Poema para meu pai

Hoje serei uma filha obediente e pintarei
um arco-íris em meu poema. A ponte
mítica que liga os homens aos deuses, o
sinal da eterna aliança.

Queimarei incensos e me untarei com óleos
aromáticos.

Pousarei de flor em flor à procura do néctar
mais doce e disseminarei o polem
fecundador que em mim se entranhou.

Hoje não pensarei em coisas tristes e não
me lembrarei do que hoje não posso dizer.

Serei apenas a filha terna e obediente que
meu pai espera que eu seja e abrirei todas
as janelas, portas e poros para que a luz e o
ar entrem.

Arrastarei móveis para a faxina da
primavera e baterei o pó dos tapetes.

E com água e com cândida lavarei todas as
sujeiras e, ao fim, talvez exausta, tomarei
um banho com bálsamos almiscarados e
depois irei me deitar em lençóis de linho e
dormirei e terei sonhos bons

(E sonharei contigo e não cairei da cama e
não quebrarei o pinico!)

21/10/99

 

 
  

           

 
 

 

Maria Helena Moura

É mãe, mulher, advogada e aprendiz de poeta. Nasceu, cresceu, chorou, sofreu, amou, foi feliz e continua viva.

mariahelenamaia@superig.com.br