Quarta feira, cinzas, madrugada. Uma chuva fina precipita-se lentamente enquanto caminha de volta para casa, cansado, pedaços de serpentina enrolados em volta do pescoço – gravata gaiata e despencada –, em meio a um bando trôpego e disperso. Mudo, abatido pela embriaguez de todos os seus sentidos, descomposto, assim está. Sua fragilidade é uma fratura exposta, osso partido perfurando a carne, ferroando. 

Fim de carnaval, jogar fora uma máscara, substituí-la logo em seguida. Simular a dor, mastigar a sensibilidade, festejar a indiferença, com a convicção de que isso não é possível. Busca no peito um consolo que fosse. Não acha. Joga fora a lata de cerveja vazia e abriga-se da chuva em uma marquise, junto com algumas pessoas que esperavam sua condução. Olha os veios de água e os reflexos das luzes na pista molhada.

Tantas mulheres e ele só. Pior ainda: justamente no carnaval. Pensou também nos restaurantes, boates e em um modo de vida que ele apenas vislumbrava no néon da publicidade ou no brilho hipnótico da televisão. Mais do que todas as outras coisas, mais até do que o ronco de seu estômago, tapeado com bobagens diversas em horários inconstantes, o desejo não abria espaço para muitas outras considerações.

Essas eram apreensões mais ou menos graves ao chegar em casa após a noite de trabalho temporário de carnaval que arrumara. Desempregado, não fez pouco do bico proposto para trabalhar no bar de um clube na Tijuca. Precisava daquele dinheiro.

Porém, duro mesmo, fora assistir ao prazer e desvario alheio: as passadas de mão furtivas e escancaradas, a sacanagem geral de que ele fora privado, e, talvez, o pior de tudo: a indiferença das mulheres por quem ele babou a noite toda.

Uma noite inteira, inteirinha, só ali, vendo aquele mar de peitinhos saltitantes, chamativos e apetitosos; coxas generosas e saliências nadegais das mais variadas, todas bem dimensionadas – rijas e tostadas, algumas um pouco gordas, outras mais consistentes, outras ainda um tanto magras, porém todas, sem exceção, lembrando-lhe a todo momento do seu prolongado jejum.

Em seu íntimo, na manhã seguinte quando voltava da jornada de trabalho, uma dolorida constatação ocorreu-lhe: "Toda aquela gente bonita e alegre, que mais parece de comercial ou de novela e eu aqui, fudido, triste e sem saída". 

Mais forte do que pudesse controlar, naquele momento, mais do que tudo, desejava saciar-se de qualquer coisa que fosse, entre todas aquelas que faltavam em sua vida; saborear um naco ínfimo de prazer e felicidade que pudesse engolir. 

Não voltaria aquela noite para trabalhar. Também tinha direito à sua cota mínima de felicidade. Já que era carnaval e ele pouco ou nada tinha a perder decidiu viver o momento e se esquecer de todo o resto, aproveitando o último dia da festa.

Dormiu um pouco durante a tarde, levantou-se, saiu à rua, entrou em um boteco e pediu, nessa ordem, um café e um traçado que tomou em dois goles. Depois, saiu vagando, do Catumbi, onde morava, em direção ao centro, indo pela Presidente Vargas. Na Praça XV encontra um bloco. O inesperado tinha a forma de uma morena, cabelos encaracolados e formas generosas, de quem ele se aproximou. Obteve um sorriso receptivo. Agora pula ao seu lado, encostando seu corpo ao dela. O bloco caminha pela Primeiro de Março. Puxa um papo-furado qualquer. Brinca com os cabelos da pequena fantasiada de havaiana, que não rejeita a intimidade. 

O bloco avança pelo Castelo em direção à avenida Rio Branco. Sua mão, tímida, volteia-lhe a cintura e ela a segura. Ele insiste e enlaça totalmente seu quadril, puxando-a para si. No Passeio Público arranca-lhe o primeiro beijo. O bloco prossegue em seu baticum indo na direção dos Arcos da Lapa. 

A paisagem urbana em volta era-lhe totalmente indiferente. Nada importava naquele momento em que ele sorvia avidamente o beijo da garota fantasiada de havaiana. Segurou-lhe o rosto entre suas mãos afagando seus cabelos enquanto a beijava. Sua boca mergulha pela curva da nuca e sua respiração é um movimento único de inspiração que procura reter nos culhões, pulmões, no cérebro, o cheiro daquela mulher. Ela lhe retribui as carícias.

O bloco, como um balão que perde paulatinamente ar, vai minguando com a debanda de seus erráticos integrantes, próximo ao prédio Mesbla, na rua do Passeio. Alguns remanescentes do desfile das escolas de samba ainda perambulavam e enchiam os poucos botecos abertos.

Suas mãos descrevem um movimento ascendente tocando os seios e retirando a tira de pano que os cobre. Em seguida inclina-se, não de todo rápido, e os beija, começando pela parte mais externa, e passa a chupá-los em um movimento circular em direção aos mamilos intumescidos da garota fantasiada de havaiana. Na penumbra do quarto pára durante um breve momento para admirar-lhe o corpo.

O bloco, ou o que restara dele, chega aos Arcos da Lapa. Por cima dos arcos passava o bondinho da linha Silvestre, por cima das luzes do Passeio Público e da cidade, das nuvens, surge a lua e no seu rastro azul é possível vislumbrar algumas estrelas. Ao redor movimentam-se um ou outro folião cambaleante ou sentado no chão. Um alarido de horda. Parece outro bloco.

Sua boca agora migra aflita dos seios até o baixo ventre da menina fantasiada de havaiana. Toma-lhe a bunda com a delicadeza de quem segura uma nobre porcelana, afaga-a enquanto seu rosto se esmaga de encontro ao vértice da xoxota. O alarido está mais perto, na porta do seu quarto, que é arrombada. Um índio pula na sua cama e arranca-lhe dos braços a havaiana.

Fora tão rápido que mal se dera conta. A fúria carnavalesca do Cacique de Ramos atropelou o já minguado bloco no qual ele se encontrava, agora em plena rua do Riachuelo. Despertou do seu devaneio com o pele-vermelha que passara pulando e num átimo agarrara a sua prenda, puxando-a pelo braço e que rapidamente se distanciava. Ela ainda olhou para trás, sorriu, levantou seus ombros e meneou a cabeça, aparentemente conformada com o novo fluxo das coisas, talvez embriagada pela correnteza humana que a arrastava. 

Ainda tentou penetrar a sólida barreira de corpos mas foi violentamente empurrado. Parou na calçada e ficou na ponta dos pés na esperança de ainda vê-la. Rápido, rápido, a vaga se afastou.

Instintivamente levou mão ao bolso. Encontrou uma nota totalmente amassada e algumas moedas, que insistiam em escorregar de seus dedos enquanto ele as contava. Comprou uma latinha de cerveja e se pôs a caminhar em direção de casa, enquanto uma chuva, antes fina e agora repentinamente forte, se precipitava por toda a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
 


 

 

Luiz Fernando Santos
Jornalista, natural do Rio de Janeiro, há 12 anos vive em São Paulo.
Especializado na área de tecnologia, tem uma diversidade de interesses, abrangendo cinema, música e, naturalmente, literatura. Seu site concentra informações profissionais e alguns textos de reportagens:
sites.uol.com.br/lfsantos