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Foi um amigo que me contou. E, quando um amigo conta um caso, a maior sinceridade nossa é acreditar. Ele tinha uma velha amiga doceira, era imbatível nos fios de ovos, nas bombas de chocolate e o seu arroz doce era digno dos anjos. Aliás, ela era muito religiosa e improvisava orações enquanto inventava confeitos cada vez mais impossíveis. O segredo do arroz doce era cozinhar os grãos só no leite e deixá-los de um dia para o outro de molho no leite de coco, ao som da Ave-Maria de Gounaud. O meu amigo e a dona Maria conversavam muito: sobre o trânsito de São Paulo, o MST, ultimamente sobre o choque entre palestinos e judeus. Qualquer assunto terminava sempre com uma indagação metafísica: "Mas o que é que nós estamos fazendo aqui nessa Terra de loucos?" Pois ela morreu na semana passada de parada cardíaca, quando terminava de confeitar um bolo de nozes que estranhamente apareceu mordido numa das bordas de glacê. Morreu com 83 anos sem deixar herdeiros, tranqüila como uma bolha de claras em neve que estoura silenciosa e repentinamente. Porém antes já havia cuidado do testamento e coube a cada um dos muitos amigos uma pequena parte do seu reino de açúcar e orações. O meu amigo recebeu um livro de receitas escrito e publicado por ela mesma, com alguns doces difíceis de acreditar. Mas o que o deixou verdadeiramente intrigado, a ponto de me telefonar pedindo ajuda, foi uma folha dobrada em papel Bíblia, bastante envelhecida e amarelada, quase em decomposição, com uma nova versão dos dez mandamentos que caiu do livro. Não descobrimos se foi ela quem escreveu, entretanto, depois de tantas alquimias no reduto limitado de uma cozinha, parece que vale a pena experimentar essa receita em tempos de novo milênio. |
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