(Uma Fantasia de Carnaval) 

 



A madrugada se esforçava em permanecer, mas lentamente dava lugar a manhã que chegava célere, fantasiada com nuvens rosadas que a denunciavam por inteiro. A performance da escola levantava a platéia que se rendia dominada, a seu próprio modo acompanhando com entusiasmo frenético as evoluções e cantando em coro refrões de fácil assimilação. Fantasias e maquiagens emprestavam figuras oníricas aos cidadãos comuns que se transformaram em reis, rainhas, faunos, sílfides, animais fantásticos, meio gente, meio feras, simbiose perfeita da realidade e do sonho. Alegorias gigantescas, feericamente iluminadas, brilhavam desafiando as pobres imaginações. Homens e mulheres de todos os sexos se exibiam seminus, e se embolavam no ritmo arrebatador da marcação da bateria que a tudo e a todos subjugava, soberana. Os corpos ensuarados realçavam os excessos de brilhos e purpurina, os rostos exibiam as suas próprias máscaras de êxtase, avalizadas por sorrisos congelados e olhares perdidos, independentemente das fantasias que ostentassem. A catarse coletiva não poupava ninguém de seu torpor contagiante, o movimento constante, um desfile sem fim. A todos, figurantes e platéia, eram concedidos os seus quinze minutos de fama.

E de prazer.


Meu coração congelado a tudo assistia distanciado, olhos críticos que sempre buscavam o ridículo. O lugar, na frisa privilegiada, me foi cedido por um amigo abastado, já totalmente enfarado pelos excessos do corpo. Assim como ele, eu estava ali entediado e solitário, noventa mil pessoas excitadas pela comunhão pagã não conseguiam me fazer a elas pertencer, nem por um breve momento que fosse. Minha mente entorpecida pelo álcool que ingeri, esperança vã de me deixar arrebatar, era incapaz de conceder uma trégua para a alegria e a espontaneidade da folia. Rígido em minha máscara de eu mesmo, eterna fantasia sem graça que insisto em exibir, eu mergulhava mais uma vez no poço sem fim da angústia eterna.


Era só mais uma escola a desfilar, um cotejo infindo da multidão rumo à glória efêmera. Os excessos flagrantes cometidos no gestual, no vestuário e na dança frenética pasteurizavam as imagens, tornando-as todas uma única visão congelada. Câmeras ávidas tentam inutilmente capturar as imagens que nem olhos humanos podiam perceber.

Era só mais uma ala qualquer, pedaço alienado de um todo, extrato de um enredo incompreensível que uma marcha coordenada se esforçava em justificar.

Era só mais uma foliã qualquer, mulher de idade indefinida, fantasia sem sentido, a cor deformada por reflexos de todos matizes que explodiam de holofotes irrequietos.

Não era feia, não era bela. Sua evolução involuntária a trouxe para junto da minha frisa, movimento necessário ao deslocamento da massa. Seus olhos inconseqüentes encontram os meus, ao acaso. Por uma fração de segundo ele rompe as minhas barreiras, penetra meu interior oprimido, me ilumina e me descortina. Em vão eu tentei me proteger, foi tarde. Envergonhado, eu observei interessado o seu rodopio, era uma bailarina de caixinha de música perdida na orgia.

Ela volta, um segundo olhar se torna inevitável, eu cedo ao clamor da excitação de um encontro fugaz. Seu sorriso desconcertante emoldura seus olhos e me derruba, prostrado, numa sensação indescritível de cumplicidade total.

Naquele breve instante soubemos tudo um do outro. Nossas possibilidades infinitas afloraram definitivamente. O amor, o desejo e o respeito eram os únicos sentimentos possíveis. Nossas melhores pessoas estavam agora à flor da pele, nos dizendo dos amantes e dos companheiros que éramos, se assim quiséssemos.
Mais um rodopio nos afasta e o som ensurdecedor da música nos fala agora das impossibilidades intransponíveis.

Um desproporcional carro alegórico exibe criaturas monstruosas e avança faminto sobre o exíguo território de nossa relação.

Um último olhar nos resta.

Desta vez, com um gesto sutil dos dedos, ela me convida, gentil, a segui-la. Apenas uma pequena cerca de ferro nos separa de um futuro vislumbrado.

Só me faltou a coragem...

28.02.01

   
         

 
  

 
 

 

Ricardo Thibau
Arquiteto em atividade, 50 anos, carioca, escrevinho contos e poesias
por puro amor às letras e como forma de expressar e externar seus sentimentos, dores, angústias, prazeres e humor - nunca publicado.

r.thibau@uol.com.br