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Sarita tinha encontrado o amor da sua vida. Com apenas dezesseis anos, era o que pensava. Era paixão indescritível e dominava toda a sua razão. A paixão funcionava à toda, como um vulcão recém-acordado. O consorte, ou se preferirem, o amante, pois a amava, era o filho do dono da padaria mais famosa da cidade. Os encontros fortuitos em época de repressão, a sexual, eram nos fundos da padaria, onde se amavam. Tinha cheiro de farinha e açúcar. E lá ficavam eles, esbranquiçados de farinha, açúcar e amor. Hoje aos 45 anos, Sarita, quando sente o aroma de pão saindo do forno ou de farinha e açúcar que se insinuam no ar, estremece. Como se todas as emoções vividas voltassem intactas e seu corpo as revivesse. Sarita teve sorte, pois sua memória é associada aos sentidos. A todos os cinco: tato – envolvida por farinha e açúcar; olfato – pão saindo do forno; visão – captando imagens de momentos jamais esquecidos; audição – sons do amor, abafados e escondidos e o paladar... Ah! O paladar, cheio de encantos e magias que se rendiam sob o gosto de açúcar, farinha e beijos. Essa mulher de sorte viveu na adolescência uma das experiências mais sensuais e afrodisíacas de sua vida. E nem foi preciso fazer como mulheres de certas regiões rurais da Grã-Bretanha para ter essa conquista. Estas, as bretãs, preparam uma mistura de farinha, água e manteiga, salpicam com saliva e colocam a massa obtida entre as pernas, para que fiquem ali moldadas as suas partes íntimas. Assam e oferecem o pão ao desejado por elas. Desde que mundo é mundo, procura-se incansavelmente por fórmulas, poções, jogos, magias e substâncias que venham despertar o desejo amoroso e a fertilidade. Cleópatra valia-se da mistura de uma suave pasta de mel e amêndoas moídas. O preparado, em suas partes íntimas, era lambido por escolhidos que ela mesma selecionava. Barbatanas de tubarão, testículos de mandril, urina de virgem, olhos de salamandra eram alguns dos ingredientes que usavam os antigos para acender a chama do amor carnal. Em outros tempos, além de poções ingênuas, houve as que causavam sérias complicações, levando à morte. Eram as misturas e elementos venenosos como a cantárida, produto feito das asas trituradas ou macerado de um coleóptero verde dourado brilhante ("mosquinha azul"). Extremamente venenosa, afeta a uretra, causando ereções persistentes porém dolorosas. O pó resultante chama-se cantaridina. Marquês de Sade em um dos seus festins serviu bombons recheados com minúsculas doses de cantaridina, sendo condenado à morte pelo ato e por isso teve de fugir para a Itália. A mandrágora, uma raiz – já mencionada na Bíblia para combater o cansaço sexual – era na Grécia Antiga conhecida como "erva-de-Circe", por ter sido, segundo a lenda, a substância usada pela famosa feiticeira do Olimpo para seduzir Ulisses e seus marinheiros. Produto altamente venenoso. A valeriana, que em excesso causa apatia, sono fora de hora, perturbação nas idéias e tédio no amor foi, no tempo da Inquisição, considerada uma raiz maldita e deixada de lado. Há momentos em que o desejo diminui em função do que se usa. São os anafrodisíacos, em outras palavras, são os que fazem a libido diminuir e parece que tudo fica na "cor cinza"; sem graça. Há exemplos na literatura erótica antiga. Vários textos recomendam jejum total e abstinência rigorosa pelo menos durante seis dias, para incrementar o desejo. Outros anafrodisíacos são: o resfriado comum, um homem nu com meias, mulher com rolos na cabeça, a televisão e o cansaço, e outros tantos. A literatura é um meio pelo qual muitas vezes se dá vazão à imaginação erótica. Livros ou textos que esparramam o anseio de aquecer o desejo amoroso e despertar a sexualidade existente em todos podem ser considerados como uma "literatura afrodisíaca". E não se podem aqui esquecer os manuais sexuais antigos, tais como: Kama Sutra, com orientações sobre o amor, o sexo e o contorcionismo. Foi escrito entre 493 e 498 pelo teólogo indiano Mallanaga Vatsyayana. Há um capítulo sobre receitas: "misture partes iguais de manteiga, mel, açúcar, alcaçuz, o suco do bulbo da erva-doce e leite". O néctar resultante dessa mistura traria um poderoso vigor sexual; o alcaçuz incita a glândula supra-renal a produzir os hormônios sexuais. Outra recomendação é "comer muitos ovos mergulhados na manteiga e depois no mel [...] faz o membro ficar ereto por uma noite inteira". Ananga Ranga, escrito na Índia no século XV. Um manual que aborda desde a descrição das zonas erógenas masculinas e femininas até o ciclo da paixão erótica conforme as fases da lua. O Jardim das Delícias, manual escrito no século XVI na Índia, relata além dos diferentes tipos de vaginas, a história de um homem chamado Abou el Keiloukh, que ficou com o pênis ereto por trinta dias ininterruptos. É dessa obra o trecho: "Antes de iniciardes o trabalho em vossa esposa, excitai-a com entretenimentos, de modo que a cópula possa terminar em satisfação mútua. Assim, será bom que brinqueis com ela antes de introduzirdes vossa verga e consumardes a coabitação. Deveis excitá-la, beijando-lhe as faces, sugando-lhes os lábios e acariciando-lhe os seios. Prodigalizai beijos em seu umbigo e coxas e friccionai suas partes baixas. Mordei seus braços e não negligenciai nenhuma parte do corpo; colai-vos a seu peito e mostrai vosso amor e submissão". O conceito de afrodisíaco – qualquer substância ou atividade que tenha por fim despertar a sensualidade e o desejo amoroso – é vinculado à cultura e, portanto, à educação que cada um recebeu. Para os mais "sérios" e ditos "virtuosos" de certas sociedades ocidentais cristãs, o simples mencionar da palavra "afrodisíaco" já é considerado como perversão. Do ponto de vista científico, afrodisíaco é considerado apenas como o elemento capaz de aguçar sensações sexuais no corpo humano, por meio do aumento do fluxo sangüíneo que produz excitação cerebral e estimula a espinha dorsal inferior ou causa alteração na uretra. (E os órgãos oficiais afirmam que não existe nenhum medicamento e/ou droga capaz de estimular o corpo humano das maneiras como se descreve.) Isabel Allende, em seu livro Afrodite, contos, receitas e outros afrodisíacos, diz que os afrodisíacos funcionam por sugestão – e exemplifica sugerindo a ingestão de um órgão vital de outro animal pelo homem, como se assim este pudesse adquirir a força daquele. Do mesmo modo como os nomes franceses de muitos pratos – champignons à provençale (que não passam de cogumelos com alho) – despertariam o gosto e o prazer de saboreá-los. Afrodisíacos, enfim, funcionam por associação – porque nos recordam algo erótico. Esse é o caso de Sarita com suas lembranças de farinha, açúcar e amor. Fazem lembrar de aromas, sabores, texturas e sensações sexuais. E por analogia – como as ostras em forma de vulva ou o aspargo em forma de falo. Apesar de que no livro Receitas eróticas para uma vida saudável, Arabella Melville credita o poder afrodisíaco das ostras às substâncias nelas contidas. Os afrodisíacos podem ser a chave da porta que, aberta, libera inibições puritanas e faz usufruir os deleites que a natureza oferece. Lembremos de Sarita e de suas recordações. Hoje, quando ela sente o cheiro de pão recém-assado o seu corpo estremece, as pernas fraquejam, os batimentos cardíacos aumentam e todo o metabolismo se altera. Assim é com todo mundo. Quem não fica seduzido por algum aroma? Talvez porque certos aromas estejam intimamente ligados a bons momentos vividos no passado e signifiquem tanto. O nariz é capaz de detectar mais de dez mil odores. E é essa a razão de nosso olfato ser tão poderoso e importante para a sexualidade. Onde começa o paladar e termina o olfato? A tentação do café não nasce do sabor... E sim do aroma que ele deixa no ar. Cleópatra, sabendo do efeito dos aromas, mandava perfumar seu velame com a fragrância de rosas de Damasco. A brisa anunciava com horas de antecedência a sua chegada aos portos por onde passava. Hoje se pergunta freqüentemente se existem perfumes afrodisíacos. "Algumas fragrâncias caracterizam-se pela predominância de notas orientais: madeiras aromáticas, musgo de carvalho, patchouli... São os tons de almíscar presentes nessas fragrâncias, geralmente quentes, pesados e com muito corpo, que dão um toque de mistério e sensualidade ao perfume" (retirado do site do Boticário). Além desses aromas, há os naturais do corpo humano, odores poderosos na atração sexual. Produzidos naturalmente pelo organismo humano, são tidos como aromas afrodisíacos. O odor dos genitais e das axilas é uma mensagem que vai diretamente para o cérebro, ativando o sistema de associação que desencadeia uma série de reações físicas e emocionais, que despertam a excitação. Napoleão Bonaparte, em suas cartas a Josefina, pedia para que ela não lavasse suas partes íntimas, semanas antes do seu regresso do campo de batalha. Casanova achava que no quarto da mulher amada havia emanações voluptuosas tão íntimas e balsâmicas que se tivesse de escolher entre esse aroma e o céu, escolheria sem dúvida o primeiro. As mulheres são mais sensíveis ao odor masculino quando estão ovulando e seus níveis de estrogênio são altos. O odor da transpiração do homem influencia os ciclos menstruais da companheira de cama. Assim como o odor do corpo humano é excitante, uma comida bem preparada o é, pois pode fazer despertar o desejo. Aroma e paladar andam juntos. E criam uma sinergia explosiva quando combinados a um ambiente propício. Aromas e sabores compartilhados alteram mente e o corpo. Uma refeição preparada com os alimentos certos, decorados sensualmente, no ambiente adequado, fazem milagres. Situação que por si só é afrodisíaca. Ela serve como uma preliminar sutil do amor. Compartilhar do alimento é o segredo. É preciso estar com a disponibilidade aberta totalmente. Ninguém ficará apaixonado, nem com toda refeição afrodisíaca do mundo, se não estiver como seu "eu" disponível para isso. Alimentação sensual, assim como todas as formas afrodisíacas que podemos encontrar, querem dizer uma celebração à vida. Quase um rito. Onde risadas, prazer, espontaneidade, criatividade e sensualidade à flor da pele são compartilhados profundamente ao mesmo tempo. Boa sexualidade é o ânimo pela vida. É a vida! Vida que continua... |
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