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O único problema era ter escolhido um prédio tão alto. Um prédio mais baixo permitiria que visse as pessoas e que elas o vissem antes de seu ato final; repartiria sua decisão com os passantes. Assim tão alto, o morrer parecia mais solitário. Bom... era hora de pular. Deixar para trás todas as mágoas, todos aqueles que o magoaram. Pena que não poderia ver a cara da ex-mulher quando recebesse a notícia de sua morte. Como ela podia tê-lo trocado por outro? Lembrou do quanto tinha se esforçado para agradá-la, de como era grande seu amor, de como sofria ao vê-la conversando com outras pessoas, como temia perdê-la. Sorriu ao se lembrar do dia em que brigara com o garçom que tinha exagerado nas atenções para com ela. Sujeito atrevido... se fosse hoje, poderia aplicar-lhe os golpes que havia aprendido. E o pessoal do trabalho? Como receberiam a notícia? Quem ficaria com seu cargo? Tinha tomado o cuidado de limpar os arquivos de seu computador. Ficariam com seu cargo, mas não com seus projetos e banco de dados. Já havia sofrido bastante quando deram um de seus projetos para um estagiário cuidar. Imagine só... um estagiário... Ele tinha dedicado horas, noites de sono ao projeto e queriam que outra pessoa o executasse... Como outra pessoa poderia executar algo que surgiu dele, que era como um filho? Uma rajada de vento mais forte e ele quase caiu. Precisou segurar no suporte do luminoso. Queria morrer sim, mas não assim, por acidente. Sua morte era um ato racional e deveria ser executada e vivenciada com detalhes. Detalhes... Sempre havia sido acusado de ser preso aos detalhes... Se a professora dedicava mais atenção a alguns alunos e ele se queixava, ela dizia que ele estava preso em detalhes. Se ele corrigia o modo como a ex-mulher cumprimentava outros homens, ela dizia que ele se prendia em detalhes que não existiam; o mesmo se ele se queixasse da atenção que ela dedicava aos parentes, sempre o deixando de lado... As pessoas podiam não concordar com ele, mas os detalhes eram tudo! Um olhar, uma expressão facial, um breve comentário, um pequeno gesto e ele sabia no que a pessoa estava interessada ou estava pensando... Tinha aprendido isso observando o melhor amigo. Sempre que estavam juntos e chegavam outros garotos, o amigo levantava as sobrancelhas; fazia o mesmo quando o professor de educação física o colocava como capitão do time. Foi o que fez quando viu pela primeira vez a filha do açougueiro. E embora possa ter passado desapercebido para a maioria das pessoas, podia ser visto com as sobrancelhas elevadas nas fotos do casamento. Talvez tenha errado em não dizer ao amigo como ele ficava com cara de paspalho quando levantava as sobrancelhas... Mas foi melhor não ter falado nada mesmo. Lembrou de como fez a irmã mais velha chorar ao dizer que ela estava gorda com o vestido de noiva. Na verdade ela estava bem bonita, conforme ele confessou ao padre depois, mas é que o assustava a idéia de não tê-la mais em casa, para ajudá-lo com as lições, para cuidar dele e dos irmãos na ausência dos pais. Demorou até que ela falasse com ele outra vez; e escolheu o pior dos momentos para falar, mostrando para ele o sobrinho recém-nascido. Antes não tivesse falado, porque enquanto ela falava, ele podia ouvir em seus pensamentos que agora, definitivamente, ela não se importaria mais com ele. Outra rajada de vento. Estava ficando frio e ele pensou que deveria se apressar em saltar. Era um homem decido; sempre o tinha sido; acontece que devia fazer parte da morte este processo de reviver as coisas. Tinha visto um documentário sobre pessoas que morreram e voltaram a viver e como elas se referiam à experiência de ver toda a vida passar em um segundo. Então era chegada a hora... Olhou para a lua meio escondida pelas nuvens e pensou que o sol ao nascer já não o encontraria; e no próximo verão o mar já não o teria a contemplá-lo; a melhor pizza de mussarela e manjericão não o teria para gemer de prazer quando o queijo esticasse...
Que outros se aquecessem ao sol; que outros contemplassem o mar; que outros comessem todas as pizzas do mundo.
Apoiado no suporte, desceu da murada, ajeitou o terno e os cabelos e desceu as escadas até o elevador.
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Maria M. F. Duarte É de SP e até agora só tinha escrito relatórios técnicos. fosfora@uol.com.br |