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Recebeu, logo pela manhã daquela sexta-feira, uma mensagem pelo correio eletrônico, que era arrematada pela expressão honni soit qui mal y pense. Foi o começo de um comichão, a tomar sua atenção, fosse porque o som lhe parecesse familiar, fosse pela raiva e ansiedade que a dominavam em situações similares. Honni soit qui mal y pense...ônissuá qui mallll'ipanse... Honni soit qui mal y pense? Sentiu-se malograda, mais uma vez, pelas artimanhas de sua memória, que parecia se desfazer em laços, emblemática forma de conhecimento, escudada na persistente mania de não se fixar em símbolos, dados, referenciais perfilantes. E lhe foi crescendo uma necessidade partida em duas – a busca para si, a resposta com seu possível entendimento para outro. Honni soit qui mal y pense chegou como remendo de vozes longevas, com rosto de olhar crítico mas de suavidade gentil, talvez emergência consciente de ter entrado em sua posse, por algum ato ou gesto ou palavras imponderadas, em algum tempo. Sentiu-se, mais uma vez, solitária em sua reflexão, e mais uma vez se perquiriu. Viu-se como que construída em vácuo, na suspensão pronunciante do honni soit qui mal y pense. E suspensa ficou auscultando sua memória... partir c'est mourir un peu.... e nessa partida, e se parte e se busca, tracejada fica alguma nesga, sinais trocados entre as gentes, impressões entranhadas que restam, restam, restam sempre, mesmo silentes. A que sinais respondemos e como ponderamos, modos de revestidas sentenças carimbadas de insanidades, de impulsos, de raivas doidivanas. Honni soit qui mal y pense. E pelo sussurro do som foi levada... Je crois entendre encore caché sous les palmiers, sa voix tendre et sonore comme un chant de ramiers... história de amor que liga o pescador à concha, que entreaberta faz saltar a pérola, infinitamente bela, sem mantos e véus. Ah...voltar, voltar ao mais distante para no regresso do agora trazer nas mãos suavidades, delicadezas, inumeráveis doçuras, fazer do gesto a compreensão do todo, desnudadamente puro, completamente tudo. Teimosamente belo pelo contido no que sobra belo. Um gesto, uma fita, um elo que envolve línguas, que circunda mundos. Que vislumbra guerras, que festeja a paz, de momentos de cem anos, de tempos de um dia. Um dobrar de corpo em reverência de entendimento, cúmplice mão estendida, sem julgamentos daquilo que não se alcança a compreensão. Honni soit qui mal y pense. 15.1.2002 |
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Adriana Gragnani |