A exatamente um segundo antes do aparecimento da visão/luz ultimei o trabalho de estabelecimento da distância entre os meus olhos e aquele ponto assombroso na linha do horizonte do mar e precisamente localizado no sítio que dá início à fronteira entre esse e o outro mundo.


A gradação do escurecimento se dava desde a franja formada pelo quebrar das ondas na areia, parcamente iluminada, até os confins a muitas milhas da praia, absolutamente escuros, de tal modo que a impressão que nós tínhamos era a de que se estabelecera um caminho de águas tão salgadas quanto fundas que fosse dar num território do qual não tínhamos a mais vaga promessa.


Segundo as últimas medições, 100 trilhões de células tem o corpo humano, mas bastaram apenas duas no meu juízo para me dar conta de que estava diante de uma visão incomum. Minha parceira também percebeu o extraordinário de imediato. Fosse porque sendo Domingo noite, fosse porque não havia muita luz, o momento se me afigurou como sendo uma celebração de bodas, eis que eu havia acabado de fazer um pedido de casamento.


E no rastro dos raios que vinham em linhas - ora retas, ora oblíquas -, diretamente da visão/luz pros nossos olhos, coruscavam uma infinidade de cintilações de variadas pedras, possivelmente de safiras, jades, diamantes, opalas, ouros, pratas, seixos fluviais, turmalinas, ígneas lascas, esmeraldas, cristais translúcidos e assim como que instigantes espoucares de uma débil fonte de energia.


Por fim, nos demos conta de que era apenas e singularmente um dragão chinês que estava emergindo do Oceano Atlântico, se materializando na praia da Boa Viagem, nessa mui digna e leal cidade do Recife de Maurício de Nassau. Sem dúvida, um dragão marinho que viajara desde os longínquos mares asiáticos até aquela calidez da água ora verde, ora azul do nosso litoral.
A vaga dúvida inicial rapidamente se transmudou num vivo sentimento de medo, que em segundos tangenciou o horror, por via da constatação de que o dragão vinha com rapidez para a beira da praia, palmilhando a linha reta estabelecida sobre a ondas e formada pela própria luz que era emitida pelo corpo, mais particularmente pelos olhos, daquele ente encantado que chegava de salgadas águas antípodas.


E, sem palavras, acordamos determinar providências para viabilizar a fuga, haja vista a total falta de indícios se era pacífico ou hostil aquele aparecimento, despido de qualquer lógica ou explicação. Imediatamente após essa deliberação, nos demos conta de que a praia já estava totalmente deserta da presença, dos olhares e do testemunho de outros humanos, ali marcando presença apenas o meu vago deslumbramento e o incerto terror da criatura amada ao meu lado.


No gesto seguinte, o dragão, sua luminosidade, sua não declarada belicosidade e sua insinuante promessa de acontecimentos encantados, foi-se transmudando numa forma ovalada, a seguir perfeitamente redonda, diagonalmente dividida por um traço fino de nuvem, e começou, a partir do vermelho-sangue que matizava seu ventre, vestindo-se lentamente de um branco leitoso que foi varrendo das suas e das nossas imediações, de preguiçosa maneira, com muito jeito e graciosidade, os ares soturnos de sua chegada e começou a se altear, a se despir das iniciais promessas de impor temores e a se definir contra o fundo escuro do céu, tão levemente e tão graciosamente que começamos a nos convencer de que estava se metamorfoseando numa nova lua, tão majestosa quanto as que são anunciadas pelo calendário e, se alteando e se alteando, principiou um lento afastar-se do caminho luminoso sobre as ondas e, numa perpendicular trajetória, foi se ajeitando na busca do seu espaço no firmamento, de tal modo que respiramos aliviados e, no seguinte momento, completamente extasiados, de olhos fixos naquilo tudo, acompanhamos o fantástico alargar-se do diâmetro daquela forma corretamente redonda, selênica, prateada, que inundou toda a paisagem da praia da Boa Viagem com uma luminosidade diáfana e jeitosa, que perdurou até a chegada dos primeiros raios do sol nordestino, quando já estávamos, eu e a amada, ensaiando os primeiros cochilos do sono que nos levaria aos confins do infinito onde o dragão se recolhera e, em lá chegando, desencantamos o mistério daquela aparição, quando o pedido de casamento foi aceito e as bodas celebradas, e entendemos satisfatoriamente porque tudo havia acontecido daquele jeito, naquele hora, naquele canto de mundo e no mundo único que era composto pelos pensamentos das nossas duas almas.
 

 
  

 
  
 

 

Luiz Berto Filho 

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