Dou um pouco de mim nesse instante. Uso palavras, a estranha ferramenta, e única que possuo, para lembrar desse abstrato indecoroso verbo amar. Uso palavras e confesso. Serei prolixa nesse exercício e peço que me evitem para não cansarem. Isso é uma confissão e não nego estar perdida entre lembranças, gostos, e o mistério de flor fúnebre das manhãs depois do amor; do cravo branco, perfume do féretro do amigo. Penso difuso e confuso. Sinto que logo terei de parar e inspirar profundamente para me encher dessa hora primeira do domingo. Só se ouvem pássaros cantando, o resto é silêncio. E o resto de silêncio é o resto que preenche tudo. A manhã muda e perigosa, e que é azul embora não esteja olhando lá fora. Sinto que é azul porque me pesa como só o azul me pesa. 

Com os olhos voltados para a tela, amarrando meu rosto em um cabresto voluntário, é esta a única razão para escrever. Olho para a tela e me fascina sua mudez capaz de compreender minha mudez. Estamos mudas, tela, eu... E a mudez de barulho de louça, de cachorro latindo.

Mudez de manhã de domingo. 

Vou parar. 

Abrir a janela. 

Queimar as retinas no comprimento de onda desse azul. Machucar-me um pouco. Engolir um novelo de coisas secas, sentir arder a garganta e voltar.

Mas primeiro vou comer, e será pão com manteiga que é como comer o Domingo. 

Comi. Depois tive medo, e não abri as janelas. 

E volto a me confessar sobre o pecado que é nunca poder amar o que fica. Alguém deve estar me entendendo. Vou falar de amor, de novo. De novo amor. 

Estou em vias de explodir. Daqui a pouco explodirei. Mas como confessar? 

Peço que me evitem ou cedo se cansarão. 

Essas, são crônicas das manhãs. Manhãs de Domingo. E quer crônica mais lasciva? Quer mais óbvia que a intensidade dos amores com data de partida marcada? 

Preciso de ar. Vou abrir as janelas antes que morra sufocada no cheiro da vela. Acendo-as que é para antecipar a morte; e sentir sempre cheiro de morto no ar. Vou deixá-las assim, fechadas, e sentir que morro ao confessar. 

Depois do amor ou da fé, é só asco o que sinto; e só posso sentir asco. Sinto um nojo tão grande, que vira arrepio. E é como se uma lesma houvesse passado pelo meu braço, e ao lembrar-me, arrepiasse. Lesma passando no braço me dá nojo, como também me enoja o milagre que não vi acontecendo. E sinto arrepios de ânsia se me lembro do amor que sai errado. Lesma passando no braço, deixando rastro... e mesmo que se esfregue até ferir a pele, ainda causa arrepios lembrar.

Paro. 

Choro. 

Releio as crônicas de domingo. Tristeza que se torna poesia e que é belo suportá-la. Preciso delas, crônicas dessas manhãs sem vida, e que é toda viva.

Preciso de morte. 

Caminho pelo cemitério e sou eu esse cemitério. Sou eu nesse silêncio de manhã, cheia de mortos que se despedem e mortos que ressuscitam. Não poderei escrever assim: pálida e trêmula.

Queria me confessar. 
 


 

 

 

Leticia Maria de Oliveira
Nasci na cidade de Palmital (Oeste Paulista) no dia 06/11/1978, por volta das três horas da manhã de uma segunda-feira chuvosa. Após dezessete exaustivos anos, mudei-me para São Carlos onde me formei em física no ano de 1999, pela Universidade Federal. Concluído o curso, iniciei minha pós-graduação nessa mesma instituição.