Voyeur de almas

O olhar lascivo, em secreto gozo,
acompanha o lento strip-tease
dos meus pecados

Sentado no confessionário, espia, sem pudor, minha frágil
humanidade

Desnuda véus, à procura de pistas de minha ignomínia.

Por trás do sorriso plácido, se esconde o voyeur à espreita de meu descuido e eu, distraída, esqueci de fechar as janelas.

   
   

Oferenda

Hoje acordei possuída
De toda a dor e ternura dos amantes
Hoje acordei noiva e comprometida
Fiz votos de fidelidade e de castidade
(Que não me pediram)
Imolei meu coração num altar sagrado
Oferecendo-o em um sacrifício
(Que não me pediram)
Queimei velas e incensos
Penteei meus cabelos
Banhei meu corpo
Purifiquei minha alma
E minha cama
Derramei lágrimas, verti sangue
Desfiz-me em soluços
Roucos e aflitos
Transbordei-me em sentimentos
Num oceano claro e morno
E tentei, em vão, encontrar um porto
... Nada me pediram
E eu me entreguei assim inteira
Até me consumir
E me desfazer, lânguida e serena,
Como as ondas que se debruçam sobre a areia

- E nada me pediram...

(22/10/2001)

Poema sem nome


Quando estivermos longe
E pudermos olhar nossos caminhos,
As pegadas que deixamos gravadas
na areia
Nossas pequenas marcas
Como nosso perfume, de que ficou
impregnado o ar
E as folhas revoltas e os frágeis gravetos
que se quebraram à nossa passagem
(ainda ouço o breve e seco estalido,
como um pequeno gemido, inútil e perdido)

Nossos pequenos gestos e sons
Ainda não estarão bastante apagados e distantes,
Ainda não estarão perdidos

Nós sim, estaremos longe,
irremediavelmente perdidos de nós mesmos
Por que olharemos para trás e não poderemos nos ver
E estaremos perdidos, para sempre.

(27/11/80)

   

 

Maria Helena Moura

É mãe, mulher, advogada e aprendiz de poeta. Nasceu, cresceu, chorou, sofreu, amou, foi feliz e continua viva.