De Botânica, não entendo nada. Isso, entretanto, não impede que eu seja um profundo admirador da natureza, em especial do mundo vegetal. Me enchem os olhos os diversos e sutis tons de verdes naturais, de longe as minhas cores preferidas, e que nenhum pigmento pode imitar, pontuados aqui e ali pelas outras cores menores, à guisa de mero contraste. Tem também os seus deliciosos cheiros e odores que me inebriam, interação completa de terra e água através de seus sistemas alimentares e de reprodução.

Além dessa visão estética e sensorial, tenho a dimensão exata do seu papel fundamental, exercido no delicado e intricado equilíbrio ecológico do meio ambiente.

Olhando agora por um enfoque totalmente subjetivo, tenho aquela percepção da presença marcante da vida imóvel e silenciosa, porém pulsante e imponente, que se multiplica lenta e majestosa, sem que os olhos percebam exatamente.

Retornando ao ponto de vista científico da questão, nunca consegui entender nada sobre a sexualidade das plantas; para mim elas devem ser hermafroditas, ou talvez sem sexo, como dizem dos anjos.

Tudo isso, que volta, quanta explicação, para contar a estória de uma árvore amiga minha, que na falta de um nome que eu nunca dei (e nem perguntei!) vou chamar simplesmente de a Árvore. Sua espécie, nunca soube, um tipo parecido com as amendoeiras que povoam nossas ruas; seu sexo, sei lá, deve mesmo ser mulher já que é uma árvore, substantivo feminino como quer o dicionário, mas saber isso nunca tinha sido importante realmente até então.


Nossa relação ambígua começou absolutamente por acaso (como as melhores coisas da vida !) quando eu mudei aqui para o condomínio. Nas suas ruas desertas sempre dei minhas solitárias e reflexivas corridas umas três vezes por semana, e nossa aproximação se deveu a uma série de pequenas conveniências reunidas. A primeira delas era o fato de a Árvore estar localizada bem próximo de minha casa, dentro de um canteiro elevado em forma octogonal que servia de banco, ou seja, era um bom local para meus alongamentos, abrigado ali dos exageros do clima sob sua sombra acolhedora. Com o passar do tempo, porém, descobri surpreso que suas formas generosas se propunham para diversas possibilidades de exercícios, os quais explorei e incorporei, um a um, com grande prazer. Mas, de todas as boas sensações que a Árvore me proporcionava, se destacava a percepção de uma espécie de fio terra das nossas energias, que se formava quando eu a tocava nos galhos com as palmas das mãos abertas.

Através do contato com sua pele rude e enrijecida fluíram inúmeras e crescentes trocas com a Árvore, conversas absolutamente intuitivas, que se transformaram numa espécie estranha de amor fraternal muito intenso, baseado no tato. Ali, em contato físico com ela, desabafei minhas dores e angústias, segredei anseios e sonhos impossíveis, pedi e acolhi sábios conselhos. Dela, eu soube de movimentos dos ventos e dos rios subterrâneos, ouvi o farfalhar tímido das suas folhas na brisa, recebi respingos da garoa fria e fina do inverno e a bênção de sua sombra no sol inclemente do verão. Suas palavras, de língua não falada, foram meu consolo por anos. Algumas poucas vezes me espreguicei junto a outras árvores, suprema frustração, a minha Árvore era única, as traições que perpetrei só serviram para a dolorosa constatação da relação muito especial que tínhamos. Assim se passaram os anos, a Árvore se transformou num pedaço de mim e eu num pedaço dela. Mas, faz pouco tempo, descobri naquele ser que eu pensava já ser tão meu conhecido, uma forma surpreendente e inusitada. Ali estava bem na frente de meus olhos, no entroncamento do caule principal com os dois galhos mestres de sua estrutura forte e rígida projetada para o céu; era uma enorme fenda, uma bem formada vagina, lábios vigorosos de madeira envolvendo um negro e misterioso buraco do qual vertia um caldo negro e viscoso que escorria lentamente, liberando sutilmente o seu perfume adocicado.

Pura seiva.

Estou pasmo como pude, durante anos, não perceber aquela coisa enorme, escancarada e oferecida, que me olhava e me atraía, silenciosa e pedinte; a não ser, pouco provável, que essa transformação tenha acontecido recentemente sem que eu tenha me dado conta. De qualquer maneira essa descoberta só veio confirmar por inteiro os meus sentimentos secretos pela Árvore. Agora estou ciente e consciente, ela é uma mulher de fato, coisa que eu já devia saber há tanto tempo e nunca soube, por distração ou omissão.


Mas é certo, há muito fui atraído por suas atitudes passivas que sempre foram totalmente femininas, na maneira gentil com que me acolhe, mãe zelosa da palavra curta, certa e confortadora, na medida exata, nenhuma a mais; ou ainda, por seu jeito envergonhado de amante dedicada e maliciosa com que me atrai e me fez chegar perto, para tocá-la e me sentir tocado, sem nenhum medo.

Uma mulher ideal.

Para tê-la, já estou aqui vestido a caráter, calção, tênis, boné, óculos escuros e radinho, tudo pronto para correr, correr e correr. Ao final, vitorioso, exausto e encharcado, me jogo, feliz e sem remorso, nos seus braços.


Agora, tenho certeza, é dela por inteiro, o meu desejo...

22.02.01

 

 
  

           

 
 

 

Ricardo Thibau
Arquiteto em atividade, 50 anos, carioca, escrevinho contos e poesias
por puro amor às letras e como forma de expressar e externar seus sentimentos, dores, angústias, prazeres e humor - nunca publicado.

r.thibau@uol.com.br