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"Cada povo tem o governo que merece", resmungava meu pai, a cada vez que se descobria alguma corrupção no governo. Externava assim sua negativa crença de ser o povo brasileiro ignorante e preguiçoso. Assistindo inúmeras reportagens sobre o Taliban, esta frase de meu pai volta-me à lembrança. Imagino algum regime fundamentalista a invadir o Planalto e a impor a tal da burca à geração Pá Tropi. A turma do deixa disso daria uma gargalhada. "Fala sério!" ressoaria da Amazônia aos pampas. Uma ala de burcas poderia sair às ruas em alguma escola carioca ao som frenético de um samba, mas seriam burcas irreverentes, transparentes, agradecendo a Alá pela nudez belíssima de sua criação. Um mulá proibindo músic, instituindo rezas obrigatórias... aqui, onde os cultos são generosos em danças, cantos e sincretismo? Enclausurar crianças em madrassas? Ingenuidade de quem desconhece nossos meninos de rua. Armar os homens? Prevejo nas praias, tomando água de coco em mínimas sunguinhas, só pra contrariar, Os Filhos de Gandhi com todos os seus simpatizantes. Nem pelos lados do agreste os radicais muçulmanos teriam melhor sorte. Se insistissem, descobririam a fibra do sertanejo, antes de tudo um forte, invocando 'meu padim Padre Cícero' e lutando até o último homem. Na caatinga, sem cavernas onde se abrigar, pobres árabes! Os quengos e os carcarás levariam vantagem. –
Ouçam o que eu exijo! – gritaria o mulá, roxo de raiva, e logo descobriria que, no Brasil, o que político fala não é para ser levado a sério. |
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Sonia Rodrigues |