A almofada era de listinhas rosa, azul e bege e estava rolando de quarto em quarto já fazia algum tempo. Pudera, estava suja e seu recheio todo embolado; realmente não era agradável ao corpo nem aos olhos. Assim, sabendo que ninguém mais faria isso, a não ser ela mesma, pegou, no último dia de abril, dia com sol e céu azul, a almofada e uma tesoura. Cortando ponto por ponto, foi abrindo suas entranhas, desvendando seus mistérios. Internamente, surgiu-lhe o pano com a intensidade de suas cores originais. E mais... uma amostra em crochê com três tonalidades de lã - cinza, branca e vinho. Tinha outra, em lã amarela, a imitar uma flor, com um detalhe, em ponto correntinha, a sobressair as bordas. A vermelha, uma rede cheia de pequenos sobressaltados pontos, a parecer pipocas. A lilás apresentava um desenho em ondas, com delicadas curvas a dar-lhe movimento. Nossa! Até uma almofada inacabada encontrou dentro da outra! E uma amostra pequenina, de fio bem fino, amarelinho, formando quadradinhos, o perfeito lado de um encontrando-se ao perfeito lado de outro. Aquela outra era a antevisão da colcha, de tantas colchas que foram feitas: uma para o tio-avô, outra para a avó, outra que seguiu para a Itália, outra que seguiu na cama. Tinha aquela amostra toda engraçadinha que começava como um bolinha e, pela magia dos pontos, terminava como um quadrado! Um pompom de crochê vermelho que, bem observado, não era muito difícil de fazer. Uma trama redonda, depois vários pontos altos no mesmo buraquinho da carreira de pontos anterior. Um sapatinho de crochê, que parecia uma botinha; uma touquinha de criança, que parecia metade de um coador de café. As brancas! Linha, lã, várias formas, vários desenhos. Uma, duas, três, quatro, cinco, uma quantidade sem fim de brancas! Eram triângulos dentro de triângulos; pétalas formando flores dentro de outras pétalas que formavam mais flores; aquela era de ponto segredo, toda aberta, a mostrar bem o outro lado. Tirou, ainda, pedaços de xales, amostras de como iniciar para não acabar em pontas. Liseuses da vida, brancas e violetas, que cobriram e agasalharam tantos braços e ombros de amigas, tias, primas, avós e, infinitas vezes, de crianças, na cama ou no colo de alguém. E foi achando e puxando para fora, também, as amostras de tricô com os pontos uniformes, ponto de "mani de fàta". A azul, uma amostra de decote em "v". Aquela outra, também em azul, casinhas de abelha. Aquela em verde, branco, azul marinho, vermelho, amarelo, verde, branco, azul-marinho, vermelho, amarelo, a repetir-se em listinhas de três carreiras de ponto meia... lembrava-se... era um pequeno pulôver feito pela avó para o primeiro neto. As tramas formando tranças! Vinte e oito carreiras faziam um oito, que se fossem repetidas formavam uma trança! Tranças em oito, losangos, quadrados, triângulos, retângulos, é o que foi encontrando, ressaltadas nas amostras. Amostras de calcanhar de meia, de arremate de uma gola, da curva de uma cava, de meia inteira, de meia manga, de punho largo, de barra estreita. Esta outra, tão suave... ficou na amostra, que era macia, verde azulado, salmon, amarelo claro, azul, bege, vermelho; pegou-a, sentiu-a entre os dedos, viva maciez de colocar no rosto. Esticou, esticou e frente aos seus olhos surgiu a maior delas: uma amostra com dez amostras, uma continuação da outra! Por fim, contou-as: 175 pequenas peças de amostras, carreiras, pontos, linhas e lãs, fios, fiapos, cores diversas, projeções carinhosas de peças de vestuário familiar, tempo ido de observação arguta, de transformação de ponto em traje. Tiradas para fora, uma a uma, seguiram as amostras o movimento inverso que ela mesmo utilizara em poucos anos passados, quando arrematou-as entre caixas e gavetas, formando, então, uma bela almofada. Esta naquele momento se desfez, interna e completamente, porque o que era a ser retido e absorvido já o havia sido, um tempo de sua mãe, um tempo de trabalho e amor, um tempo de boa lembrança que não cabia mais dentro de dois pedaços de pano, de listinhas rosa, azul e bege.

30.04.2001

 

 
  

  
  
 

 

Adriana Gragnani 
 
Paulistana, nascida na Maternidade Matarazzo, assumida mulher da net.

adriana.gragnani@uol.com.br