NÃO PROCURA
(Lendo Cecília Meireles)

Não procura teus passos
na areia da praia
se perderam no vento
e o mar se acabou!
Não procura teus sonhos
que a nuvem inconstante
esfumou-se com a chuva
e o azul se perdeu!
Se queres os teus passos
e os sonhos quiseres,
os procure em teu corpo
que a vida marcou!
Bem profundo, na carne,
entre rastros sangrados, 
é a ti que procuras. 
Vê, a praia está morta
o mar todo secou,
a nuvem esfumou-se
e o azul não há mais 
senão dentro de ti!

 

    
 

 

 
 

 

INSTANTE

Volta agora, amor, que amanhã talvez seja
instante de morrer, sem que tenhas chegado.
Vem e ajuda a apagar toda aflição que esteja
se escorrendo em tristeza no rosto encharcado... 

Vem depressa, é tarde, o vento me arrasta
ouço um longo suspiro na beira da estrada!
Não precisa trazer nem o tempo que resta,
essa pouca esperança de viver o nada...

Vem e beija a face serena e sofrida,
sinta o olhar ainda atento ante o céu absorto,
mas não pense em promessa pois é despedida...

Amanhã seguirei o caminho da aurora
no dilúvio de luz onde o corpo já morto
é lembrado em teu choro, que percebo agora!

 

 

 

ESPELHO

Em que espelho ficou a face ardente 
alegre e simples como era a vida,
sem esses olhos tristes de perdida
esperança, de fé agora ausente?

A mão que hoje treme era fremente
os pés corriam por árdua subida
sem medo de esbarrar em despedida,
tudo alcançava ardorosamente.

Em que quarto meu corpo foi retido
com a sanguínea face agora fria,
e os pés ficaram presos de repente?

Teria o coração se apercebido
da imagem escondida, a sombria
transformação que o olhar agora sente?

 

 
 

 

TERNURA

Descubro na tua ausência
a rosa que não beijei,
a flor ternura, a essência
virginal que guardarei...

A saudade é uma praia?
Eu dentro dela e não sei
pois vivo em deserta praia
guardando tudo que amei.

Teu lamento está ao meu lado
qual rio vindo do mar
lembrando o sonho exilado
que sonha sempre chegar...

A ternura rósea essência
bem sei guardarás também,
e descobrirás na ausência
o gosto de querer bem!

 

 

 

FEBRE

Quando a febre chegar com o vento norte
e a noite desolada vir após
– sem sorriso que conforte
haverá a tua voz!

Não será o destino malogrado, a sorte,
que em densa mágoa nos deixará sós:
– a tristeza é irmã da morte
é a vítima e o algoz...

O desgosto virá, humano e terno. 
Tantas vezes cruel e doloroso,
– será talvez na despedida
compassivo e amoroso.

A febre aquecendo o frio inverno
trará a tua voz e obsessivo
– sentirei no sal do corpo
a certeza de estar vivo.

 

 
 

 

 

 

INFÂNCIA

Rua Direita perdida
para os que ainda estão lá!
Ali ficou esquecida
a infância do beabá,
velha casa do cajueiro
que me viu nascer, nem sei...
Rua do Cisco, viveiro
de mariposas que amei,
da grande porteira preta
rangendo ao sol da manhã,
do sumo branco da teta
e a vaca cor de romã!
Onde estão, moças cheirosas
indo e vindo nas calçadas?
Nas janelas, misteriosas, 
lindas mulheres casadas
com seus maridos valentes
matando, também morrendo
para deixar as sementes
de gente e fados nascendo?
Uma cidade vazia
com suas casas à espreita
para saber quem morria
na escura Rua Direita!
As portas estão fechadas
e o silêncio nas janelas
esconde coisas tão belas
de vidas despedaçadas... 
Morre criança afogada
lá no Rio Jacaré,
o meu caminho do nada
por onde seguia a pé...
Jasmineiro, que saudade,
o aroma da infância existe
na tarde, em minha cidade
me chama o sino, e é triste!

 

 

Juca de Melo
Nascido em Brasília, MG, (nome surrupiado para batizar a Capital Federal), é poeta bissexto. Desde a juventude faz versos para consumo próprio, satisfazendo-se mais como ledor de poesia... É jornalista profissional; ocupou, em Belo Horizonte e na cidade onde reside, todos os cargos de redação: repórter, noticiarista, articulista, diretor, editorialista. Não tem livros de poesia publicados. Submete seus textos poéticos à apreciação do leitor, por influência de Lizete Mercadante Machado e da sopa de letras.