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Particularmente prefiro pecados mais elaborados porque a pena é a mesma. Como acho o tempo um fator fundamental para buscar a perfeição, muitas vezes decretei alguns feriados nacionais só pra ficar horas e horas namorando. É muito bom, mas às vezes não dá. É pegar ou ficar na mão. Pra comprar cigarros e beber qualquer coisa entrei num desses botecos que, na hora da siesta, ficam às moscas ao largo do Caminho de Santiago. Não lembro mais o nome do lugar porque não vale a pena. Ali não havia nada de especial. Ou melhor, havia sim: a dona do bar. Era uma linda mulher de uns trinta e poucos anos, loira de olhos azuis, imensos, muito profundos. Ou melhor ainda, de olhos espertos, de seios fartos, de pernas tão provocantes que, ao vir na direção da minha mesa, confundiu completamente a trilha dos meus pensamentos. Perdi o ar, o rumo e, principalmente, a pressa. Pensei em suspender qualquer atividade peregrina na hora, em decretar um feriadão peninsular, só pra ficar à disposição daquela mulher que era o avesso da paisagem monótona e árida da meseta castellana. O último freguês saiu e ficamos a sós, trocando muitos olhares e poucas palavras, enquanto ela organizava o balcão, lavava pratos, copos e cinzeiros. Na minha cabeça, pensamentos temáticos: sexo e seus derivados. O instinto e os hormônios cuidavam do resto produzindo palpitação, calafrios de tesão, mãos umedecidas etc. E ela, pensava em quê? Sei lá, mas tive a excitante impressão de que eu era caça fingindo de caçador. Pra puxar mais conversa, mandei um elogio barato porém sincero à beleza de seus olhos, dei um sorriso de esperança e pedi o cardápio. Deu certo! O sorriso voltou em dobro, com dentes alvos emoldurando palavras de inútil modéstia. Nas entrelinhas do diálogo percebi alguma promessa. Fiz o pedido, incluindo mais um chope para espantar o calor e a ansiedade. Olhos Azuis trouxe na bandeja um chope geladíssimo que se derramava e transpirava como eu. Sem querer perder o espetáculo dos lagos serenos daquele olhar onde a minha fantasia já mergulhava à solta, tentei pegar o copo molhado com a mão lisa e desatenta. Um desastre ruidoso: copo e bandeja no chão, chope gelado na roupa, vidro por toda parte.
Bastou uma faísca e pronto: línguas de fogo atingiram o cômodo vizinho, onde, após forte explosão, as vigorosas labaredas se consumiram entre si até a extinção de todas as suas fagulhas. No instante seguinte, voltou a pressa perdida. Ao contrário do provável marido, o peregrino ainda estava longe de seu destino. Para salvar a missão, achou melhor partir logo, antes da chegada do dono da espingarda que ainda repousava friamente num canto daquele quarto que também não era seu. |
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Marcos
Kirst |