Ela se recostou na cadeira e manteve o olhar na janela, naquele mar de luzes que se encapelava a perder de vista. Nunca se cansava de olhar, nunca se cansava de prender a respiração ante o espetáculo que lhe tocava o coração com um espanto de primeira vez. "E um dia olharemos o mundo de prédios altos como nuvens", pensou, não sabendo bem de onde emergia aquela memória meio ensombrecida. Franziu a testa no gesto antigo e inconscientemente levou a mão à ruga que trazia desde não sabia quando, marcando cada inquietação, cada ansiosa expectativa quotidiana. Os velhos arroubos de poeta... Por um instante, teve a sensação de que se fechasse os olhos perceberia no ar um sutil perfume de flores, orquídeas talvez, como num poema antigo, dos muitos que escrevera antes de chegar a esse país de língua diferente. Poemas cujo destino tinham sido a máquina de triturar. Poemas que não ousara mostrar a ninguém, como jamais ousara admitir as emoções que os haviam gerado. 

Acendeu um cigarro e fez a cadeira girar para um lado e para outro, adorando o silêncio do escritório, a penumbra macia, a mesa da secretária finalmente deserta, o telefone milagrosamente emudecido. Era a sua hora, o momento que reservava para si depois de um dia estafante de decisões que muitas vezes não queria tomar, de burocracia infinda e chatice desmedida. "Por que não fiquei no Brasil?", perguntou-se de repente, soltando a fumaça e observando como se enovelava para o teto. "Porque você soube desde o primeiro momento que não tinha nenhuma chance, não depois de Júlio", respondeu de imediato aquela maldita vozinha que não lhe dava folga desde que terminara a análise, vinte anos antes. Terminara a análise... Bela piada. Pois não estava eternamente se colocando sob a mira do microscópio, implacável, decifrando aqui, racionalizando ali? Sorriu, prestando atenção ao reflexo no vidro, achando bonito o rosto que lhe acompanhava a expressão. Um boy outro dia cruzara com ela numa esquina, mirando-a de alto a baixo, para em seguida disparar: "Tudo em cima, hein, coroa?" E ela lá, estatelada diante do semáforo, olhando a cara do menino como se ele tivesse acabado de lhe dar um milhão de dólares. Ou uma orquídea rara. 

De novo as orquídeas. De onde vinham essas imagens sorrateiras, insinuando-se sem aviso naquela noite, justo naquela noite? Olhou a data no calendário, antecipando o que já lhe voltara à mente. Dez de setembro. Engraçado que tivesse passado tantos anos se dizendo que estava curada de Júlio, que se libertara, e tudo voltasse agora, como um pacote sem remetente que se recebe pelo correio... Fechou os olhos, querendo ressuscitar a imagem do rosto dele e percebendo que não conseguia. Era agora só um vulto, uma sombra, alguém que invadira sua vida, virara tudo de pernas para o ar e depois desaparecera. Alguém que lhe enviava, todo dez de setembro, uma orquídea para lembrá-la de que era a véspera do grande dia. O aniversário de encontro. No dia seguinte, ela faltaria ao trabalho, ele também, e seriam 24 horas de total e desenfreada entrega, só os dois no paraíso, e não teriam nome nem história, nem passado nem futuro e não se importariam com nada que não fosse a desenfreada busca um do outro, até se perderem e perderem o fôlego. Não podiam ficar juntos, não se viam mais durante meses, mas naquele dia especial se entregavam, não resistiam, não conseguiam resistir. O único jeito de escapar, lembrou-se, fora fugir. Partira, sem saber direito o que faria, mas certa de que era sua sobrevivência, de que merecia uma vida inteira, uma carreira, o sucesso ou o fracasso, qualquer coisa que a salvasse daquela paixão impossível.

 Quantas vezes não quisera voltar... Ou telefonar... Ou escrever...

A saudade golpeou fundo, tirou o ar. Ah Júlio, Júlio... Tantos vieram depois, nenhum como ele. Nenhum. Porque sempre o procurara nos outros, era sempre ele, Júlio, que precisava reencontrar em cada abraço, em cada pele que tocava, em cada beijo. 

Apagou o cigarro no cinzeiro com um gesto brusco, desligou a luminária, levantou-se já vestindo o blazer. Mas a antiga sensação ainda a rondava. A idéia de que se pensasse com força, se o chamasse com toda a vontade, ele a ouviria. 

Será que ele se lembrava, também? Seria ele que a chamava, do outro lado do continente, tocando em seu sonho, fazendo despertar tantas imagens e sensações? Quase sem se dar conta, começou a cantarolar baixinho.

"Por eso no habrá nunca despedida, ni paz alguna habrá de consolarnos... El paso del dolor, ha de encontrarnos de rodillas en la vida frente a frente... y nada más..."

Lançou um último olhar à sala, apagou a luz, saiu e trancou a porta. Enquanto caminhava até o elevador, uma certeza já ia se formando em seu íntimo. No dia seguinte, viria mais cedo, chegaria às 7, antes de todos os outros funcionários, e iria ligar para o antigo número de Júlio no Brasil. Se ele ainda vivesse no mesmo endereço, se ainda tivesse os mesmos hábitos, conseguiria alcançá-lo antes que saísse para o trabalho. Queria ligar dali, do coração do mundo, do alto da torre que conquistara como uma guerreira e dizer-lhe... o que lhe diria? 

Que vencera, construíra uma carreira, envelhecera bem, era feliz? Era feliz? Não sem ele. Mas não lhe importava mais que Júlio não a tivesse querido de modo igual, que não tivesse tido coragem para romper todos os laços e enfrentar com ela a grande aventura. Agora não importava mais, percebeu de repente. A mágoa ficara para trás, restava apenas o amor, e era doce, era pleno, era inteiro, era dele.

Ao sair dirigindo pelas ruas de Nova York, olhou pelo espelho retrovisor as torres gêmeas se distanciando e pensou que seria sim, muito bom, ligar a Júlio no dia seguinte, do seu escritório, vendo o sol nascer sobre Manhattan.

***
Este conto é da década de 1980. Fiquei surpresa de reencontrá-lo agora na gaveta dos esquecidos, com um final que a História escreveu.

 
 

Liz Mercadante
é editora da revista eletrônica O Caixote e nas horas vagas brinca de red cat.