou quase todos, desejando que acertasse,
que tivesse lucidez e coragem,
que fosse um bom presidente... um brasileiro digno...
Amém... que assim seja!

25/dezembro/2002


Por Treli(m) e Chico