Já sei que se eu soubesse o que hoje sei, jamais teria sofrido. Se não tivesse sofrido o que hoje recordo, jamais seria quem hoje procuro. Hoje estou em paz com o mundo. Hoje tenho tempo, muito tempo. E meu coração está gelado. Adormecido. E já não mais posso escrever. Onde se esconde a beleza que existe na antítese da lágrima? Se o sorriso também carrega sua poesia, preciso aprender a sorrir. Ou reaprender a escrever. Ou talvez nunca tenha escrito. Sempre tive medo de cair da caixa alta. Vertigem.

Tentava me encontrar no emaranhado das minhas malucas entrelinhas, batia a cabeça na quina do papel, sentia-me claustrofóbica entre parênteses e ansiosa por oxigênio ao deslumbrar uma vírgula. Precisava mesmo dar um tempo. Pulava como maluca de parágrafo em parágrafo, saía correndo dilacerando meu coração pelas linhas tortas. Chegava em lugar nenhum; sempre prematura e ofegante. Nunca rimava, nunca fazia sentido, sempre aquele tapa na testa acompanhado por uma sensação de abandono. Dizia que era a ausência. A falta de limite. A necessidade do ponto. Teimava e teimava, usava reticências mas não cedia, deixava o não dito pelo dito. Ao meu modo, fazia minhas orações. E achava que tava claro, que tava bonito. Ficava aliviada. 

Quanto mais corria, mais tempo sobrava, quanto mais palavras gastava, menos se perdia. Tudo se juntava. Eu era denúncia e vergonha, promessa de vida e sonho figurado. Queria tudo, queria o que tudo hoje tenho, pedia e pedia. A todos que por perto estivessem eu pedia, aos minúsculos e aos maiúsculos, aos poderosos e aos inocentes. Eu me debatia. Falava palavras grandes, verdadeiros palavrões. Aos berros, eu exclamava! Me negava a ter voz passiva. A verdade é que já não reconhecia minhas próprias aspas e mais cedo ou mais tarde todos os sujeitos se revelavam ocultos. E assim me fazia de incógnita e me escondia atrás da margem mais uma vez. Ficava de lá espiando, sabia que no fundo só havia uma dimensão. Não tinha para onde fugir. Às vezes me enchia de coragem e inutilmente lutava contra minha própria sentença. 

Assim, assistia minha vida sendo passada por uma mão nervosa que obedecia cegamente ao sonho de mais uma paixão transitiva. Aquela não era eu. Era meu espelho, que hoje vive adormecida no verso da folha. Abre os olhos vez por outra na eterna procura por um objeto direto. Não gosta do que vê. Medo de ser isso mesmo. Receio que os acentos revelem o medo agudo ou a dor circunflexa. Que se dobra sobre um corpo que já não reconheço e que adormece encolhido sobre um colchete vazio. Mas os dedos, estes estão sempre inquietos à procura de uma tecla que traga conforto, uma tecla amiga que aceite a preposição indicada, uma tecla memorável que me torne inesquecível. Uma tecla inesperada que traga resposta para a interrogação da minha absurda sintaxe. 
 


 
  Marcia L. Triunfol
Bióloga, fundadora da organização sem fins lucrativos O DNA vai a Escola e editora associada da revista americana Science.