Um acidente na tarde

Em fuga dos arrastes de mais um dia,
Senta-se o poeta na sua cama.
Calmamente, ele toca a colcha fria,
E a sua mão tateia os entrelaces das linhas...

Busca o refrigério de uma pousada,
Viageia a suavidade de vernais planuras...
Porém, a ânsia de repouso é frustrada -
O cadarço do sapato do poeta deu um nó cego!

Foi meramente acidental;
Mas ainda assim, desconsolado,
O poeta olha o sapato.... é o pé direito;
O que fazer?! E logo o direito...

É uma fatalidade, uma enorme fatalidade!
E não há nada que dê jeito,
Pois ele, o poeta, não tem a habilidade
De destricotar linhas embaraçadas!

Enquanto isso, a tarde cai,
Os pássaros se recolhem,
A vida se esvai,
O desespero estua,
E a pinga amarela espera...

 
   
 

Sem agenda


Na tarde sem pressa de morrer,
Ruas calmas conduzem-me ao lar;
Ali, tocadas de penumbra e silêncios,
Suavizam-se as cortantes arestas.

Sobre mesa nua, o jornal velho,
A faca sem corte, o pão de ontem;
E perto da janela, as flores amarelas,
Aquelas por que tanto esperei,
Enfim, ela as enviou para mim!

Estou só; não espero ninguém...
Mas não me importa estar sozinho,
E nem tampouco se a casa está fria;
Nada importa - a minha frente,
Eu tenho apenas uma noite vazia,
O copo de vinho fará o milagre do sono.

E no dia seguinte,
[Sim, amanhece ainda para mim!]
Olharei o vaso de flores amarelas,
Pensarei que ainda há pouco ela as tocou.

Depois, fecharei a porta da casa silenciosa,
E bem devagar, caminharei pela calçada.
O meu dia será como todos os outros:
Vazio, sem compromissos,
Sem nenhuma agenda!

 

Carlos Rodolfo Stopa

Seu universo de criação é marcado profundamente pelas cenas das ruas e praças da cidade natal, Araguari-MG, e da antiga Fazenda Barreirão de propriedade de seu tio Nicolino Caetano, localizada às margens do Rio Paranaíba, limiar dos mundos de Goiás. O autor fez seus estudos (Física) na Universidade de São Paulo, e completou sua formação nos EUA onde recebeu o grau de PhD (Física Nuclear). Atualmente, além das suas atividades tecnocientíficas no Centro Técnico Aeroespacial de São José dos Campos, cumprindo o "sonho de criança - ser um escritor - do qual fora desencaminhado pelas tantas escolhas que fez", escreve poesias e contos.

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