Recebeu, pela via internáutica, um plano de ocupação amorosa da terra, em tempos de mobilização dos "sem terra", que a deixou inquieta. O autor, explodindo em expansão de idéias, dirigiu-o, também, aos mais avançados protagonistas da luta agrária, na história da atualidade brasileira. Sobre estes últimos, não se tem notícias do aproveitamento da amorosa contribuição. Todavia, por pouco mais de dois meses, destinatária e remetente, em movimentos de avanços e recuos, formularam ações, visando, quem poderia saber, uma real invasão e ocupação. Era uma frase, um poema, uma brincadeira, que foi enovelando destinatária e remetente, até que, estando internamente assegurado o plano, já não se podia precisar quem seria o destinatário e o remetente, nem, tão pouco, quem seria invasor ou invasora, invadido ou invadida. Na elaboração tática, sendo o plano de intensidade ímpar, foram, um ao outro, fornecendo elementos de íntima identificação. A ligá-los, a posição inteligente e criativa do autor do terno plano – a utopia, mostrada à já não mais destinatária, posto que remetente também era, de uma forma bem humana, bem plausível e convincente. Trocaram impressões sobre seus sentimentos de amor, sobre suas visões de cidadania, sobre sonhos acalentados, sobre risos de crianças, visões de fusão de corpos em cálida e atenta postura, refeições saborosas, abraços imaginários, horários e encontro. A implementação do plano progredia, à margem dos fatos históricos que se sucediam, mas em igual importância de grau. Entre dúvidas, incertezas, expectativas, medos, especialmente daquela que então já não era simples destinatária. O sutil plano exigia forma de comunicação em código para que de dois corpos não fugisse. Um dia marcado amanheceu. Com ele uma camisa vermelha, rubra cor da liberdade apaixonante, harmonia de luta e persistência. Uma cesta de frutas. Necessário, era, estender o plano numa mesa. Escolhido foi, então, um lugar que, urbano, chamava à cor, à vida, à magia. Boa comida e vinho. A timidez, receio, medo – não é possível precisar exatamente – fez com que na mesa apenas se saboreasse o prato pedido, se sorvesse o vinho, se observasse o movimento de mãos. Que estavam inquietas, inquietude impeditiva de descortinar um plano. Ao primeiro contato feito, era de se progredir em outros. Mas matreira fagulha, expectada, desejada mutuamente – é de se acreditar – se antecedeu à discussão das formas de ocupação e invasão. A cesta, levada, de frutas – uva rubi, bagos a estourar e molhar a boca; cerejas, polpa vermelha a se misturar com as vermelhas línguas; maçãs – todas elas frutas da terra vindas, frutas de colocar dedos em lábios e lábios em dedos, parte do caloroso plano que restou, por fim, abandonado. Houve, sim, o toque do amor, a sensação do prazer, o conhecimento da terra, marcas de apertos, abraços pedidos, perdidos beijos em línguas desassossegadas, gemidos sentidos. E depois... e depois o cansaço derivado da impossibilidade plena de realização do terno plano, em suas profundezas mais íntimas e delicadas, em seu sentido mais doce e total, nas suas infinitas possibilidades. Questionou-se, por sucessivas vezes, sobre o seu fazer de impulsos, naquele dia. Pensou até que a via internáutica havia antecipado sensações, encurtado laços que deveriam ser feitos com mais atenção, exigência própria de um plano soberbo. Todavia, deixou-se explodir. Quis experimentar o não plausível, quis fugir de si pelo outro, quis correr do tempo evitando-o. Pretendeu recompor, em instantes, congraçar-se em harmonia, em minutos. Atropelou-se em sua própria ansiedade, como vinha, desde há muito, atropelando sua vida. Doeu-lhe o corpo. Doída a alma ficou, por si mesma, pelo outro, pelo plano.

2000
 


 

 

Adriana Gragnani
Paulistana, ativista da cidadania. Uma assumida mulher da net.