O trabalho vai bem, obrigado, 
bem, obrigado!!! 
e o amor vai bem, 
bem, desabrigado!!! 
bem desalinhado, 
faz tempo que não sinto olfato, 
nem sinto tato, perdi; 
perdi os sentidos, 
o sexto, o sétimo, sei lá mais qual. 

O auto vai bem, não o fiat, 
o auto do compadecido, 
sei lá, o auto do esfarrapado, 
o auto do compadre adoecido, 
é isso, doença de amor, 
dor de parto, e quem diz 
que homem, com agá minúsculo como eu, 
não tem dor de parto. 

Ela partiu, sei lá, mandei ela embora, 
dor de parto; dor de partida, 
dor de partida perdida, 
eu me mandei ela embora, 
eu me dei "o fora", bem agora, 
bem na hora, acho que só sei, 
só sei me amar, é isso, 
eu me amo, me amo tanto tanto, 
que me mato de me amar. 
Coño.... 


outubro/97
 

Minha diva infernal, 
nas noites vetustas, 
de mala e cuia, 
em ti entrei. 

Alarguei teus horizontes e interiores 
sorvi dos teus profundos, 
prazeres e babas, 
embeveci. 

Tu, diva, 
feita mula no cio, 
te empilhaste em mim. 
Sugaste fugaz e escabreada 
os sumos e sucos, que por anos, 
atroado cultivei, pros seres amados. 

Agora 
Reluta, teima, 
refuta, e se esquiva, 
não dá trela, remorde 
se esconde de você e de mim, 
nem se esfrega, nem se entrega, foge. 

No olho do fogo, num templo bacante, 
amarrados sem fios, lios e sem nós 
entre serpentes ebó, tridentes calientes 
observados por pombas vermelhas de 
seios à mostra e corujas de alma verde, 
nos reencontraremos, ó Diva infernal. 


janeiro/01
 

Oi amor... bom dia... e melhor noite! ;- )
Os meninos, com 90% de chance, irão dormir fora...Vamos farrear? 



Não há o que pensar 
Em se tratando de farra 
O negócio é não postergar 
Mais ainda quando o dia bom 
Começa com "oi amor", 
"bom dia e melhor noite"
e tem no caminho uma boite 
com brodo, "suprema" cerveja e som. 
Tem serra, não sei se de Minister 
ou da Mantiqueira canastra, 
com certeza sem capadinhos 
ou afinadas de voz. 
Pra fazer jus à nossa paixão 
também vai ter 
madrugada regada 
a baba, tesão e bourbon. 


março/98
 

vivo tirando fotos e não uso máquina. 
revelo-as nas noites de insônia, 
servem pra me acalmar. 

nas fotos mudam as roupas, 
o jeito de colocar o cabelo, o calçado. 
às vezes uma bota inglesa, 
em outras uma sandália italiana, 
tem com sorriso e com cara de choro 

vivo tirando fotos e não uso filme. 
me revelo nas noites de orgia, 
servem pra te acalmar 

nas fotos mudam as paisagens, 
a mesa do clube, o quarto de motel. 
às vezes saindo da escola numa quinta de aula, 
noutras entrando em casa 
abrindo portão, cigarro na boca, 
amargura no coração. 

vivo tirando fotos mesmo não tendo máquina. 
revelo-as nos dias de briga, 
elaborando intriga, 
tecendo teias de confusão, 
desconfiando da desconfiança já desconfiada. 

em todas tem 
os óculos, a bolsa 
e esse seu jeito sensual, exigente 
inteligente e intransigente, 
servem para me aprumar. 


outubro/98
 

Não suma, some (do verbo somar)
na espuma, tome 
no calor (do amor), se consuma 
em suma, ame
nos abraços, morda
na cama, amarre
agarre, o prazer
aproveite, maninha
sempre é tempo pra gostar


janeiro/98
 

Concordo com sua astuta,
com truta e sem salmão,
sintética avaliação.
Não posso deixar porém
de fazer troça
desse seu jeito magrela
de tratar a emoção.

Fim de semana delícia,
não margarina,
pois se necessidade houvesse
optaríamos, como cinéfilos
por um clássico, manteiga,
mas com luz, sem sombra
de dúvidas
exceto as derivadas do caos,
e as integrais das cerejas orientais

Sangue, suor e outra vez
odor a coalho, coisa de índio
tibiriçá, com mentiras e meias
verdades,
que ainda vão dar o que falar.
Mas no fundo do peito,
insuspeito,
peito que tem o mesmo número
da minha boca e das minhas mãos,
encontro o afeto,
que faltava.


janeiro/98
 

 

a poesia sai de cena, 
já havia saído do Senna 
depois que Baudelaire 
em suas orgias febris 
dele se embebedou 

trafegando nos rosa 
do noel a guimarães, 
vira prosa aquosa 
tão prosa quanto eu 
que me arvoro poeta 
e nem o idioma é meu 


07/89
 

rede, por que te quero ninho, 
embaixo de lágrimas, balançando 
com cilindros de papel e tela, adornando 
e uma coruja de alma verde, vigiando 

rede, por que te quero perto, 
e dos espinhos do sansão, longe, 
porque não te quero trôpega; 
te quero guapa e serena, a me vigiar 

rede, porque te quero sorvendo 
a branca, sem vergonha, a nos mirar 
espantando a bulha clerical, 
na espreita da vermelha, do xadrez, 
que teima em não assentar 

rede, por que te quero recíproca 
apótema do meu pulsar 
embricada na minh'alma 
atenta aos degraus anônimos 
que teimam em me derrubar 


julho/01
 

   

 

William Martani
Paulistano, 52 anos, matemático,
joga e brinca irresponsavelmente com cores, joga e brinca afetivamente com palavras (pretexto: articular, no som e na disposição estética, texto e contexto), conta causos, ouve impropérios e não é causídico, inimigo marcado do mercado e seu main stream, viveu em Cuba de 73 a 79, insiste em acreditar nas utopias, não
dispensa Minister e bourbon.