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I
Todo homem é, a um só instante,
O seu próprio mármore e escultor.
É a tinta e as mãos do pintor,
As proezas da lâmina e o fio cortante.
O calvário da Comédia de Dante
Ou o paraíso que está nas alturas;
O sorriso e os gritos de agruras
Que, em latência, habitam nossa voz.
Somos, a um só tempo, todos nós
Criadores e fiéis criaturas.
II
Somos, a um só tempo, a irrigação
E os carunchos da nossa semente.
Somos o futuro no presente,
Nosso próprio arquiteto e inspiração;
Os ventos e a embarcação,
O cometa e as noites escuras;
A sagrada magia das canduras
Ou o braço execrável do algoz.
Somos, a um só tempo, todos nós
Criadores e fiéis criaturas.
III
Somos, nas geladas madrugadas,
Nosso próprio frio e o cobertor.
E nas pálidas tardes de calor,
O abrigo e o mormaço das estradas.
Somos as idéias projetadas
E o concreto das nossas estruturas;
A firmeza dos gestos de bravuras
Ou as asas de Ícaro, aos sóis...
Somos, a um só tempo, todos nós
Criadores e fiéis criaturas.
IV
E aquele que só ventos semear,
Colherá só tormentas, com certeza.
Quem quiser de herança a tristeza,
Não aprenda o ofício de sonhar.
Pois é a nossa maneira de entalhar
Que define nossas próprias esculturas.
E, assim, viveremos nas alvuras
Ou na luz rosicler dos arrebóis.
Somos, a um só tempo, todos nós
Criadores e fiéis criaturas.
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