Gracinha, era assim que a chamavam, ali, naquela cidadezinha onde morava.

Tinha uns seis anos e corria solta, senhora do mundo, aquele mundinho gigantesco e mágico da sua infância, cheio de frutas, de terrenos baldios, matas.

Preferia brincar com meninos, subir em árvores, andar de bicicleta, escalar barrancos de terra vermelha, os joelhos invariavelmente esfolados.

A mãe, com outros filhos menores para cuidar, desdobrava-se como podia, mas não tinha tempo para prestar muita atenção e deixava a menina livre, entrando e saindo de casa feito um pequeno redemoinho. Seu pai, delegado de polícia da cidade, garantia-lhe a entrada livre nas matinês de cinema e a deliciosa liberdade de que desfrutava.

Menina sapeca e irrequieta, conhecia a cidade de cabo a rabo, todos os seus lugares, seus esconderijos. Não tinha medo de menino maior e brigava com eles para defender seu irmão, mais velho e medroso. Quando tinha qualquer problema, chamava Gracinha que, enxerida, já ia tomando conta do pedaço.

Não tinha quem não conhecesse ou gostasse de Gracinha.

O mundo de Gracinha era feito de alegria.

Num domingo de sol, depois da missa, Gracinha foi xeretar na construção que se erguia ao lado da sua casa.

Seu Willian, o farmacêutico, estava lá. Pegou nas mãos de Gracinha e levou-a até a área de serviço. Levantou-a em seus braços e a colocou em cima do tanque de lavar roupas.

Abaixou-lhe as calcinhas e, Gracinha, sem dar um pio, descobriu que o pecado existia e era úmido e áspero.

 

 

  

 

  Maria Helena Moura
 
É mãe, mulher, advogada e aprendiz de poeta. Nasceu, cresceu, chorou, sofreu, amou, foi feliz e continua viva.


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