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Prato a prato, um desenho feito por um ao sair da pilha e ser tocado pelo água, pela esponja, pela pia, no descanso, um ponto maior dois menores, puxamos a linha pelo avesso. A tesoura rápida. O jato d'água. Mais um prato e um ponto, ambos, o crochê de sua avó e seus pratos, tais e quais mandalas, nas quais a razão de um homem esvai-se e dez minutos após ele acorda sem lembranças, como lavar a louça depois de uma macarronada familiar, tanta louça, os nove pratos lavados e nem se apercebeu disso. Bem verdade é que não comia macarronadas familiares fazia tempo, mas ainda se lembrava. E aquele eito era trabalhado, prato, talher e panela, da mesma maneira que seu avô. Que transplantava cada muda de alface da sementeira para o canteiro sem se dar conta após a terceira. Pois suas mãos erguiam e colhiam, cavavam e plantavam, e seu coração estava ali, mas sua mente, quem sabe. Em sua cozinha o homem via um canteiro, um bilro, uma agulha, dois pontos ao revés, um em cruz, aquele buraco nunca vazio e sempre se enchendo, lixo orgânico - casca e semente, arroz e feijão, talos e folhas, restos, o avô jogando tudo aquilo no buraco. Na cozinha, sentava-se a avó no canto próximo à geladeira. Juntavam-se todos ali, em sua cozinha, e dali saía um pilha seca do escorredor para o armário, um jogo de panos de prato em bico, um canteiro bem temperado, muito adubo saído daquela cozinha. Um instante e quanta confusão, sorriu e pegou a travessa de barro. O buraco ficava no quintal da chacrinha dos avós, a avó nunca sentava-se em sua cozinha, ao contrário, a cozinha era dela e era onde agia. Só havia crochê já feito, em velhos e enciumados panos de prato que nunca saíam das gavetas, em apoios para copos, em minúsculas toalhas que sustentariam ínfimos vasos onde delicadas violetas davam à luz suas cores. Nas janelas da cozinha as flores. O crochê da avó tecia-se em pimentas e cebolinhas, hortelãs e lingüiças, quindins e bolachas de mel. As bolachas de mel, e sua confusão, sua confusão aumentou mas não fazia efeito um prato após o seguinte, aquela necessidade de fazer parte e nunca sequer tentara fazer parte de sua própria família. E isso, provavelmente, fez com que ajudasse sua mãe, na sua busca recente, colando as cadeiras e mesas, plantando as mudas, montando as prateleiras e indo buscar terra no orquidário. Sua mãe, sem mãe e pai, ele o filho cuidando da mãe.
Mais um prato e sua cozinha encheu-se de luz e de sua paz, pois não havia movimentos desnecessários, não havia pensamentos. Só as travessas, e uma que não fora posta de molho, as facas que devem ser amoladas. Criança de novo, com os primos, na chacrinha, amolou as facas como que para a abordagem de um navio - ou para uma fuga em noite de lua, o corpo cozendo-se ao cordame, mastraréu balançando sobre amuradas torpemente baixas, mas cuidado! Ou ela lá se vai das mãos para o chão, o amolgado no gume do metal. E já descia do dragão, perdão, do iate a jovem princesa resgatada, ou melhor, a criança precoce assumia o leme como se lhe fosse genético. Riu baixinho, quantas histórias lidas e vividas! Tinha certeza de que se a oportunidade aparecesse, subiria o mastraréu como se houvesse nascido ali, e o arpão sairia de sua mão para acertar numa orda de óleo na água, parecida ao olho de um cachalote. Ah, o Pequod! Aquele homem achegou-se, naquela dia, à sua cozinha e mediu a louça a ser lavada, pôs o detergente na quantidade exata na esponja, e suas mãos molharam-se, a água derramando-se pelos antebraços. Pelas janelas da ampla cozinha, o maior e quase único cômodo da casa, um céu desajeitado iluminava as madeiras do chão, e refletindo-se, as traves do teto. Havia prateleiras, gavetas, vassoura atrás da porta; havia uma campina esperando depois da porta da cozinha, um regato, um bolo de fubá no forno, seu primeiro bolo. Lambaris, pegos num covo no regato, esperavam, estripados e desescamados. A janela abria-se para o campo, mas antes da janela, mesmo pendurado no peitoril, uma espécie de caixa repleta de terra farta e úmida abrigava cebolinhas, salsinhas, alecrim e orégano, e uma variedade de variedades. Temperos de gosto, de cheiro, de cor. Seu suor era parte do alimento dos porcos, as abóboras, a mandioca. Duas vacas já haviam sido mungidas.
Enxugou a testa com o antebraço e tremeu, quando ouviu a buzina ao longe, três toques e uma gargalhada. A família havia chegado. Queria mesmo? |
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Antonio
L. C. Geremias |