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Primeira
Conversa
I.
Morte:
Poeta...
E tu, poeta
que do lodo ao escárnio já se forma
tua vida de intrigas e derradeira morte
que ao primeiro vento já retorna
ao frio e incômodo barro que te envolve
Que farás agora?
Donde tirarás tua arte
e com quem discutirás tua poesia?
Será que conhecem versos
seus novos companheiros
que á revelia
dividem-lhe no subsolo o já apertado e fétido leito?
Este frondoso manto de terra
que alimenta-se hoje de sua picardia
farejando-lhe os trapos e carnes
em busca de um resto de boemia
revolvendo-lhe a face e cuspindo-o aos vermes
em branda azia
E tu, poeta...
Que farás que agora finda
a chama que lhe deste vida
erguendo copos
amando corpos
e escrevendo a vida?
(tua vida
que lhe finda)
II.
Poeta:
Que ao menos minha mortalha
seja dourada e rubra
e traga assim bordada
a insígnia áurea de minha turba
Envolva-me ao corpo
como cingiu-me em luta
e aqueça-me em nova e qualquer batalha
Que abram-se filas
e avenidas
empurrem-se corpos e ossos
cedendo espaço à minha passagem
Reúnam-se os mortos e contem-me suas vidas
Detalhem letárgicos como viveram
e de que morte morreram
Falem-me de chagas e de lutas vencidas
Quantas histórias aqui reunidas
forjadas na tristeza da vida
e contadas na melancolia
das noites frias
III.
Aos vermes nús
que me encontrarem estático
que me roam a face;
deslizem ávidos pelo meu corpo
inanimado e plácido
e quando, por fim
findar-se
a carne; que devorem-me
os trapos e ossos
deixem-me apenas a poesia
que como as unhas e o cabelo
crescem em mim
até depois da morte
(ou após esta vida
de pouca sorte)
IV.
Sentemo-nos novos
amigos
e desta existência em comum
desatemos em riso fácil
a aprumarmo-nos em galhofa
E que da nossa história
se faça o fogo ácido da noite
na poesia declamada
em côro
no piar
das corujas
Escrita nos contornos dolosos
de nossos jazigos de almas torrentes
que ainda esquálidas
anacrônicas e dolentes
cantam o viver...
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