![]() |
|
|
Fly me to the moon and let me play among the stars |
||
|
Hoje é o primeiro dia. Resolvi largar de você. Nada fiz. Não lustrei sapatos, nem arrumei estantes. Dormi. Acordei. Nem chorei. Olhei para o lado. Cama enorme, vazia. Nem eu me sentia estando ali. Queria a certeza de nunca mais acordar te vendo. Olhei, sulquei a cama com minha dor, mas não chorei. Não fui banhar-me. Recusei-me a fazer a rotina da lembrança. E por outro lado, sei que não suportaria novidades. Nem a rotina, nem a saudade. Não fui ao banho. Nem me lavei, nem chorei. Voltei à cama. Estava procurando sonhos, tentei não achá-los. E não achei. Preciso desistir de você. Não vou à praia. Nem poderia. Feito vento ou chuva mansa na água fria, fui me respingando de você, quando ainda existia em mim. Quando eras meu e eu só tua. Possessivos corações, ardorosas mãos... precisava, eu sabia... deixar você. Muitos foram os dias, vários os meses, poucos os anos, em que segredei, só a mim, que tinha você. As marcas do teu amor, nunca ostentei, eram minhas, muito nossas. Uma felicidade que nunca dividi. Estive com você sem que os outros, todos os outros, soubessem. Meus suspiros agora preenchem este espaço. Não consigo andar pela casa sem tropeçar em alguns, pisar em outros. Mas não chorei. Não vou chorar. Minha cabeça dói e não há aspirina que resolva. Você ainda não sabe, mas larguei de você. Como a Zita-arrumadeira quando chega tentei (ai, ai). Sou... era... ainda sou... tão preguiçosa... Bem, arrumei aqui onde estou. Criando um véu de silêncio, cobrindo os cds com tua manta - que guardei - cortando as músicas que calei e os sons que abafei. Nem arrumação, nem cantoria. Matei tua sonoridade na minha vida. Silenciei. A mim e a você. Tenho, você bem sabe, pavor. Não agüento a dor, tenho medo da solidão, dos sentimentos. Não agüento me ver amiga dos amigos, já que eles não sabem. Terei que ser uma não-eu, uma outra, aquela que eles conheciam sem saber que eu já era tua. Sem nem você saber, já te quero de volta. Mas não posso. Larguei você. Você ainda não sabe. E quando souber, estarei tão bem, tão boa, que terei largado de você sem dor. É o que pensará. Não tenha dó de mim. Nunca tenha. Nunca saberá o quanto deixei de mim em ti. Não quero viver sozinha. Nunca quis. Mas vivi. Eu nem te conhecia. Nem me conhecia. Nem me conheço mais. Nunca soube quem eu era. Precisei deixar-me cair em você para saber do não, do não sei, do talvez. Tudo isso para saber que alguma vez... não tua. Nem de minha. Sou nada de ninguém. E foi para me encontrar que resolvi remediar minha vida com a tua ausência. Mediquei-me sem conhecimento algum, longe das doutrinas que você me ensinou. E Aristóteles, tão falado por ti, que me perdoe, mas o amor jamais pertencerá às doutrinas da lógica e da ética. Nem filosóficas, nem pragmáticas, nem de tudo o quanto me falavas, quando nu, andavas pela casa, recitando clássicos, me ninando poesias, resmungando filosofia. Quem sabe um dia eu me encontre. Mas será sem você. Precisei largar de você. Tenho que largar de você. Cansei. Nem o ar me chega. Pensei em você. Consegui respirar. Não acreditei. Estou te mandando embora e ainda sinto você. Não chorei. Não vou. Nem gritar. Preciso me concentrar. Fui ler. Desci. Minha cadeira, colcha desfeita, almofadas no chão. Acho que dormi parte da noite sentada. Olhando a TV desligada, estava vendo você. Sentei, pensando refazer os passos da noite anterior, quando ainda te amava. Porque raios eu tinha que ter dormido? Por teimosia, birra até, tirei do nada, nossa... - na verdade sempre foi minha - a nossa música. Fly me to the moon De que me adianta ir à lua, cantar, ver estrelas, Marte, Júpiter. Queria era te cantar, te contar, te amar. Fill my heart with song Sou contra ver planetas. ODEIO cantar... cantar faz chorar, faz lembrar. Fiz meu mantra do dia: Não vou quebrar minhas coisas. Não vou chorar. Não vou quebrar as coisas. Não vou te amar. Não vou chorar... não vou te amar. In other words In other words In other words CHEGA! Te deixei hoje. Vou te deixar. Sei te largar.... Saberei. Preciso. Sofrer é verbo. 19.12.2001 |
|||
|
Maria Odila |