Talvez seja o vento

Ventou muito!
A noite toda, a manhã inteira. Papéis, gravetos, ciscos, flores, folhas, formaram pequenos redemoinhos.
Nada ficou incólume, a saia das moças, os cabelos, as fitas, os balões coloridos.
Tudo voou...
Também acordei agitada, feito o vento, algo foi remexido em mim, durante o vendaval.
Olhei pela janela, para onde vão os ventos?
Tive vontade de chorar, de raiva e de saudades.
Apenas mudam de quintais?
Que bobagem.
Tanto vento quanto pessoas têm direito a não querer.
Quanta raiva tive e ainda tenho do vento que me remexeu.
Que saudades sinto do vento, que não me envolveu.

 
   

Florada

Jacarandá mimou-se.
Artesão, dia após dia o vento espiava o mimo acontecer. Sabia que quando a árvore estivesse plena, muito trabalho teria pela frente.
Começou a organizar as brisas, os ventos leves e os agitados, cada instante um vinha observar e detalhava o lugar, as plantações, as possibilidades.
Numa manhã o aviso foi dado, hora de começar. A brisa soprou delicadamente a copa lilás, ela sabia que os tapetes são "ventuais" e precisam delicadeza, as primeiras flores cobriram o terreno íngreme da velha escola.
Outras modalidades de vento se somaram e em poucos dias chão e céu experimentaram o colorido do jacarandá.
Jacarandá mimou-se
Vento ventou-se.
E o tapete se fez.
Paro.
Olhar arregalado.
As mãos de pincel e as flores como tinta, redefino os motivos. Desenho os caminhos que trilhei, as trilhas que caminhei.
Ali teu vulto que não me deu tempo de colorir, mas que coloriu meu sonhar.
Mais adiante reformulo espaços... o vento olha e não entende, tapetes de jacarandá não podem ser manuais... e sopra sobre mim, só pra se mostrar... Porque os jacarandás estão ma-ra-vilho-sos e eu estou tomada de cores...

 

 

Manhã de sol

Manhã de sol claro,
de lagartos, lagartixas,
bem-te-vis e quintal.

Manhã de sol noturno,
quando se tem tempo
de amanhecer pra paixão ensolarada,
quando há silêncios pra se amar.

Manhã de sol chuvoso,
a chuva escorre telhados afora,
me viro na cama, sorrio ou choro.

Manhãs de sol!
de sol,
sem sol,
de riso,
sem ele.
Apenas minhas manhãs de sol.

 

Cajueira

Nasci cajueira.

Raízes profundas,
em solo arenoso,seco,
de pouca rega. Cresci cajueira. Galhos finos, frágeis,
folhas tenras ao vento...


Amadureci cajueira.

Apenas um fruto ao sol.
E assim me fiz árvore.
Frondosa, galhada, folhada.
Onde se abrigam passarinhos, borboletas
e montes de beija-flor


Permaneci cajueira.

E dou sombra, em terra de pouca rega...

 

Dualidade


Em ti, terna dualidade...

O destino e a transcendência
A turbulência e a quietude
A demência e a sanidade
Traçam tragédias, tecem sentimentos
Tonalizam desculpas


Em ti, Deus e o Diabo

O Diabo e Deus
Donos do tempo
Desfrutam a desordem
Tecem domínios, desterram devaneios
Dormem, deliram e discursam...
Na tua terna dualidade diária...

 

Sou Maria, de Maria Izabel, novata no ofício da escrita. Moro em SP e trabalho com alfabetização de adultos, e acho que é só.