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Tão lindinha, tão macia. Falava baixinho, meio rouca de tanto fumar, “parei, sabe, já fazem 10 anos, mas a voz continuou a mesma”, cheia de erros de concordância. Naquela boca não era problema, lábios macios e grossos, quase sem batom, “não gosto, mancha os copos”, sorriso discreto. Safada.
Não conseguia se decidir. Frango com maracujá ou com gengibre? Depende, depende. Cortou ao meio, ao longo da coluna, pronto, podia fazer dos dois jeitos, ao mesmo tempo inclusive. Arroz integral? Não, ela levava jeito de carnívora. Arroz selvagem, portanto. Nada de salada verde, crua. Melhor um combinado de legumes cozidos, microcenouras, pequenas berinjelas, couves de Bruxelas, azeitonas sem caroço, cebolinhas minúsculas – será que em Bruxelas só tinha couve daquele tamanho? Coisa estranha. Azeite extravirgem, limão-rosa, pouco sal. Tudo colocado na hora.
Os dedinhos saindo da sandália rasa, as unhas sem esmalte, as das mãos num tom escuro, quase negro mas não negro, cortadas rente, ela abdicava de todos os truques e era a vadia mais sedutora que já havia conhecido.
Sal, de leve, nada pior que um frango salgado. No espaço vazio acima das sobrecoxas e ao lado do cavername – que nome para as costelas, mas parecia um cavername de navio, mesmo – alecrim. Pouco, para cheirar só, e cebolinha. Por dentro, um pouco de noz-moscada ralada. Quinze minutos de descanso, enquanto espremia as laranjas. Umas vinte deveriam dar.
Muito suco, laranjas-pêra frescas, sem um amassado, no ponto, casca lisa e fina. Talvez mais, umas trinta, muito suco. O suficiente para cobrir as duas metades, cada qual em seu
pirex.
Naquele dia, em que os dois tinham bebido uns chopes antes do filme, os beijinhos discretos no cinema, sua mão tinha tocado de leve nos peitos, os bicos duros, e ela tinha tirado imediatamente, nem deixou um pouquinho só. Mas quando escorregou a mão para o colo dela, com a dela na sua, e encostou na xoxotinha, por cima da calça, ela deixou um pouquinho, quinze segundos, maldita fosse! Xoxota gordinha, peluda, tinha certeza. E molhada, escorrendo mel.
Mas de hoje não passava, o incenso pronto, as bebidas, ela disse que gosta de dry-martini, não disse? Vou fazer, comprei toda a parafernália. Quantos anos teria? 32, 35? Dois filhos, casamento encerrado, o marido tinha ido morar em Minas. Não conseguiu entender se a decisão era anterior à separação, ou era por causa dela. O que teria acontecido. Engenheiro, bem profissionalmente, “muito parado, quieto”, a voz langorosa, o bar escuro, fumaça, gostava de jazz e blues, dançava coladinha, encostava...
Colocou em cada pirex um monte de brotos de feijão, idéia repentina, cobriu com os meio-frangos, cada um submergiu no suco de laranja. Pronto. Deixa descansar.
Creme de leite azedo, meia-dúzia de maracujás começando a murchar e escurecer, o gosto apurado mas ainda não líquidos demais. Folhas de hortelã, as mais pequeninas, apertar um pouquinho para liberar a alma, e misturar tudo. Um creme espesso. Deixar de lado.
Encostava, sabia tudo a safada. A mão na sua nuca, sem mexer com as unhas, só pusada ali, a expectativa, ela vai arranhar de leve, não vai? Só arranhou quanto empurrou seu peito de leve, quase sem querer, bem no momento em que encostou nela pra valer, o pau duro como pedra. Então, ela tirou a mão, devagar, roçando as unhas na nuca, colocou em seu peito e empurrou de leve, só o suficiente para desencostar, sem pressa, e começou a conversar sobre a amiga que estava com problemas.
Filha da puta.
Quatro meses. Quatro meses de barzinhos, cinema, boates, ciclo de cinema. Nunca poderia imaginar, mas ela não só gostava daqueles filmes iranianos como sabia quem era o diretor, prêmios ganhos e o escambau. Loira verdadeira, uns 35, dois filhos, peitos firmes e uma bunda que era maravilhosa de saia. Porque calça engana, mas saia não tem jeito. E a dela era dez. Voz grossa, boca deliciosa, olhos castanhos, trabalhava como secretária e quem imaginaria que secretária soubesse alguma coisa de cinema iraniano?
Mas de hoje não escapava. Descascou o gengibre, cortou rodelas fininhas, deitadas; tirou os talos dos cogumelos, shimeji novinhos, comprados na feira, deixou de molho em shoio. Pimenta verde, da Jamaica, grãos esmagados. O vinho branco na geladeira, o tinto refrescado, o champagne à espera, o que ela quisesse, até um baseado, se fosse o caso. Pena, mas achava que não.
Nada de cebola, alho. Só sutilezas, hoje.
A boca é que o deixava louco, imaginava horas de beijos, a língua, seu pau ali dentro, sua língua naquela gordinha. Encheu as mãos com o primeiro meio frango, escorregadio, molhado de laranja, colocou na tábua, escorreu o suco para uma vasilha à parte, até ali os dois pedaços iguais. Sal. Muito pouco sal. Agora começava a brincadeira. Um pequeno talho na ligação da sobrecoxa com o corpo, e pronto, uma camada de creme no fundo do pirex, o frango com o peito para baixo, o resto do creme sobre as costelas, coxa e sobrecoxa. De lado.
O outro pedaço, aberto. Do jeito que ele queria aquela fêmea, estava ficando louco, imaginando o suor escorrendo, os carinhos vagarosos, os dedos chupados, o pezinho, sua língua entre cada um dos dedinhos, as coxas separadas, o olhar sem sentido, só sentidos, só tesão, sem pensamentos. Escorreu o suco na mesma vasilha do outro.
Cortou os cogumelos ao meio, em quatro. Passou os cogumelos numa frigideira com um pouco de manteiga. Separou. Esfregou a pimenta esmagada nas costas e por baixo da pele, devia ter esperado para passar os cogumelos na última hora, mas estava excitado. Comida boa não se faz às pressas, nem boas fodas. Relaxou, respirou fundo, fez uma cama de gengibre, deu o talho na sobrecoxa, um pouco de sal, pôs o frango por cima, espalhou os cogumelos, recheou por baixo da pele, duas colheradas de suco de laranja para não secar demais. Cobriu os dois pirex com papel alumínio, sem encostar na carne. Fogo baixo, uma hora de fogo baixo, tirar o papel alumínio enquanto se põe a mesa, e deixar tostar no fogo alto.
Talvez essa idéia fosse boa, nada de encostar naquela carne branca, macia e musculosa, a academia era óbvia. Só fazer onda, andar em volta, nem te ligo, era isso? Talvez fosse. Deixaria para decidir na hora, o arroz já estava pronto, enrolado em jornal, como a mãe ensinara e dava certo, os legumes cozidos e levemente temperados. O máximo era não dar certo, mas desconfiava que a pressa – maldito tesão! – estragaria tudo. Na última hora, antes de jantar, trepando ou não, os brotos de feijão, ainda no suco de laranja, seriam grelados (grelhados, olha o ato falho. Ato?) de leve e servidos só com aceto balsâmico. Podia dar certo.
Do lado de fora do apartamento, 14 milhões de pessoas também moravam e viviam. As luzes estavam acesas, e os carros, nas ruas. Vinícius já tinha morrido fazia tempo.
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