INVENTÁRIO
Dentro de mim tem uma floresta, sombria e
úmida. Tem frestas de luz, calor, picadas
de inseto
Rios fundos, sinuosos e barrentos.
Córregos claros e ligeiros
Borboletas, passarinhos
morcegos e corujas
Tem sagüis em alvoroço, jaguatiricas na
espreita
Tem árvores gigantes, de raízes grossas
rachando a terra
Palafitas e ocas de índio.
Cipós, cobras, porco do mato
Tem aranhas tecendo teias, tem orvalho
nas folhas, cachoeiras e pororocas
Tem animais no cio e odor de feromônio
Tem peixe grande comendo peixe pequeno,
tem onça caçando, tem bicho prenhe e
filhotes mamando.
Tem sêmen fecundando óvulos e ovos
eclodindo
Tem queimada, tem chuvas fortes,
tempestades de trovão; garoas mansas.
Tem inverno e tem verão. Tem febre
amarela, impaludismo, tem fruta madura,
tem urubu, cheiro de bosta, perfume de
flor.
Dentro de mim tem pau-brasil, tem índios
dançando pelados e curumins chafurdando
à beira do regato
Tem vazantes e tem enchentes. Tem
árvores submersas e plantas aquáticas,
vitórias régias pairando.
Dentro de mim tem um incêndio, tem
carvão, tem fumaça. Tem animais fugindo,
tem algazarra de pássaros, maritacas e
araras multicoloridas.
Tem boi-bumbá, mula sem cabeça e saci
pererê dentro de mim. Tem moça grávida
do boto, tem orquídeas exóticas e plantas
de curar.
Tem pajelança, tem cheiro de morte, de
terra molhada, de vida brotando.
Dentro de mim tem uma floresta, com
trilhas e clareiras. Tem veios de ouro, rios
de mercúrio, sangue quente jorrando,
coração pulsando, tem som de tambores,
rugidos de feras, piar de passarinho.
Tem jacarés sonolentos na beira do rio e
bandos de piranhas famintas.
Tem peixinhos coloridos, delicados colibris.
Dentro de mim existem grutas e cavernas.
Rios subterrâneos, de águas límpidas e
tortuosas.
Tem veneno de cobra, bichos peçonhentos.
Noite escura, clarão de lua, erva de Santo
Daime. Guerreiros de cabelos untados com
urucum. Arcos e flechas.
II
Dentro de mim existem cidades, de muitas
ruas e muitos becos. Tem parques e
avenidas.
Dentro de mim tem gente de todas as raças
e de todas as cores. Tem azuis, tem
amarelos, tem janelas abertas, tem
mosaicos coloridos, murais e monumentos.
Tem pombas iconoclastas cagando na
estátua da praça e ninhos de passarinho
nos beirais dos telhados.
Dentro das cidades que em mim habitam há
muitos aromas. Tem cheiro de urina e de
jasmim. Cheiro de comida. Cheiro de
cebola e de fritura. Tem cheiro de suor e
frescor de banho tomado.
Dentro de mim tem rios poluídos, tem
esgoto, tem fuligem, tem enchentes.
Dentro de mim tem favelas e tem cortiços -
tem tiros, tem facadas. Brigas de vizinho e
de marido e mulher.
Dentro de mim tem multidões de pessoas,
anônimos passantes, viajantes apressados,
turistas espalhafatosos.
Tem máquinas fotográficas, tem
computador, tem música, movimento,
dança, apito de fábrica.
Dentro de mim tem congestionamento, tem
brincadeiras de criança, sujeira de
cachorro. Tem carrossel e montanha
russa. Tem vertigem, tem mocinha na
janela, banco de jardim. Tem namorados
de mãos dadas, moleques de pés descalços,
latas de lixo e gatos vadios.
Dentro de mim tem cidades de muitos
idiomas, de muitos países e religiões. Tem
crente, tem ateu, tem macumbeiro, tem
judeu. Tem rezadeiras, benzedeiras,
carpideiras e mães-de-santo tem.
Dentro de mim tem comércio de
bugigangas e camelôs barulhentos. Tem
poeira, tem frio, tem calor. Tem pôr-do-sol
e noites estreladas. Tem festa de São
João, tem bandeirinhas e pipoca
estourando na panela.
Tem casarões antigos, jardins, vasos e
sacadas. Quadros na parede, portas e
cadeados. Cheiro de mofo e de gasolina.
Tem poças de lama, burburinho, dias de
ressaca, noites de festa. Tem namoros
escondidos, pensamentos turvos.
Dentro de mim moram muitos poetas. Tem
pedreiros, tem prostitutas, médicos,
engenheiros e dentistas - tem artesões e
agricultores. Tem gente rude, tem gente
rica, tem gente pobre, dentro de mim.
Dentro de mim existem muitas cidades de
muitos portos - navios que zarpam, navios
que chegam. Tem estivadores, ladrões e
cheiro de peixe.
III
Dentro de mim há um oceano de muitos
mares. Tem bacias e enseadas, águas
rasas e mornas, tem maremotos e
correntes marítimas. Tem geleiras e ilhas
dentro de mim. Tem algas que se
enroscam nas pernas e águas vivas que
queimam. Dentro de mim baleias se
acasalam e bandos de golfinhos acrobatas
se exibem. Tubarões de bocarra imensa
farejam sangue e peixes monstruosos
habitam as minhas profundezas abissais.
Tem banhistas e guarda-sóis emoldurando
os contorno do mar que há em mim. Tem
oferendas à Iemanjá, tem jangadas e
jangadeiros. Tem rede lançada e surfistas
manobrando ondas. Tem mergulhadores e
caçadores de tesouros. Piratas da perna de
pau, navegantes solitários, ostras e
pérolas. Tem cardumes de sardinhas e
ovas de esturjão.
Dentro de mim moram sereias que
encantam marujos e tem náufragos
sedentos nas imensidões de minhas águas.
Para dentro de mim correm as águas doces
dos rios que me inundam. Cortam florestas
e cidades, para dentro de mim.
IV
(disposições de última vontade)
Quando eu morrer, deixo a floresta e as
cidades para minha filha Ana Helena e o
vasto oceano para o meu filho Pedro que
possui o nome de um pescador - pescador
de peixes e de almas.
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