Eles eram mais um daqueles casais que procuram os grandes centros urbanos para resolver problemas que sua pequena cidade não pode resolver.

Ele, José Machado, apesar de ainda não ter chegado aos 50, parecia bem mais velho, por trabalhar na lavoura. Ela, Maria da Luz, pequena e franzina; tão frágil que parecia correr o risco de quebrar-se ao meio. Ao contrário do marido, tinha sido poupada do sol. Tinha 37 anos, mas poderia passar por menos, se não tivesse tanto sofrimento expresso em seu rosto.

Tinham deixado a propriedade da família aos cuidados de parentes, para buscarem na capital um médico que desse paz à pobre mulher.

Desde pequena padecia de grande sofrimento, primeiro o problema com o leite, foi o primeiro bebê da região a ser criado com caldo de galinha desde que tinha um mês. Depois os desmaios que ninguém sabia explicar.

Rezadeiras e homens santos benzeram de lombriga, bucho virado, mau olhado, zambudeira e tudo o mais que sabiam, mas nada dos desmaios pararem.

Um farmacêutico, filho de um fazendeiro, em umas férias de Natal, se interessou pelo caso. Cientificamente fez perguntas e anotações. Procurava um padrão nos desmaios, conforme ele explicou à família. Durante os dias em que esteve na fazenda do pai, foi avisado de cada desmaio e acorreu à casa, a cada um deles, sempre fazendo perguntas, tomando o pulso da mulher, observando o ambiente e nada de encontrar um padrão, algo que relacionasse os eventos ou pudesse explicá-los.

Agora, na capital, Maria da Luz já havia percorrido vários médicos, dos pagos e dos não pagos; tinha feito todos os tipos de exames. Tinham lhe enfiado borrachas por todos os buracos do corpo, conforme ela contava a quem se dispusesse a ouvir sua historia. Mas sempre fazia questão de ressaltar que, se Deus não tinha lhe dado saúde, tinha lhe dado felicidade no marido que encontrou. Contava como o marido a levava a todos os lugares onde alguém dissesse que podia haver uma esperança para ela. E para os mais íntimos, confessava que se sentia em dívida com ele, por nunca ter podido lhe dar filhos.

Apesar de tudo, Maria da Luz não era uma pessoa triste; nos períodos em que ficava sem os desmaios, era uma pessoa alegre, não de uma alegria expansiva, mas sorria e até cantarolava, e só não era mais ativa, porque o problema de estômago não deixava que ela ganhasse forças.

Em tudo, só tinha uma coisa que a feria no fundo do seu coração; era quando a taxavam de amaldiçoada ou diziam que tinha encosto de espíritos do mal.

Desde pequena, tinha ouvido essas coisas das pessoas. Chorava e enrodilhava-se nas pernas da mãe. Não se sentia uma pessoa má e não entendia por que Deus a deixava abandonada.

E ali estava ela e o marido, mais uma vez em frente a um novo médico:

– E então dona Maria, qual o seu problema?

– Ela tem desmaios doutor, e não pode comer de tudo, tem que comer só as comidas certas, pra não pôr tudo pra fora em seguida.

– E como são esses desmaios?

– Ela tá boazinha doutor, e de repente cai, pode ser de dia, pode ser de noite, não tem hora.

– A senhora percebe que vai desmaiar, tem algum sinal, uma dor, algo assim?

– Ela não percebe nada doutor, quando vê, a gente já socorreu.

– E o problema com a comida?

– Ela não pode beber leite, nem comer queijo branco, manteiga pode, não come arroz, só se for com molho vermelho, arroz doce come só se tiver muita canela, mandioca come, mas não pode ver crua, deixa-me ver... Qualhada também não e manjar de coco, mas se tiver calda de ameixa pode comer, se não comer nada disso não passa mal.

– E o problema de voz, quando começou?

– Que problema de voz, doutor? Ela não tem problema de voz.

– Ah, desculpe! Como até agora não ouvi dona Maria falar, pensei que tinha problema de voz também.

– Ela não fala porque é envergonhada, doutor.

– Ah! Mas não precisa ficar envergonhada, dona Maria, eu estou aqui para ajudar a senhora, vou fazer o melhor que puder para entender o seu problema e tentar encontrar uma solução. Vamos fazer o seguinte, o seu marido vai lá fora fazer sua ficha com a mocinha da recepção, enquanto nós aqui vamos conversando, certo?

Maria da Luz olhou pra o marido, nunca tinha permanecido sozinha em um consultório, nem durante os exames que fazia. O marido sempre ficava junto, principalmente para ajudar na hora em que desmaiava.

Por falar em desmaio, percebeu que ainda não tinha desmaiado. Poucas tinham sido as vezes em que não tinha desmaiado em um consultório, ou hospital, centro espírita ou coisa parecida.

O marido ficou apreensivo, pois aquela era uma situação nova, também para ele.

Ao perceber o que se passava, o médico levantou-se e, muito gentil, foi encaminhando o marido para a porta e pedindo para a recepcionista que abrisse um prontuário para a paciente.

Sozinha na sala, Maria continuava temerosa. Observando os móveis e o médico, pensou que aquele era um consultório um pouco diferente; não tinha armários de vidro com remédios, nem mesas de exame, nem cheiro de injeção. Na verdade era um lugar bonito, com quadros na parede e flores nos vasos. Ele também era um médico diferente e se não tivessem avisado, não saberia que ele era o médico, porque não usava roupa de médico e não tinha o aparelho de ouvir o coração no pescoço ou na mesa ou no bolso do avental; ele nem usava avental branco. Lembrou-se então do farmacêutico, de quando era menina.

– Está pensando em quê, dona Maria?

– Em nada não doutor.

– Estava olhando pra mim, com jeito de quem está com o pensamento bem longe.

– O meu marido vai voltar?

– Vai sim, é só ele acabar de fazer sua ficha. A senhora está preocupada de ele não voltar?

– É que ele é que sabe explicar melhor o que eu tenho...

– Tudo bem, ele vai me explicar depois, quando voltar ou em outras consultas, enquanto isso eu gostaria que a senhora me contasse como são esses desmaios, quando eles acontecem...

Lembrou-se outra vez do farmacêutico. Achou estranho, porque sempre ouvia os médicos fazerem estas mesmas perguntas para ela e o marido, mas era a primeira vez que se lembrava do farmacêutico ao ouvi-las.

– Outra vez está com o olhar de quem está longe... Pode me contar onde estão seus pensamentos?

– O senhor vai achar bobagem...

– Não vou não, pode falar.

– É que eu estava pensando que o senhor me faz lembrar de um farmacêutico que esteve em nossa casa quando eu era mocinha.

– Interessante, e como era esse farmacêutico? O que ele foi fazer em sua casa?

– Ele foi tentar descobrir a minha doença, mas ele não era médico, era farmacêutico.

– Certo, e no que eu me pareço com ele?

– Ah! O senhor me desculpe falar, mas é que o senhor não parece médico... Sem querer ofender...

– Não pareço?

– Não senhor, não usa roupa de médico, aqui não parece hospital onde tudo é branco e cheira a injeção.

– E o como você se sente aqui neste lugar que não parece hospital, com um médico que não parece médico?

– Meio estranha, eu ainda nem desmaiei...

– Esperava desmaiar?

– Já estou acostumada, é só entrar em hospital e consultório, que logo desmaio.

– Só desmaia nesses lugares?

– Não, não tem lugar certo, pode ser na cama na hora de dormir, no quintal quarando a roupa, ou vendo bolo de aniversário e casamento, e criancinha e noiva. Também não posso fazer pão ou bolo de farinha branca. E tem algumas pessoas que quando eu vejo, eu desmaio, mas outras vezes eu vejo elas mas não desmaio.

– E consegue encontrar alguma coisa em comum em todas estas coisas e pessoas?

Maria sorriu, lembrando-se outra vez do farmacêutico.

– Está sorrindo?

– É que o senhor me lembrou de novo o farmacêutico... Meu marido não vai voltar?

– Vai sim, é que tem mais gente pra fazer ficha. Conte-me, o que lembrou do farmacêutico?

– É que ele fazia essa mesma pergunta para meu pai e minha mãe...

– E o que eles respondiam?

– Eles não sabiam o que dizer...

– E a senhora, o que diz?

Maria hesitou... Sempre tinha tido vontade de falar sobre isso com algum médico, mas parecia uma coisa tão absurda, que tinha medo de ouvir algo terrível como resposta. Como poderia dizer que desmaiava ao ver o branco, não o branco pequeno, mas o branco grande...

E se ele dissesse aquilo que ela sempre tivera medo de ouvir: que tinha medo do branco porque era uma pessoa do mal...

– Sabe, me parece que a senhora tem algo a dizer sobre isso...

Naquele momento, o marido entrou se desculpando e explicando que moça tinha demorado.

– Tudo bem, nós estávamos aqui conversando sobre os desmaios de dona Maria, e ela estava me contando quando eles acontecem. Quer continuar contando, dona Maria?

– Não tem mais nada não pra falar, doutor...

O médico preencheu guias de exames e empurrou na direção do casal. O marido pegou os papéis, perguntando onde os levaria.

O médico explicou e marcou o dia de retornar.

Os exames não apresentaram nenhum distúrbio que justificasse os desmaios. Maria da Luz seguia indo nas consultas.

Com orientação do médico, passou a dormir apenas com lençóis e cobertas coloridas, também passou a usar um par de óculos que ele lhe deu, não eram de grau e tinham lentes rosadas, de modo que Maria via tudo um pouco colorido. Isso tinha ajudado a diminuir os desmaios, mas não os havia curado, porque eles voltavam a acontecer se ela não usasse os óculos.

Embora ficasse feliz por já não desmaiar tanto, Maria sentia-se cada vez mais angustiada porque seu temor parecia cada vez mais perto da confirmação: seu problema era o branco e, certamente, porque não era uma pessoa do bem...

Um dia, Maria, que já começava a andar sozinha pela cidade, foi no ginecologista, porque sabia que toda mulher tinha que ir, pelo menos uma vez por ano. Quando entregou a Certidão de Nascimento para a funcionária fazer sua ficha, isso mesmo, Certidão de Nascimento, porque Maria não tinha se casado. Sabia que não poderia usar o vestido branco de noiva e isso lhe causava uma mágoa tão grande que decidiu que se não podia casar de noiva, não se casaria, e diante do problema, noivo, família e amigos entenderam o desejo dela.

Então, quando entregou a Certidão de Nascimento, a funcionária comentou que era engraçado a mãe e a avó de Maria terem o mesmo nome.

Maria corrigiu, explicou que a mãe era Maria da Graça e que a avó era Maria de Jesus. Mas a funcionária mostrou a Certidão, apontando para os nomes de mãe e avó, constando como Maria de Jesus.

Maria nunca tinha percebido isso; na verdade, nunca tinha lido sua Certidão de Nascimento inteira.

Quando voltou pra casa, Maria, brincou com o marido, dizendo:

– Sabia que minha avó é minha mãe?

O marido, lívido, deixou cair o copo que tinha na mão e balbuciou:

– Quem te contou? Não era para você ficar sabendo disso!

Maria não respondeu, sentou-se, fitando o marido e esperando, porque certamente, não era de um simples erro de Certidão que ele estava falando.

– Oh meu Deus! Como é que você soube disso, Maria?

– A moça do posto de saúde me falou.

– Que moça é essa, Maria? Ela é da terra de sua mãe? Ela conhece a nossa família?

– Fique calmo, homem, e me conte, porque eu quero ouvir a historia toda.

O marido tremia, jamais imaginara um dia estar naquela situação. Temeu pela saúde da mulher, imaginando que ela cairia morta ao saber de tudo. Mas ela continuava sentada e esperando.

– Está certo, mas quero que você fique calma, porque nós todos só pensamos no seu bem.

– Fale, José.

– Bom, quando meu pai viu que nosso namoro era sério, ele me chamou para uma conversa. A preocupação dele era a sua doença, quer dizer, a sua saúde. Ele me disse pra não acreditar no que o povo falava, de você ser amaldiçoada, porque sua história era muito triste, mas ninguém poderia saber.

– Continue...

– Ele contou que o pai dele, o velho Leopoldo Machado, uma noite, chamou a ele e seu irmão João...

– João meu pai.

– João meu tio, que você cresceu achando que era seu pai. Pois bem, meu avô Leopoldo chamou meu tio João e meu pai Jorge, e disse que uma coisa muito séria tinha sucedido. Ele e o irmão dele, o velho José tinham matado o queijeiro e a Maria de Jesus.

– Minha avó?

– Na verdade, Maria de Jesus era tua mãe e o queijeiro era seu pai, você tinha um mês quando o velho José descobriu o caso deles. Contou para o meu avô Leopoldo e dois foram dar cabo deles. Chegaram na casa do queijeiro e encontram os dois lá, tua mãe com você no colo. O queijeiro tentou se defender com uma espingarda, mas não deu tempo, de facão e machado, eles mataram os dois. Na briga, você caiu do colo de sua mãe, dentro da tina de qualhar o leite. Meu avô só percebeu um tempo depois e tirou você por uma perna, quase afogada. Ele sacudiu pra ver se você tinha morrido e então você chorou. Teu avô, José, estava tão contrariado, que mandou ele largar você pra morrer na tina de leite, mas meu avô disse que você era inocente e não tinha culpa nenhuma. Levou você pra casa e chamou ao meu pai e o meu tio João. Disse que você tava no quarto dele e que não sabia o que fazer. O meu tio João já estava casado com a Maria da Graça, prima dele, filha do velho José, que você conheceu como tua mãe. Eles já tinham um filho.

– O meu irmão Leo.

– Bom, na verdade o Leo é seu sobrinho, porque a Maria da Graça era tua irmã por parte de mãe. Meu avô Leopoldo deu dinheiro pro meu tio João comprar uma propriedade um pouco mais retirada, de modo que todos pensassem que você era filha deles. Fizeram segredo de você estar na casa, até se mudarem.

Maria da Luz sentia o corpo todo tremer. Mesmo não tendo nada branco por perto, pensou que ia desmaiar. Sentia o estômago subindo para sair pela boca. Desatou num choro convulsivo, como nunca tinha chorado, apesar de todo o sofrimento de sua vida.

Passado um tempo, o marido, abraçado a Maria, voltou a perguntar quem era a moça que tinha contado para ela sobre a mãe.

Maria contou sobre a confusão dos nomes na Certidão de Nascimento e o marido percebeu que não era bem o que ele tinha entendido.

Maria mais uma vez agradeceu a Deus pelo marido estar em sua vida, pois graças a ele, por confusão ou não, tinha conhecido sua história. Contar para o médico que lembrava o farmacêutico, e entender como aquele trauma da morte na tina de leite tinha repercutido em sua vida fizeram com que aos poucos Maria fosse deixando de usar os óculos rosados.

Três meses depois, voltaram para a cidade deles. Maria se corresponde com o médico e está começando a pensar em se casar, de branco e de noiva, mas isso ainda é uma idéia muito moderna para o povo de sua cidade.
 

 

 

 

Maria M. F. Duarte
É de SP e até agora só tinha escrito relatórios técnicos.